ALÉM DAS BIBLIOTECAS


MARIELLE PRESENTE. ANDERSON AUSENTE

Mangueira - Samba-Enredo 2019

História pra ninar gente grande

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

A grande homenageada do carnaval 2019, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em escolas de sambas e em blocos de rua, além de manifestação que saiu da Candelária rumo à Cinelândia, com certeza, foi a vereadora Marielle Franco (PSOL). Seu assassinato completa um ano exatamente amanhã, 14 de março de 2019, quando faria tão somente 39 anos. Um ano de plena escuridão. Boatos espocam aqui e ali, mas os culpados e/ou mandantes continuam livres para agirem impunemente contra quaisquer pessoas que façam sombra em seu território. 

Reconhecemos quão oportunas e justas são tais protestos de respeito a quem lutou arduamente em prol de segmentos marginalizados – mulheres, negros, homossexuais e favelados. Pertencente também a essas alas, além de esquerdista (seja lá o que esta expressão signifique nos dias atuais), Marielle sempre se opôs à ferocidade e à crueldade dos representantes do universo policial aliados a milícias, na condição de grupos símbolos da criminalidade. Isto é, conseguiu romper as barreiras sociais rumo à autorrealização, e, sobretudo, em direção à luta por condições de vida dignas para as coletividades onde marcava presença.

Dentre as escolas de samba que lembraram Marielle, destaque para a Estação Primeira de Mangueira e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel (Rio de Janeiro) e, também, para a Escola de Samba Vai-Vai (São Paulo). A grande vitoriosa do carnaval do Rio, a Mangueira, em sua última ala, lembrou homens e mulheres provenientes de morros, favelas e das chamadas comunidades, mas que, apesar do enfrentamento diante de mil dificuldades vivenciadas, conseguiram notoriedade por seus feitos. A viúva de Marielle, Mônica Benício, e parte de seus familiares lá estavam. Em gesto de solidariedade ou em busca de visibilidade (é sempre uma incógnita), políticos do PSOL, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta também desfilaram na Marquês de Sapucaí.

Tudo perfeito! Mas, onde estava Anderson? Lembram de Anderson? Anderson Gomes, motorista de Marielle durante o período de mais de um ano! Também jovem! Também com família! Também um trabalhador sobrevivente neste Brasil de tantas injustiças e desigualdades sociais! Também executado, sem dó nem piedade, da forma a mais covarde possível, à noite do dia 14 de março de 2018! A omissão por completo do nome do motorista nos incomodou. Foi ele morto, quando conduzia a vereadora, mesmo sem ser o alvo dos homicidas. Partiu silenciosamente no cumprimento de sua função. Se não se destacou como líder comunitário, é mais uma vítima da violência de nosso país. Portanto, não pode se transformar em mais um anônimo no universo das injustiças sociais!

A supressão do nome de Anderson Gomes em tantas homenagens carnavalescas e em muitas outras no decorrer desse ano de luto reforça nosso argumento de que os crimes têm relação direta com a representatividade da vítima, com destaque para o poderio econômico e político, na contramão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída pela Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas, Unesco. Ao completar 70 anos, ao final do ano de 2018, o documento reforça o lema de que nós todos somos iguais em dignidade e direitos, na vida e, decerto, na morte, embora seja impossível calcular, com precisão, a proporção de assassinatos e execuções que acontecem a cada momento em território nacional e que, quando muito, merecem uma notícia veiculada em segundos no universo televisivo ou brevemente mencionada na mídia em geral.

Por fim, basta analisar o extremo paradoxo! A Verde e Rosa levou para a Sapucaí o enredo “História para ninar gente grande” com a promessa de contar a história do Brasil que os livros apagaram, fazendo ressurgir os heróis anônimos e que deixaram de integrar a memória das instituições e do país como um todo. No entanto, ao trazer no enredo trecho que diz “Brasil, chegou a vez de ouvir as marias, mahins, marielles, malês. Mangueira, tira a poeira dos porões. Ô, abre alas pros teus heróis de barracões. Dos brasis que se faz um país de Lecis, jamelões. São verde e rosa as multidões”, esqueceu que há andersons, joaquins e joãos que não podem ser esquecidos no meio do caminho, como a própria escola de samba vencedora o fez!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”