ALÉM DAS BIBLIOTECAS


O ENCANTO DO CANTO DAS BALEIAS

Talvez seja mera impressão. Talvez sejam os resquícios de tantas tragédias que espocam em território nacional e por todos os continentes – guerras, terrorismo, tragédias anunciadas ou provocadas pela ira da natureza ante o desrespeito humano à sua sobrevivência, notícias de corrupção e de desvios comportamentais de todos os tipos. O fato é que, pouco a pouco, tenho percebido que, nos últimos tempos, venho escrevendo muito mais movida pela tristeza do que pela alegria, pela incerteza de dias melhores do que pela certeza do sol de amanhã. É como se meus textos (mensais ou não) bebessem das mágoas e dos resíduos putrefatos que jorram de corações em agonia ou de corpos que latejam de dor.

No entanto, eis que, entre tanto lixo cibernético que circula sem controle, é possível localizar um hino de amor que soa a uma possibilidade de renovação, reflexão e beleza. São as baleias que sussurram uma serenata plena de êxtase. Trata-se de iniciativa da segunda maior companhia de telecomunicações da Austrália, SingTel Optus Pty Limited, com sede na cidade de Sydney. Instalada ainda na década de 80 (século XX), sob a designação de Aussat, mantém cerca de 11 mil colaboradores (dados de 2008) envolvidos com a produção de telefones fixos e móveis; redes eletrônicas de informação e de comunicação, ênfase para a internet; tevê por cabo; linhas alugadas; transmissão de dados; e outros eventuais produtos. Não obstante atuação tão abrangente, ao longo das décadas passa a enfrentar concorrência acirrada de “mil” competidores. 

Seus executivos vão em busca de inovação e encontram! Recorrem a pesquisadores da University of Queensland, localizada em Estado homônimo da Austrália. Eis uma linda e comovente iniciativa. Há tempo, cientes de que as baleias comunicam-se ao longo do oceano por meio de belas canções de amor em sons previsíveis e usuais, a Optus, em iniciativa de marketing institucional, mas de perfeição ímpar, investe na criação do “Projeto Canto da Baleia.” O intuito é comprovar a adesão de diferentes espécies de mamíferos cetáceos e marinhos, sobretudo, as que pertencem às famílias dos balenídeos e dos balenopterídeos, ao som emitido por orquestras reais: suas canções assemelham-se às regras rítmicas de composições musicais do ser humano.

O resultado é fantástico! À medida que os músicos ecoam seus arranjos em embarcações fugidias, as baleias começam a se aproximar e, simplesmente, para surpresa generalizada de todos, encantam com seus cantos uníssonos, simultâneos e harmoniosos. Para os mais sensíveis, é possível ouvir o que se passa como um sonho em vídeo largamente difundido nas redes sociais, em especial, no facebook, no WhatsApp e no YouTube. Neste último, o endereço é https://www.youtube.com/watch?v=Y6czoDEQ0a8, sob o título “Whale song.” Neste cotidiano de tanta correria, vale a pena parar e embarcar nas profundezas das águas dos oceanos ao som de instrumentos comandados por humanos em conjunção ao canto das baleias. 

Há tentativas registradas de colocar letra na composição do “Canto da Baleia”, inclusive já com tradução para o português. Distante de transcrição integral, há trechos delicados, sensíveis e, ao mesmo tempo, sutis. Por exemplo, diz-se: “[...] o sol estava no meio das nuvens; o sol olhava para fora. Expunha uma trilha de neblina e vapor. Os barcos seguiam as ondas perdidas, enganando amigos [baleias] debaixo do mar [...] Elas nadam. Isso é liberdade. É algo lindo de se ver. Elas cantam [...] Caçadores da terra, caçadores do mar, exploram qualquer coisa por dinheiro. Mas vocês jamais aprisionarão seus corações. Se eu estivesse perdido no mar com aquele barco baleeiro à frente, eu gostaria de ser a baleia”, que encanta navegantes e viageiros com seu canto e seu encanto! 

Elas brincam de meninas travessas e inquietas! Quiçá, imitando a mitologia grega, concorram com as amigas sereias na tentativa de enfeitiçar ou seduzir qualquer um de nós, reforçando as palavras atribuídas a Carlos Drummond de Andrade: “O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.”


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”