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O BIBLIOTECÁRIO “GROWTH HACKER”

Na área da Biblioteconomia há um campo de estudo e de preocupação dedicado ao usuário da informação. Trata-se dos estudos de usuários que são processos norteadores, dos quais se valem bibliotecas, centros de documentação e/ou outros serviços de informação, para revisarem as suas atividades e definirem os seus objetivos primordiais. Em especial, aqueles dedicados à prestação de serviços e de atendimento às necessidades de informação do público.

Murilo Bastos da Cunha (R. Bibliotecon. Brasília 10 (2): 5-19 jul./dez. 1982), comentando artigo de Wilson-Davis (Asilib Proceedings, 29(2): 65-69, Feb. 1977), destaca que as pesquisas sobre estudos de usuários podem ser de dois tipos: (a) Estudos centrados na biblioteca: a investigação de como as bibliotecas e os centros de informação são utilizados; (b) Estudos centrados no usuário: como um grupo particular de usuários obtém a informação necessária para conduzir o seu trabalho.

O ponto a realçar, sobre o tema, é que o estudo de usuários engloba aspectos multidisciplinares, não sendo fácil definir o seu escopo. Entretanto, a postura e atenção centradas no usuário têm sido, atualmente, o termo chave das empresas da economia e do empreendedorismo digital.

No cenário da economia digital, surge no Vale do Silício, o popular celeiro de startups e de inovações tecnológicas disruptivas, localizado na Califórnia (Estados Unidos), a figura do profissional da moda, conhecida pela denominação "growth hacker". Não há, ainda, tradução específica para o português, mas podemos chamar de "técnicas de crescimento". É um termo novo para uma preocupação antiga: como fazer para que a empresa cresça exponencialmente? Ou, no caso bibliotecário, como fazer para que a biblioteca, centro de documento ou serviço de informação se expanda continuamente?

Esse novo profissional apresenta um perfil misto de marqueteiro, analista de dados e programador. Sua função principal é a de criar e testar estratégias para que as empresas cresçam e de forma rápida na sua área de atuação ou modelo de negócio desenvolvido.

Para alcançar esse objetivo, as empresas constituem a área de "growth" (crescimento) visando entender o desejo dos clientes, pensar em como adequar seus serviços e produtos para agradá-lo, testar essas mudanças e/ou ideias e medir os resultados. Em realidade o que as empresas buscam é o aumento lucrativo de seus negócios ou a maior atração e acesso ao seu site ou aplicativo, por exemplo. E, neste enfoque, o cliente é a fonte de dados, uma planilha matemática de mapeamento do futuro lucro comercial.

Essa atividade contempla uma metodologia que pode ser aplicada em uma série de negócios, dos mais diferentes modelos e tamanhos. Com o "growth hacking", não há a necessidade de ser uma empresa com faturamento anual de milhões. As pequenas iniciativas de negócios podem usar essa estratégia para alavancar seu crescimento.

Mudando a visão comercial, esta metodologia objetiva realizar, o que faz a biblioteca (ou deveria fazer) para agregar valor aos seus serviços e produtos informacionais. Porém há um diferencial importante para a biblioteca, que olha para o usuário como um ser humano, e atender suas necessidades é favorecer o desenvolvimento humano. 

Como já mencionado, o escopo dos estudos de usuário é interdisciplinar. Neste sentido, para o desempenho de um "growth hacker" algumas habilidades e competências são requeridas como: criatividade, empatia, e o entendimento de psicologia. E a metodologia do "growth hacking" poder ser explorada em organizações de informação, com uma visão humanística e menos comercial.

A denominação dessa profissão da moda, foi cunhado em 2010 pelo norte-americano Sean Ellis, que foi chefe do marketing na empresa Dropbox (serviço de armazenamento online). É desta empresa um caso clássico da área. No início das suas operações, a empresa fornecia espaço gratuito a quem recomendasse o produto a amigos. Uma ação de baixo custo que elevou o número de usuários de 100 mil para 4 milhões em pouco tempo.

Sendo profissão recente, há poucos cursos de formação na área. Na maioria, os profissionais são autodidatas ou com formação em marketing e que aprenderam a analisar dados sobre consumidores ou especialistas em números que estudaram marketing digital. Poderiam também ser bibliotecários com competências em marketing digital. Afinal, como realçado por quem atua nesta atividade, é um profissional que pode possuir várias habilidades gerais e ter uma parte em que seja especialista. Ter conhecimentos básicos de programação é boa ajuda, para poder comunicar a um profissional de TI as mudanças a serem feitas em um site ou no aplicativo da empresa. Porém o essencial mesmo é ser criativo, original e analítico. 

Para bibliotecários interessados em melhor conhecer ou se iniciar nesta área, é possível encontrar informações na internet. Em termos de literatura introdutiva, há a indicação do livro de Sean Ellis, "Hacking Growth" (editora HSM, R$ 59,90, 328 págs.) .Com relação aos cursos de formação em "growth hacker", esses começam a surgir no país.

Cursos desse tipo são projetados pela Udacity, organização educacional do Vale do Silício especializada em tecnologia. A escola oferece formações em marketing digital e ciência de dados, disciplinas que devem compor o currículo do "growth hacker". O preço estimado é de R$ 1.000.

A agência Growth Team programa sua academia de "growth hacking". Ela já gerencia um grupo de "growth hackers" brasileiros, no Facebook. O grupo conta com 4.600 membros, que compartilham dicas. A estimativa para uma formação completa na área é de R$ 4.497.

A escola Descola lançou um curso de duas horas de duração, com leituras recomendadas, e que custa R$ 149. A aula é uma introdução ao "growth hacking" e ensina a colocar algumas táticas de crescimento em prática.

Observa-se que sendo uma profissão da moda, o tema é “super quente", o que motiva o aparecimento dos cursos e o alto preço cobrado.

Ressalte-se que o bibliotecário de referência poderia olhar para esta nova área e explorar seu potencial de habilidades e competências para, quem sabe, potencializar ou inovar os serviços de atendimento ao usuário, porém mantendo o olhar humanista.

Pois, se conhecer o usuário, informar-se sobre o consumidor, valorizar o cliente, analisar as demandas do público é a estratégia das empresas para o sucesso dos seus modelos de negócio. Para as bibliotecas, em geral, é uma estratégia de sobrevivência, no contexto de uma sociedade digital.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.