COMENTÁRIOS CATALOGRÁFICOS SOBRE OBJETOS TRIDIMENSIONAIS E REALIA
No momento que bibliotecas migram para o RDA, questões catalográficas tradicionais se evidenciam, como no caso dos objetos tridimensionais (3D) e realia.
No AACR2r, estes objetos são cobertos no capítulo 10 por regras que tratam da descrição de objetos 3D de todos os tipos (menos os abrangidos em outros capítulos do código), como: modelos, dioramas, jogos (incluindo quebra-cabeças e simulações), brinquedos, cassetes de braile, esculturas e outras obras de arte tridimensionais, objetos de exposições, máquinas, instrumentos musicais, utensílios, vestuário e têxtil.
As regras também abrangem a descrição de objetos que aparecem ao natural, incluindo espécimes para microscópio (ou suas representações) e outros preparados para exame. Entretanto, a descrição de materiais cartográficos tridimensionais (modelos em relevo, globos etc.), são tratados no capítulo 3 do código.
Por serem itens de características físicas e contextuais distintas, além do conteúdo textual, os bibliotecários de catalogação precisam fornecer descrições detalhadas das dimensões físicas, características de material e de uso; muitas vezes, criarem títulos em que os próprios objetos não forneçam um.
A utilização do AACR2 pode ser insuficiente à representação, requerendo complementos descritivos. As principais áreas descritivas do código incluem o título, a designação geral do material (DGM), a indicação de responsabilidade, a edição, os detalhes da publicação e a descrição física (extensão e dimensão), e a composição do material detalhada em notas.
O DGM, indicado pelo AACR2 (1.1C1), apresenta duas listas, a lista 1: objeto; e a lista 2: brinquedo, cartão relâmpago, conjunto de peças, diorama, jogo, lâmina para microscópio, modelo, original de arte, reprodução de arte, realia. Na lista 2, observa-se a mistura de termos distintos. Exemplo descritivo de realia:
|
245 |
01 |
|a [Ágata azul] |h [realia] |
|
246 |
12 |
|a Pedra ágata azul |
|
260 |
|
|a [Brasil] |
|
300 |
|
|a 1 pedra de quartzo e calcedônia : |b cor azul ; |c 5 x 4 x 3 cm. |
|
500 |
|
|a Título fornecido pelo catalogador. |
|
500 |
|
|a Ágata ocorrem naturalmente no Brasil, Índia, EUA, México, Uruguai e Alemanha. |
|
500 |
|
|a O recurso também é conhecido como: Pedra ágata azul |
|
520 |
|
|a A pedra ágata azul, ou simplesmente ágata azul, é fisicamente composta de quartzo e calcedônia e pertence à classe mineral dos óxidos. Elas são formadas por camadas de quartzo superpostas, que estão localizadas nas cavidades das rochas. As ágatas, de maneira geral consistem em várias camadas, que são formadas por várias variantes e inclusões de quartzo, como cromo, manganês e ferro. É assim que várias cores, formas e padrões de pedra se desenvolvem. Os diferentes minerais contidos nas ágatas é que vão dizer, por exemplo, se ela é uma ágata rosa, uma ágata azul ou uma ágata musgo. Fonte: https://www.bhalai.com.br/; acesso em: 20/09/2022. |
Em qualquer contexto, o julgamento do bibliotecário de catalogação é a intervenção fundamental para a elaboração de registros bibliográficos significativos e acessíveis ao público, adaptado à natureza única destes objetos, tanto no AACR2, quanto no RDA. Saliente-se que os objetos tridimensionais e reais apresentam diferenças distintas em sua natureza, o que requer da catalogação descritiva diretrizes e decisões flexíveis da parte do profissional e das suas políticas catalográficas.
Saliente-se, ainda, que o AACR2 não trata de realidade ou material virtual e/ou holograma. Situação que aumenta o desafio do bibliotecário de catalogação contemporâneo. Especialmente, se a biblioteca implementar em seu ambiente, o espaço maker e utilizar impressoras 3D e robótica.
Neste sentido, o RDA – Recurso: descrição e acesso, se apresenta como uma nova diretriz para novos contextos documentais. Fornece aos bibliotecários de catalogação um auxílio na análise descritiva das propriedades físicas e de conteúdo do objeto e sua importância bibliográfica.
A catalogação contemporânea, mais sofisticada, deve ajudar os usuários a: encontrar, identificar, selecionar e obter esses objetos; apesar da falta recorrente de identificadores bibliográficos tradicionais como: autores, editores, distribuidores e fabricantes.
O RDA define esses objetos como “formato tridimensional”, um tipo de conteúdo expresso por meio de uma ou mais formas destinadas a serem percebidas visualmente em 3D. Inclui esculturas, modelos, objetos e espécimes naturais, hologramas etc. Assim como o AACR, exclui o cartográfico por ser percebido como uma forma tridimensional e, também, as formas tridimensionais percebidas pelo tato.
A norma define o conteúdo não mediado como recurso projetado para ser percebido diretamente por um ou mais dos sentidos humanos, sem auxílio de dispositivos intermediários. O tipo de suporte destes recursos é denominado “objeto”. Sob este termo, o RDA define um artefato 3D ou um objeto de ocorrência natural (realia).
No Oxford English Dictionary, artefato é definido como objeto feito ou modificado pelo trabalho humano, em oposição ao decorrente de processos naturais. Entre o artefato de arte e o objeto que ocorre naturalmente, a definição abrange praticamente tudo, exceto os objetos criados por animais não humanos.
A maneira de pensar a questão, no contexto do RDA, é que qualquer suporte não coberto por alguma outra categoria na norma deve ser enquadrado em “objeto”. Essa abordagem pretende garantir que os objetos reais sejam pesquisáveis ??e acessíveis em bases de dados bibliográficas, assim como os itens textuais. Comenta-se neste contexto, que o uso do termo realia, adotado no AACR, é considerado não intuitivo para a maioria dos usuários, enquanto o tipo de suporte "objeto" aplicado pelo RDA, embora mais genérico, é entendido como de fácil compreensão aos bibliotecários de catalogação e público.
A catalogação descritiva busca aprimorar o acesso a objetos únicos em bibliotecas, apoiando eficazmente seu uso para fins educacionais, de pesquisa e de exposição. Entretanto, seria suficiente?
Para aplicar o RDA na descrição de objetos 3D e reais é necessário seguir as diretrizes propostas para representação e acesso aos recursos, e adaptações às características específicas dos objetos físicos.
A norma oferece um conjunto de elementos de dados que podem ser usados para elaborar registros detalhados e estruturados, proporcionando flexibilidade na descrição de diversos tipos de objetos tridimensionais e reais. Quanto às recomendações de aplicação:
- Identificar características essenciais do objeto, como: título, responsabilidade e edição (se houver); e informações de publicação ou de criação, considerando a necessidade de criar um título descritivo caso o objeto não tenha um.
- Detalhar as características físicas, incluindo dimensões (altura, largura, profundidade), material, forma, cor, e outras propriedades relevantes, para que o usuário possa compreender a natureza tridimensional do objeto ou de sua natureza real.
- Utilizar elementos RDA para indicar o contexto do objeto, como local, data de fabricação, finalidade, e quaisquer informações que ajudem a identificar e distinguir o recurso.
- Aplicar um perfil de aplicação do RDA adequado aos objetos tridimensionais, que especifique os elementos obrigatórios, opcionais ou adicionais para garantir a coerência e a utilidade da descrição aos usuários, tornando os dados catalográficos mais eficiente e consistentes.
O RDA não impõe um formato fixo de descrição, mas fornece instruções que permitam atender às necessidades específicas do tipo de material e da comunidade usuária. Por exemplo, para um objeto tridimensional como uma escultura, além dos dados convencionais, deve-se incluir a descrição do suporte, técnica, acabamento e estado de conservação. A descrição física deve refletir o aspecto visual e tátil do objeto, com informações suficientes para diferenciar este recurso de outros similares.
A representação descritiva detalhada facilita a busca, identificação e recuperação do objeto, no acervo. Dados do item relacionados a sua proveniência, histórico e uso também são importantes para compor o registro e garantir uma descrição que vá além do aspecto físico, proporcionando uma completa representação do recurso.
Assim, aplicar o RDA na descrição de objetos 3D e reais envolve combinar os elementos tradicionais da catalogação com informações específicas da natureza física e do contexto do objeto, promovendo descrições enriquecidas e funcionais para usuários de bibliotecas.
Kelly McGrath, bibliotecária especializada em gestão de metadados, ao tratar de objetos tridimensionais, ressalta que muitas questões sobre a catalogação de material não textual, no RDA, ainda estavam em aberto, com as melhores práticas seguindo em desenvolvimento.
Entretanto, os elementos essenciais do RDA para objetos tridimensionais incluem o título, a forma de conteúdo, o tipo de suporte, o tipo de mídia, a extensão, o material base e as dimensões. Esses elementos garantem a identificação, descrição física e acesso ao objeto, adaptando-se à sua natureza tridimensional, como modelos, recursos da natureza ou esculturas.? Sobre eles tem-se:
- Título: fornecido pelo bibliotecário de catalogação, quando ausente no objeto, servindo como entrada principal para a identificação. Como objetos 3D carecem de fonte padronizada de título, o RDA estabelece uma hierarquia de fontes: (1) Fonte Preferencial: uso de etiqueta permanentemente afixada, contêiner emitido pelo editor ou material complementar considerado como parte do objeto. (2) Fonte Externa: se inexistir título, deve-se obter um título de fonte externa (exemplo: contêineres não emitidos pelo editor). (3) Título Elaborado pelo Bibliotecário, se nenhuma fonte externa for encontrada. O título deve ser breve e descritivo. A aplicação segue instrução de formatação, ou seja, o título é indicado sem colchetes se vier de fonte preferencial; títulos de fontes externas ou elaborados devem ser indicados entre colchetes (uma prática da Library of Congress). Recomenda-se elaborar notas sobre a fonte do título para objetos 3D.
- Tipo de Conteúdo: "tridimensional”, indicando a percepção visual em três dimensões. Inclui esculturas, modelos ou objetos naturais?, porém a definição para objetos 3D é complexa. O RDA associa quatro tipos de conteúdo principais e formas tridimensionais, distinguindo-os pela percepção: (1) Forma tridimensional cartográfica (destinada a ser percebida visualmente, incluindo globos e modelos em relevo). (2) Forma tridimensional tátil cartográfica (destinada a ser percebida pelo toque, como globos com braile). (3) Forma tridimensional não qualificada (destinada a ser percebida visualmente, incluindo esculturas, modelos, objetos naturais e espécimes). (4) Forma tridimensional tátil (destinada a ser percebida pelo toque em três dimensões).
- Tipo de Suporte: "objeto", para itens tridimensionais reais, brinquedos ou dioramas. O tipo de suporte “objeto” atua como uma categoria residual prática para qualquer suporte não mediado que não se enquadre em outras categorias específicas.
- Tipo de Mídia: "não mediado", se não houver mediação eletrônica.
- Extensão: definido no RDA como um número mais o tipo de unidade (exemplo: 1 modelo, 1 moeda, 1 escultura), ou detalhes sobre as subunidades, se aplicável.? Permite o uso de termos específicos e concisos não listados ou controlados (como “fóssil”), se úteis ao usuário. O bibliotecário de catalogação pode indicar um número aproximado ou utilizar a frase “várias peças” para itens complexos ou impraticáveis de contar.
- Base do Material: para a descrição o seu registro é feito se considerado importante para a identificação e seleção. É aplicada usando termos da lista do RDA ou outros termos mais específicos e concisos. A cor deve ser registrada se houver uma ou duas (exemplo: rosa e bege); se houver mais de duas (exemplo: tubos musicais coloridos em arco-íris) registra-se “cor” e adiciona-se detalhes em notas se considerado útil.?
- Dimensão: considerado essencial. O RDA instrui que para a maioria dos objetos 3D, as dimensões sejam registradas como: altura x largura x comprimento (exemplo: 3 x 9 x 13 cm), começando sempre pela altura. Para conjuntos de itens idênticos, registra-se a dimensão de um único item; para itens diferentes do mesmo tipo, registra-se a dimensão do menor e do maior como um intervalo.? De maneira alternativa, pode-se registrar as dimensões do contêiner em vez dos objetos, especialmente para recursos de formato irregular.
Em relação ao tipo de conteúdo é salientado a existência de ambiguidade na distinção entre as formas visuais e táteis, visto que muitos objetos, no contexto dos ambientes educacionais (como quebra-cabeças ou objetos manipulativos matemáticos), são úteis por serem tocados e manipulados. Recomenda-se ao bibliotecário de catalogação limitar as formas táteis àquelas capazes de serem usadas exclusivamente pelo toque.
Também outros elementos de dados como criador (para arte original), local e data de produção, e material complementar (exemplo: manual de uso) são recomendados para enriquecer o registro. Novamente, observar que é o julgamento do bibliotecário de catalogação que irá deliberar o nível de detalhamento necessário. Exemplo de um registro de objeto 3D:
|
040 |
|
|e rda |
|
245 |
00 |
|a MacBook Pro / |c Apple Inc. |
|
246 |
3# |
|a Mac Book Pro |
|
246 |
1# |
|i Também conhecido como: |a MacBook Pro de 13 polegadas |
|
264 |
#0 |
|a Cupertino, CA : |b Apple Inc., |c [2016] |
|
264 |
#3 |
|a China |
|
264 |
#4 |
|c ©2016 |
|
300 |
|
|a 1 computador portátil : |b cinza; |c 2x22x31cm + |e Adaptador de energia USB-C de 161 W + 1 cabo de carregamento USB- C (2 m) |
|
336 |
|
|a tridimensional |b tdf |2 rdacontent |
|
337 |
|
|a não mediado |b n |2 rdamedia |
|
338 |
|
|a objeto |b nc |2 rdacarrier |
|
538 |
|
|a processador 2.3Ghz; armazenamento 256Gb; 2.3Ghz dual-core 7ª geração Intel Core, processador i5; turbo boost de 3.6Ghz; memória LPDDR3 de 8 GB e 2133 MHz; armazenamento SSD de 256 GB; placa gráfica Intel Iris Plus Graphics 640; duas portas Thunderbolt 3. |
|
588 |
0# |
|a Título do item |
|
500 |
|
|a Modelo número: A1708 |
|
650 |
#0 |
|a MacBook Pro (Computador) |
|
650 |
#0 |
|a Computador portátil |
|
650 |
#0 |
|a Computador Apple |
|
710 |
2# |
|a Apple Computer, Inc., |e fabricante |
Neste texto, não se cobre toda a perspectiva catalográfica sobre objetos 3D e reais; mas se elabora um breve comentário sobre sua pertinência no âmbito da catalogação bibliográfica, até para refletir sobre por que catalogar esses objetos?
Certamente, catalogamos objetos para torná-los localizáveis em nossas bibliotecas. E, no contexto da catalogação contemporânea, catalogamos para que os nossos usuários possam encontrar, identificar, selecionar e obter os objetos com a mesma eficiência que qualquer outro tipo de recurso bibliográfico.
Muitas bibliotecas possuem uma riqueza de objetos em suas coleções. Há situações na qual eles permaneceram ocultos, por falta de tratamento catalográfico, apesar de serem parte integrante do registro histórico humano. E, quando catalogados, acabam expondo coleções ocultas, por vezes impressionantes. É comentado que os objetos são as joias das bibliotecas, as partes que tornam as bibliotecas especiais.
Indicação de leitura:
McGrath, Keller. Cataloging three-Dimensional Objects and Kits with RDA. ALCTS, March 28, 2012.