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CATALOGADOR, PROFISSÃO EM METAMORFOSE

A revolução digital, ainda em evidência, teve início quase da noite para o dia. Enquanto outros meios de comunicação, como o rádio e a televisão, levaram décadas de desenvolvimento e de gerações de pessoas para serem aceitos, apenas alguns anos bastaram para a internet alcançar uma onipresença social. Além do impacto causado em toda área de conhecimento e de atividade laboral. 

Neste contexto, dos impactos, encontra-se a atividade do catalogador que passa de uma ênfase no tratamento de recurso impresso para o digital. Porém, “mudança” é um conceito constante no trabalho bibliotecário.

Na introdução de sua obra: Versuch eines Vollstãndigen Lehrbuchs der Bibliothek-Wissenschaft, publicada em 1808, o monge alemão Martin Schrettinger (1772-1851) comenta que a memória do bibliotecário não poderia ser parte inseparável de um plano de organização da biblioteca. 

Justificava que, para este caso, sempre que o bibliotecário fosse substituído por outro, a coleção bibliográfica perderia a sua utilidade e, nesse momento, deixaria de ser uma biblioteca. 

A obra marcou o nascimento da Ciência das Bibliotecas, bem como indicou a importância de processos técnicos e tecnológicos aplicados à organização e ao tratamento do acervo bibliográfico.

No cenário atual, da ambiência digital, na área da Biblioteconomia, parece ser postura recomendável, seguir a citação do “filósofo” Raul Seixas, que décadas atrás já preconizava na letra de sua música “Metamorfose Ambulante”:

Prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

 

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo

 

Eu quero dizer

Agora o oposto do que eu disse antes

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

 

Adaptado para a esfera bibliotecária, talvez possa soar assim:

 

Eu, catalogador, prefiro ser

Um profissional em formação contínua

Do que ter aquelas velhas regras determinísticas

Para todo tipo de artefato documental.

 

Assim, um questionamento que emerge é se haverá futuro para os catalogadores de bibliotecas?

Nos últimos anos, bibliotecários dedicados à atividade catalográfica devem ter percebido o aumento crescente dos recursos digitais e de um maior acesso ao espaço da web para dispor ou buscar informações. 

O espaço web é gerador da superabundância da informação e de um maior atropelo, pelos usuários, no acesso e uso da informação. Nas bibliotecas, maior atenção tem sido dedicada as ações e aos programas de competência informacional para o usuário, e pouca atenção à catalogação e a sua importância no atendimento às necessidades dos usuários.

Neste cenário da informação, o usuário ou o consumidor se vale de comunidades da própria web ou de especialistas em informática, do que da biblioteca para se adestrar nos percursos do acesso à informação. Diante desta realidade, há necessidade de catálogo bibliográfico como o existente na atualidade?

Na esfera universitária, um número grande de acadêmicos evita o catálogo bibliográfico, em favor de outras ferramentas de descoberta. O catálogo tem, cada vez menos, representação no universo de busca da informação. 

Relatório publicado, em 2005, pela Universidade da Califórnia (Rethinking how we provide bibliographic service for the University of California), comenta que para permanecer, de forma concorrencial, no mercado da informação, a biblioteca precisa incorporar maneiras eficientes de obter, criar e exportar metadados. 

O catalogador, portanto, precisa responder às demandas pelo enriquecimento dos seus dados, com novas maneiras de agregar valor e fornecer serviços exclusivos aos usuários, sem drenar o orçamento da biblioteca.

Na atualidade, as informações são coletadas de uma infinidade de fontes, antes inimagináveis, e os bibliotecários precisam se adaptar para atender às necessidades do público em geral. 

Michael Cerbo, em artigo sobre o futuro dos catalogadores, observa que a necessidade de catalogadores, princípios e regras de catalogação, nesta “era do Google” de pesquisa e navegação na Web, está em discussão. 

Em pauta, se há, ainda, necessidade de catalogadores, como anteriormente. Até pela expectativa de que a gestão de bibliotecas seja mais colaborativa, descentralizada e baseada na Web. 

Já, outros pontos de vista, destacam a maior necessidade da catalogação. Com a era digital, desponta novas oportunidades aos catalogadores, como o de desenvolver catálogos integrados a todos os programas e serviços de informação.

Em realidade, ao se prospectar a literatura sobre esse assunto, se visualiza uma mudança dramática da profissão. Exemplos podem ser encontrados no âmbito das universidades. 

Elas fazem uso das habilidades catalográficas para desenvolver repositórios digitais, que podem abrigar qualquer tipo de informação, desde textos acadêmicos e teses, documentos históricos, produções artísticas, artigos de revistas eletrônicas e informações biográficas diversas, além agora dos dados de pesquisa. 

A expertise e a experiência do catalogador, possibilita estabelecer padrões de metadados adequados a qualquer repositório digital, o que é essencial para um uso eficiente dos dados, por parte dos pesquisadores. 

Neste sentido, ênfase é dada a qualidade dos metadados nos repositórios digitais. Ênfase decorrente da complexidade da linguagem natural, geradora da dependência do trabalho de catalogadores e indexadores humanos, no processo de produção dos metadados. 

Para as máquinas torna-se difícil realizar essas codificações, ainda que dispondo do acesso a um dicionário de dados e a um tesauro automatizado. Assim, se essas informações não forem facilmente recuperáveis, o benefício de ter todas as informações reunidas e relacionadas são perdidas.

Uma interpretação sobre a pertinência da catalogação, indicada por Carbon, é apresentada por Betsy Simpson ao destacar que as mudanças na catalogação contribuem para valorizar o trabalho do catalogador. 

Trabalho que evolui para atender novas demandas e cultivar uma compreensão mais ampla da catalogação - que se concentra nas coleções que mudam do impresso para formatos digitais e eletrônicos, e não no catálogo. Fato que se aplica a expertise do catalogador nas atividades de metadados. Acrescente-se, também, a ênfase no trabalho colaborativo. 

Do conjunto destes fatores, os catalogadores reinventam o seu lugar no universo bibliográfico, além de aprenderem a trabalhar em ambientes digitais mais amplos.

Com a tsunami digital dos novos tipos de recursos informacionais, a comunidade da catalogação adota novos conjuntos normativos, conhecido como Descrição de Recursos e Acesso (RDA). Essa norma é projetada para melhorar a flexibilidade de operar em um cenário de mudança continua dos recursos digitais e eletrônicos e da sua descrição e acesso. 

A RDA é um padrão de conteúdo destinado à era digital. É entendida como ferramenta de suporte ao catalogador no fornecimento de informações corretas, no formato adequado às necessidades dos usuários que buscam informações de valor. 

É uma nova abordagem para ajudar na busca de informações, com a qual o catalogador fornece: análise temática, vocabulário controlado e informações para metadados; melhorando assim o acesso a uma infinidade de recursos digitais e não digitais.

Na catalogação brasileira, é possível observar, que o catalogador por vezes é visto como descartável. Exemplo é a existência, ainda, de acervos geridos por pessoal de tecnologia ou leigos, sem uma devida supervisão de bibliotecários. 

O reflexo é, também, encontrar serviços de biblioteca não baseadas em padrões, normas catalográficas ou qualquer política de tratamento da informação. Convive-se com gestores públicos ou privados que visualizam o trabalho de catalogação, em bibliotecas, como uma fonte de desperdício de recursos financeiros. Esses querem registros enxutos, poucos dados bibliográficos, nenhum controle de autoridade. Daí para que comprar ou assinar normas técnicas ou um código de catalogação? 

No âmbito internacional, muitas bibliotecas redefinem a função dos catalogadores, tentando preencher simultaneamente outras necessidades. Termos como: Bibliotecário da Iniciativa Digital, Bibliotecário de Recursos Eletrônicos, Tecnólogo de Informações Bibliográfica e Bibliotecário de Metadados, por exemplo, emergem no cipoal de nomenclaturas para o cargo de catalogador. 

Incluem, também, requisitos que envolvem funções e padrões catalográfico, juntamente com novas responsabilidades orientadas à manutenção de recursos eletrônicos, criação e gestão de repositórios digitais. 

Michel Cerbo observa que, para enfrentar os desafios em reposicionar o catálogo bibliográfico, na atualidade, os futuros catalogadores ou os estudantes de biblioteconomia devem desenvolver um conjunto mais amplo de habilidades. 

Exercer tanto uma catalogação geral, quanto especializada. 

As tarefas e práticas da catalogação tradicionais ainda são relevantes, porém estão sendo integradas às atividades de criação de metadados e gerenciamento de recursos eletrônicos que caracterizam as principais funções que os profissionais de metadados desempenham no ambiente digital. 

Aspectos a demostrar que o conhecimento da catalogação deve estar integrado às descrições de tarefas voltadas ao desenvolvimento e manutenção dos atuais e futuros dados digitais. Assim, a perspectiva da catalogação está no seu fluxo, diante do volume de trabalho a ser desenvolvido e da pouca disponibilização de recursos para a sua execução. 

Neste contexto, a RDA se coloca como instrumento de política catalográfica capaz de ajudar na agilização do processo de catalogação, permitindo que o catalogador trabalhe de forma mais eficiente com grandes quantidades de dados e se concentre menos na tarefa de criação de registros individuais. 

Saliente-se que, os catalogadores são e continuarão a ser, no futuro, excelentes bibliotecários. A necessidade de catalogadores cresce, mas haverá bibliotecários dispostos a assumir essa função? Uma pista pode ser o número de trabalhos de conclusão de cursos e de dissertações e teses sobre o tema, na área da Biblioteconomia.

Evidencia-se que as habilidades do catalogador moderno são necessárias no ambiente crescente das coleções digitais e impressas. Se essas habilidades serão aproveitadas para fornecer melhor eficiência e eficácia do acesso aos metadados é uma questão crucial. 

Nesta “era da informação” é inútil se aqueles que precisam da informação não podem recuperá-la. Os catalogadores são parte do elo da cadeia que ajuda a obter informações onde elas precisam estar. Informações precisas e factuais, e não uma opinião caprichosa, colocada no blog de alguém.

Indicação de leitura:

Betsy Simpson. Collection Define Cataloging’s Future. Journal of Academic Librarianship, vol.33, n.4, p.507–511, 2007.

Michael A. Cerbo. Is There a Future for Library Catalogers? Cataloging & Classification Quarterly, vol. 49, n.4, p. 323-327, 2011.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.