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DIÁLOGO ENTRE O USUÁRIO E O CATÁLOGO DA BIBLIOTECA

Na atualidade, os catálogos bibliográficos encontram-se pressionados diante dos recursos e ambiente digitais no qual se insere o universo bibliográfico. 

Neste sentido, o esforço conduzido pela IFLA desenvolveu a nova declaração dos princípios internacionais de catalogação destinados aos catálogos de bibliotecas online, bem como seu propósito de servir à conveniência dos usuários. 

Os novos princípios, como sabemos, também orientam o desenvolvimento de normas catalográficas destinadas à representação descritiva de materiais informacionais impressos e digitais; do controle de autoridade; e, ainda, dos processos de construção dos catálogos bibliográficos. 

Os princípios também são aplicados na construção de bibliografias e arquivos de dados criados ou reprocessados por bibliotecas, arquivos, museus e outras comunidades de informação.

Toda a condução dos Princípios preconiza, como determinante, a conveniência do usuário. Neste contexto, o catálogo reassume a função de ser o instrumento efetivo e eficiente que permita ao usuário: 

§ Encontrar recursos bibliográficos numa coleção como resultado de uma pesquisa (e que pertençam à mesma obra; expressão; manifestação; e associados a determinada pessoa, família ou entidade coletiva; um determinado assunto; e outros critérios como: língua, lugar de publicação, data de publicação, tipo de conteúdo, tipo de suporte, etc.).

§ Identificar se a entidade descrita corresponde à entidade procurada ou distinguir entre duas ou mais entidades com características similares);

§ Selecionar um recurso bibliográfico apropriado às necessidades do usuário;

§ Obter o acesso, ou seja, fornecer informação que permita ao usuário adquirir o item.

Estes indicadores estão na base dos atuais conceitos preconizados nos requisitos funcionais, e que modelam o processo catalográfico. Neste texto, é apresentado uma versão adaptada e traduzida do documento: “A Conversation Between a Patron and the Library Catalog”, elaborado pelo bibliotecário Jim Weinheimer (livre pensador da área da Biblioteconomia), que de maneira descontraída, aborda a consistência do catálogo bibliográfico sob os novos princípios moldados no FRBR. 

Com humor, Weinheimer indaga sobre o que as pessoas realmente querem de um catálogo bibliográfico e o que nós, bibliotecários, achamos que os usuários querem. Como um pouco de imaginação, quem sabe, se possa pousar um olhar crítico sobre os novos conceitos da catalogação. 

Por meio de um diálogo, imaginado entre o usuário e o catálogo da biblioteca, procura-se visualizar sobre o que uma pessoa comum pensa ao consultar o catálogo. O que passa pela sua mente sobre como os catálogos bibliográficos funcionam? 

A proposta desta impossível conversação, é gerar uma reflexão, no que se refere à compreensão sobre as reais necessidades dos usuários, preconizados pelos novos princípios, sob designação das “tarefas” destes no uso dos registros bibliográficos. No documento original, Weinheimer utiliza dois personagens (usuário e bibliotecário).

O bibliotecário simboliza o catalogador, o catálogo e as normas de catalogação. Afinal, as qualidades e defeitos verificados em um catálogo bibliográfico é, por extensão, reflexo das qualidades e deficiências de seu criador e mantenedor – o catalogador. Assim, segue-se o diálogo:

Usuário: Olá! Eu gostaria de obter um exemplar das aventuras de Huckleberry Finn.

Bibliotecário: Claro! Qual delas você gostaria?

Usuário: O que você quer dizer com qual delas?

Bibliotecário: É que temos muitos itens das manifestações, das diversas expressões, da obra Huckleberry Finn de Mark Twain. Qual você prefere: ouvir a obra em um áudio-cassete, assistir um vídeo adaptado da obra, ler um livro impresso ou um livro eletrônico, ou ainda, qualquer outro suporte no qual a obra encontra-se registrada para leitura?

Usuário: Eu só quero o livro.

Bibliotecário: Certamente, em qual expressão que você quer este livro? Em francês, português ou espanhol?

Usuário: Eu só quero uma cópia em inglês.

Bibliotecário: Claro! Em qual manifestação que você gostaria?

Usuário: O que quer dizer com manifestação?

Bibliotecário: Temos muitas manifestações publicadas em anos distintos e por diferentes editoras. Qual delas você gostaria de obter?

Usuário: Mas quais são as diferenças?

Bibliotecário: Bem, esta é uma edição publicada pela American Publishing Company, em 1899, com 375 páginas. Aqui está uma outra edição publicada pela Modern Library com a data de copyright marcada entre colchetes [1950?], com 591 páginas. E, também, tem uma outra publicada pela Harcourt Brace and World, em 1962, com 247 páginas. Tem, ainda, uma outra publicada pela Harper and Brothers, em 1918, com paginação, xix páginas, 3 folhas, 404 páginas. Uma outra que foi publicada...

Usuário: Pare! Eu não me importo com isso. Você está me contando sobre os detalhes da publicação. Quais são as diferenças entre um livro publicado em 1962, e outro publicado em 1918?

Bibliotecário: O que você quer dizer?

Usuário: Quero saber quais são as diferenças em relação a publicação de 1962 e a publicação de 1918?

Bibliotecário: Bem, a publicação da Harcourt Brace and World, de 1962, tem 247 páginas. A outra publicada pela Harper and Brothers, em 1918, tem a sequência de paginação: xix páginas, 3 folhas, 404 páginas.

Usuário: Mas você ainda está falando sobre as diferenças entre os livros físicos, quando estou interessado no romance que Mark Twain escreveu, e não nas diferenças entre os livros físicos. Quais são as diferenças entre o texto de um para o texto do outro livro?

Bibliotecário: Um texto tem 247 páginas, enquanto este outro tem 325 páginas e, neste livro, a paginação é xix páginas, 3 folhas, 404...

Usuário: Pare! Diferenças como estas podem ser ocasionadas pelo tamanho ou tipo de margens ou ilustrações dos capítulos, ou de muitas outras coisas que poderiam explicar essas diferenças. Os textos podem ser exatamente o mesmo? Quais são as diferenças entre os textos?

Bibliotecário: Você quer dizer diferenças nas próprias palavras?

Usuário: Sim!

Bibliotecário: Eu não sei. Isso não está registrado. É uma informação importante para você?

Usuário: Não, realmente não. Mas é mais importante do que aquela que você está me dizendo. Eu só quero uma cópia do romance.

Bibliotecário: Certamente! Qual delas você gostaria? Temos vários itens de muitas manifestações ...

Usuário: Eu realmente não me importo. Quero apenas uma cópia em Inglês. Qualquer uma. Basta escolher uma cópia para mim.

Bibliotecário: Mas eu não posso fazer isso. Eu sou um Bibliotecário e seria antiético eu selecionar o material de leitura para outra pessoa. Acreditamos na liberdade de escolha, na liberdade de consciência, na liberdade de pensamento, na liberdade de expressão, e...

Usuário: OK! OK! Vou levar o que foi publicado pela Harper em 1918.

Bibliotecário: Certamente. E qual item você gostaria? Temos dois itens desta manifestação.

Usuário: Quais são as diferenças entre eles?

Bibliotecário: Não há diferenças. Eles são duplicatas um do outro. Apenas, que um deles tem um código de barras diferente do outro.

Usuário: Então, você está me dizendo que o texto de ambos é exatamente o mesmo? Como você sabe que o texto é o mesmo, mas não sabe sobre os outros livros com datas e paginações diferentes?

Bibliotecário: Bem, isto é a mesma informação da publicação. Assumimos que o resto também é o mesmo. Nós não comparamos palavra por palavra das cópias, por isso, não sei se o texto atual é exatamente o mesmo ou não. Isso importa para você?

Usuário: Não, agora não. Ainda assim, você tem algumas ideias estranhas sobre o que é ou não uma cópia. Tudo está baseado nas diferenças entre os livros e não nas diferenças do texto, porém, é o texto que me interessa. Eu tenho uma pergunta.

Bibliotecário: Certamente!

Usuário: Por que o catálogo funciona desta forma?

Bibliotecário: Porque estas são as tarefas que os usuários querem e precisam ser capazes de realizar.

Usuário: Quais usuários?

Bibliotecário: Todos os usuários.

Usuário: Quem determinou que é isto o que os usuários querem?

Bibliotecário: Essas necessidades foram determinadas há muito tempo. Foram ditadas por Charles Ammi Cutter em um documento sagrado de 1876, onde ele listou os objetivos do catálogo. Suas indicações foram, posteriormente, transferidas para o mundo da internet por meio de outro documento sagrado chamado “Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos” [Functional Requirements for Bibliographic Records], ou ferber, embora eu, pessoalmente, ache a palavra repulsiva e prefira FRBR. Assim, foi declarado que as tarefas dos usuários são: encontrar, identificar, selecionar e obter; obras, expressões, manifestações e itens; por seus autores, títulos e assuntos.

Usuário: Bem, eu sou um usuário e preciso de muitas outras coisas. Em bancos de dados de texto completo eu posso fazer todos os tipos de pesquisas, analisar os textos e tomar decisões. Acho que posso entender que, se você não tem qualquer texto completo não pode examinar os itens imediatamente, e alguém terá de fazer uma escolha entre os recursos similares. Fornecendo-me as datas de publicação e os números de páginas, você não me ajuda a tomar uma decisão coerente. Se eu puder olhar para uma coisa diretamente, eu posso decidir o que eu quero. Por isso, se eu sou capaz de examinar as versões, posso decidir o que é mais fácil de ler ou se tem páginas caindo, ou simplesmente escolho qualquer um que eu queira. Caso contrário, eu estou sendo forçado a escolher textos com base em informações que não significam nada para mim. Como é que vou decidir se eu quero algo publicado em 1918 ou em 1962, sem saber quais são as diferenças? Por que é que estas informações deveriam ter significado para mim?

Bibliotecário: Eu não sei. Você sempre pode navegar nas prateleiras e lá escolher um item.

Usuário: Mas isso não está usando os registros bibliográficos para selecionar os itens. Na verdade, só me aponta para as prateleiras certas onde navegar e é aí que eu seleciono o item real. Eu quero apenas examinar, posteriormente, o que você tem para oferecer. Assim, as perguntas que você me pede, me lembra da questão que a minha filha sempre me faz: Você prefere morrer de sede no deserto ou congelar na neve até a morte? Como é que alguém deveria responder esse tipo de pergunta? Mas a minha filha a mantem, até que eu lhe dê uma resposta, por isso eu digo, prefiro congelar até a morte na neve, e então ela começa a perguntar: Por quê?

Bibliotecário: Oh! Mas, de acordo com os documentos sagrados da biblioteca, o catálogo bibliográfico ainda está sendo projetado para atender as necessidades dos usuários. E é para deixá-los encontrar, identificar, selecionar e obter, obras, expressões ...

Usuário: Pare! Tudo o que sei é que, com as informações que você está me dando, as respostas são: Eu não me importo!

Bibliotecário: Tudo bem. Você pode ir para as estantes e fazer a sua própria escolha, navegando os livros. Será que você ainda gostaria do livro publicado pela Harper em 1918?

Usuário: Sim ou não. Eu não me importo. Ele é tão bom quanto qualquer outro.

Bibliotecário: Gostaria de reservar o item 1?

Usuário: OK.

Bibliotecário: Eu sinto muito. Verifiquei que esse item será devolvido em um mês. Gostaria de reservá-lo?

Usuário: Que tal o item 2?

Bibliotecário: Certamente. Aqui está o número de localização onde você pode encontrá-lo na estante.

O Usuário vai até uma estante e retorna 20 minutos depois

Usuário: Eu não consegui encontrá-lo.

Bibliotecário: Deixe-me dar uma olhada. 

O Bibliotecário vai até a estante e retorna 20 minutos depois

Bibliotecário: Eu não consegui encontrá-lo também. Ele deve estar guardado fora de local ou foi roubado. Lamento muito. Vamos ter que efetuar uma pesquisa sobre o livro e pode ser necessário comprar uma nova cópia. Se você deixar suas informações de contato, posso retornar para você assim que terminarmos a pesquisa.

Usuário: Talvez eu deva ir às lojas do Borders Group.

Bibliotecário: Sinto muito, mas eles foram à falência.

O texto original, mais completo apresenta questões a serem refletidas pelos bibliotecários, inclusive a de atentar para o elemento humano do bibliotecário de referência. Se ele é retirado da cena, vemos como limitante e confuso o catálogo da biblioteca pode ser quando deixado por conta própria. 

Se o objetivo é atender as necessidades dos usuários, o catálogo deve responder o que está, realmente, disponível para as pessoas, em vez de mostrar apenas o que a biblioteca possui. Além disso, deve fornecer informações que sejam relevantes para os usuários, não apenas para os bibliotecários.

Mas estas são apenas a ponta de uma discussão mais profunda, que os bibliotecários devem pautar, em suas atividades técnicas.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.