LEITURAS E LEITORES


NIÈDE GUIDON E O PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA

Depois de anos de sonho, estava a caminho do Serra da Capivara. Minhas referências orbitavam na seguinte ordem: pinturas rupestres, Niède Guidon. Já tinha lido um pouco, assistido a entrevistas e documentários a respeito da arqueóloga Niède. Sabia vagamente de alguns aspectos do trabalho que ela desenvolvia na região, dos estudos arqueológicos que deram outra perspectiva ao povoamento humano da América e impactaram a comunidade científica mundial.

Eu pensava saber sobre o Capivara e Niède, mas foi lá no sudeste do Piauí, entre São Raimundo Nonato e Coronel José Dias, que a fala do povo chegava aos meus ouvidos: “doutora Niède fez isso, organizou aquilo...”. Os feitos dela vieram até mim pela voz dos moradores, pelo Parque demarcado/instituído por Lei, pelos museus, pelos estudos que trouxeram e trazem outra perspectiva para se compreender nossos antepassados, não só do Brasil, mas do continente americano.

Em geral, quem vai do Paraná para lá, o trajeto mais curto seria um voo até Petrolina, depois seguir de carro ou ônibus mais umas 5 ou 6 horas de viagem. Inicialmente, parecia muito tempo, mas ao longo da viagem a impressão se dissipa. Pouco a pouco, entra-se em contato com a melodia do falar das regiões, pois a rodovia começa em Pernambuco, depois entra no estado da Bahia para, só depois, entrar no Piauí. Beleza e complexidade num trajeto simples.

A vegetação e o relevo vão tomando caraterísticas muito próprias, aparentemente, quanto mais perto do destino final, mais singulares e com vegetação diversa: caatinga primária, ilhas de floresta tropical úmida, vegetação árida, paisagem de serra e de planície*. É como se fosse a preparação para chegarmos à Serra da Capivara, que começa a ser avistada ao longe, quando faltam dezenas de km para se chegar a São Raimundo Nonato.

 

 

No trajeto, pela janela do carro, buscava evidências de um passado que há muito perscruto por meio da leitura, dos livros que vi com imagens de Altamira e Lascaux, por exemplo. No entanto, para ver as pinturas rupestres do Brasil teríamos que esperar mais umas horas, pois chegaríamos à noite em São Raimundo Nonato. 

A imaginação vagueava procurando indícios de nossos antepassados por onde passávamos: como seria ali há 10 mil anos? Que seres habitavam? Que características o motorista e os outros passageiros, companheiros daquele trajeto, teriam desses antepassados do período pré-histórico? 

Retornando mais próximo no tempo, década de 1970, penso na chegada de Niède Guidon à região, no trabalho hercúleo para preservar, para tornar aquelas terras em parque nacional; no desafio para implantar a infraestrutura mínima para o trabalho e para sua própria vida. Se a infraestrutura ainda hoje é frágil, como eram as estradas, o transporte e a acomodação naquela época? Se a região, hoje, não possui estrutura para receber número maior de turistas, já pensou há 50 anos? 

São Raimundo é uma cidade típica do interior do Brasil, mas com o diferencial: possui aeroporto novo, bem estruturado, construído desde 2015, mas sem funcionar para voos comerciais, praticamente fechado. Assim o turista só chega pela via terrestre. Por outro lado, a cidade não tem estrutura hoteleira condizente para que haja o aumento exponencial de turistas nacionais e internacionais e, consequentemente, tenha fluxo maior em todos os aspectos, inclusive no aeroporto.

A cidade precisa de maior investimento tanto em estrutura para seus moradores quanto para o turista, nacional ou estrangeiro. Há pouca opção para hospedagem e para alimentação. 

Mas o que dizer do piauiense daquela região? Povo discreto, fala em tom médio para baixo, educado e recebe o turista com aquele jeito que o sertanejo do Brasil todo sabe fazer: tímido inicialmente, mas aos poucos mostra sua gentileza e cuidado com aqueles que chegam a sua terra. 

O Parque Nacional da Serra da Capivara abrange, além de São Raimundo Nonato, mais três municípios Coronel José Dias, João Costa e Brejo do Piauí. Quando se chega, até iniciar as primeiras visitas, não se tem ideia de imediato nem da extensão territorial do Capivara e, muito menos, do tesouro que ele contém. De um lado, devido ao histórico de ocupação da região que ficou praticamente intocada por milhares de anos. De outro, pela pujança de Niède Guidon e sua equipe ao longo dessas últimas décadas em estudar, estruturar, proteger, criar políticas, lutar por leis para a criação e demarcação do Parque Nacional e, além disso, a transformação posterior em Patrimônio Mundial da UNESCO.

O acesso ao Parque é feito por uma guarita, predominantemente comandada por mulheres nas vezes que passei por lá. Ali, o turista se identifica e assina termo de compromisso para visitante, além de apresentar o guia e o motorista que acompanham o grupo. Não se paga para visitar. Na entrada, já é constada a diferença de outros parques que visitei: todos se conhecem além do Parque, pois são moradores da região.

O guia e o motorista, professores da rede pública de ensino do Piauí, foram adolescentes “amigos do Parque”, projeto que aproximava os jovens ao Capivara, por meio de visitas, educação ambiental e cultural, principalmente em relação aos sítios arqueológicos. Dali, posteriormente, os adolescentes receberam curso para a profissionalização. Tudo isso, estava no âmbito do projeto maior de Niède e sua equipe para aquela região.

Outro aspecto é que, ao longo das visitas aos sítios arqueológicos, vamos compreendendo o carinho que aqueles “ex-meninos” (hoje profissionais) demonstram pelo Parque e por tudo que lá tem. Conhecem os caminhos, a vegetação, a história dali e além dali, pois nos vão ajudando a relacionar aquele lugar à história do homem no mundo, da fauna, da flora. Sabem nos conduzir com segurança por veredas, subidas e descidas de rochas, tudo de um jeito muito particular: respeitando aquele lugar sagrado e, indiretamente, nos auxiliando a apreciá-lo.

Ao entrarmos no Parque, o guia disse que começaríamos pelo “inferno”. Graciliano Ramos me veio à cabeça instantaneamente com a passagem da obra Vidas Secas**, quando “o menino mais velho” se encantou com a palavra “inferno”. Para ele era algo lindo, bom, mas foi advertido pela mãe que era algo ruim e ainda ganhou uns cocorotes na cabeça, que o deixaram desolado.

A palavra que o guia disse, a placa com a indicação fizeram minha imaginação ficar em alerta: caminhamos por uma trilha arborizada, no meio de uma fenda com rochas, árvores e um filete de água no caminho, avistamos a Toca do Inferno, uma gruta, que serviu de abrigo ao homem pré-histórico. 

 

 

A partir de então, foram dias de ficar extasiado ao visitar os inúmeros sítios arqueológicos e constatar tanto a riqueza natural quanto aquela produzida por nossos antepassados. Não se pode perder de vista o contexto da época em que Niède Guidon chegou ali: naquela região havia muitos caçadores, pequenas roças e, ainda, latifúndios que se interessavam pelas terras onde está o Capivara. O que me disseram lá é que várias vezes, naquele sertão, “Dra Niède” era ameaçada de morte, pois se opunha à ganância dos latifundiários. Ela resistiu e, além disso, foi trazendo a população para ser amiga do Parque, para trabalhar nele, para defendê-lo. Posteriormente, conseguiu mudar as roças e plantações que estavam no Parque para fora do limite do mesmo, mas em nenhum momento abandonando as pessoas que eram dali, amparando-as.

Há um morador ilustre no Parque:

 

 

Na imagem está, provavelmente, uns dos moradores mais antigos dali: o mocó. Lá entendemos a expressão que se usa hoje: “ficar mocozado”, porque é isso que esse animal simpático faz. Se a gente chega perto ele se esconde nas grutas da rocha. Ele é o senhor das rochas do Capivara.

Adiante, um dos primeiros sítios visitados foi o Toca da entrada do Baixão da Vaca, aproximadamente uns 50 ou 60 m de altura, ou mais. De tirar o fôlego a paisagem! Ali é possível pensar no trabalho de décadas atrás para explorar tudo aquilo e ainda montar estrutura para se caminhar com segurança, como o visitante faz hoje.

 

 

Depois que o olhar foi arrastado para a exuberância da natureza, é hora de se voltar para a rocha e, por meio das pinturas rupestres, encontrar-se com a expressão pictórica do homem americano da pré-história:

 

 

Nada é oferecido em pequenas porções: exorbitam ricas e abundantes pinturas rupestres. Pra mim, um dos lugares mais ricos que já conheci da história de nosso povo, da humanidade. Tudo ali ao ar livre. 

O símbolo do Parque Nacional, duas capivaras, foi retirado de uma das pinturas do Boqueirão da Pedra Furada:

 

 

Os desenhos são bem acabados, têm proporção e detalhes tanto em relação à flora, à fauna e, especialmente, em relação ao ser humano. Pré-histórico? No senso comum, torna-se sinônimo de atraso, pouco desenvolvido? Esse conceito, à medida que se vê as pinturas, leva o visitante dos sítios arqueológicos a reorganizar sua perspectiva, pois são manifestações, no mínimo, instigantes. Nesse âmbito, me recordei da visita de Pablo Picasso a Altamira ao ver as pinturas rupestres, ele teria dito: “Após Altamira, tudo parece decadente”!***

A intervenção humana por meio da ciência, ontem e hoje, tem sido decisiva para a perpetuação do Parque Nacional da Serra da Capivara. O trabalho de Niède Guidon e sua equipe, ao longo dessas décadas, fez o que governos não fazem: teve a preocupação com a ciência associada à vida das pessoas que habitam aquela região, por isso os locais nos lembram, a todo instante, as ações e enfrentamentos que essa pesquisadora ímpar promoveu ali, por exemplo: a organização de uma cerâmica para reprodução das pinturas em objetos para promover o Parque, mas ao mesmo tempo, ser mais uma fonte de trabalho para o povo do entorno ao Capivara. 

Nesse contexto, houve a criação da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) para cuidar dos interesses do Parque Nacional Serra da Capivara, tanto naturais quanto culturais, além dos demais projetos: pesquisa, publicação científica, museus e projetos socioculturais entre outros. 

Foram criados dois museus: um da década de 1990 e outro em 2018. O mais antigo é o Museu do Homem Americano, localizado em São Raimundo Nonato, onde podemos encontrar vários aspectos do homem que habitou aquela região há milhares de anos. A riqueza do acervo contrasta com a estrutura do museu que já requer reinvestimento para reforma e manutenção, inclusive de equipamentos.

Localizado próximo ao município Coronel José Dias, o Museu da Natureza foi inaugurado em 2018, idealizado por Niède Guidon, é bem estruturado, possui linguagem museal contemporânea e lança mão da tecnologia do século XXI para nos aproximar de nossos antepassados. O financiamento do museu aconteceu via BNDES/MINc a fundo perdido. 

É como se o museu estivesse no coração do Parque, da vegetação do semiárido, em toda sua exuberância de fauna e flora. Só quem tem determinação, objetivo claro, é capaz de façanha tão ousada: construir um museu no meio da caatinga.

Cheguei em São Raimundo com o objetivo de conhecer Niède Guidon. Com o passar dos dias, me senti muito próximo a ela, pois era o piauiense quem me falava dela em cada um dos lugares e situações relacionados ao Capivara. Então, tive a compreensão de que não poderia, egoisticamente, procurar Niède só para conhecê-la, talvez para uma foto. Não se pode usar o tempo precioso dessa mulher que deve ter muitas coisas urgentes a fazer, a pensar em prol da ciência, da humanidade, num país que pouco tem se mobilizado em todas as esferas (federal, estadual e municipal) para financiar, dar suporte ao trabalho que lá é realizado há quase 50 anos.

Niède Guidon é uma centelha de força e amor pela humanidade, num país em que as autoridades públicas estão cegas à Ciência e à Cultura.

Consultas:

* BUCO, Elizabete. Turismo Arqueológico / Região do Parque Nacional Serra da Capivara. Fundação Museu do Homem Americano-FUMDHAM, 2013. 

** RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro, Record:2002.

*** Wikipédia

EIRE, Carlos M. N. (2009). A very brief history of eternity (em inglês). [S.l.]: Princeton University Press. p.10. ISBN 9780691133577. Consultado em 5 de maio de 2012


 

 


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.