LEITURAS E LEITORES


ANTÍGONA, SÓFOCLES

A releitura de obra literária acompanha a trajetória de leitor e, em cada momento que recorrer à obra, haverá ressignificações do que foi lido. Isso acontece, principalmente, porque o ser humano está em constante aprendizagem de si mesmo, imerso no mundo que não é estático culturalmente.

A transformação humana não pode ser medida objetivamente, quem relê constata para si que há aspectos da obra que lhe parecerão novos, pontos de vista que não tinha pensado, por exemplo. O tempo passa e a pessoa conviveu mais, leu mais, teve outras experiências que poderão auxiliar seu amadurecimento e, com isso, as interpretações do que se lê vão acompanhando o amadurecimento de cada um. 

Quando li Antígona pela primeira vez, minha intenção mais forte era fazer parte do universo dos leitores que tinha lido a tragédia grega. Era estudante de graduação, consumia-me a ansiedade por não ter lido as obras que ouvia, às vezes, nas rodas de conversa de pessoas do círculo acadêmico e de amigos. Hoje compreendo que aquelas pessoas eram mais velhas e, obviamente, tinham tido mais tempo para desfrutar leituras clássicas que eu. 

Neste período de distanciamento social, revisitei Antígona. Tentei me lembrar da história... Tempo cruel! Em busca do exemplar de minha biblioteca, coleção de bolso, tradução de Donaldo Schüler (2007), corro os olhos para o prólogo: não consigo mais parar a leitura. Daí em diante, revisitei o autor, depois aspectos do gênero, a tragédia. Permaneci dias com tudo isso fermentando minhas ideias. Eis me aqui narrando um pouco dessa releitura.

A tragédia é um gênero poético que floresceu na Grécia entre os séculos V e IV a.C. A palavra vem de tragos que significa bode, pois nas festas em homenagem ao deus grego Dionísio (Baco em Roma) eram regadas a bebidas, cantos e danças seguidos por sátiros, que eram figuras híbridas, metade humanas e metade bodes que acompanhavam o deus em suas orgias.

Para Marilena Chauí (2002), na sociedade grega a tragédia era vista como uma instituição social de cunho democrático, não apenas como manifestação literária ou teatral, pois era paga pelo povo para ser escrita e apresentada durante as festas cívicas. Além disso, os cidadãos também estavam no palco, para a apresentação desse gênero que estimulava a reflexão acerca da sociedade democrática. 

Antígona é um clássico e como afirma Calvino (1994) “toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”. Diferente da primeira leitura que fiz, dessa vez, voltei-me ao autor e o momento de produção da obra. Sófocles produziu suas obras no período conhecido como o apogeu da cultura helênica, no governo de Péricles e, por décadas, foi celebrado como um dos principais dramaturgos de Atenas.

O enredo de Antígona acontece após o reinado incestuoso de Édipo e Jocasta que tiveram quatro filhos: Antígona, Ismênia, Etéocles e Polinice. Ao constatarem o incesto, Jocasta se suicida e Édipo arrancara seus próprios olhos com mãos e decidiu exilar-se de Tebas. Nesse contexto, Antígona foi a única filha a ficar ao lado do pai e o conduziu para fora da cidade. Entretanto, antes de partir, Édipo amaldiçoou os filhos Etéocles e Polinice por abandoná-lo: ambos se matariam em combate.

Com a partida do rei, seus filhos fizeram acordo para alternar o governo de Tebas. Etéocles assumiu o trono, mas depois não quis ceder o trono ao irmão. Com isso, Polinice declara guerra a Tebas e sai da cidade em busca de aliados para tomar o trono. 

Após montar exército, Polinice declara guerra contra Tebas. Na batalha, em frente ao muro da cidade, os irmãos lutam em combate mortal. Cumpre-se a maldição lançada por Édipo. Nesse contexto, Creonte, tio dos mortos, assume o trono de Tebas e ordena que o corpo de Eteócles seja resgatado do campo de batalha, para ser pranteado e sepultado com as mais altas honrarias do Estado: 

Mas quanto ao corpo de Polinice, infaustamente morto, ordenou aos cidadãos [...] que ninguém o guardasse em cova nem o pranteasse, abandonado sem lágrimas, sem exéquias, doce tesouros de aves, que o espreitam famintas. (2007, p.8-9)

O rei Creonte ainda decreta:

[...] que, se alguém transgredir o decreto, receberá sentença de apedrejamento dentro da cidade. (2007, p.9)

Na cultura helênica, se o corpo permanecesse insepulto, a alma do morto ficaria vagando pelo mundo, sem descanso, sem salvação. Assim, Antígona não obedecerá ao decreto real e dará sepultura ao corpo de seu irmão Polinice, pois, a seu ver, Creonte tinha poder de usar leis para o mundo dos vivos, mas não tinha poder no mundo dos mortos, como diz ao rei ao ser interpelada: 

Creonte: Mesmo assim ousastes transgredir minhas leis?
Antígona: [...] Nem eu suponha que tuas ordens
tivessem o poder se superar
as leis não escritas, perenes, dos deuses,
visto que és mortal. (2007, p.35-36)

Antígona é mulher jovem, numa sociedade que nega poder à condição feminina, como é possível constatar na fala de sua irmã Ismênia, quando tentou demovê-la de enfrentar as leis de Tebas:

Ismênia: [...] Põe na tua cabeça isso, mulheres somos,
não podemos lutar com homens.
Há mais, somos dirigidas por mais fortes,
Temos que obedecer a estas leis [...]. (2007, p.11)

Antígona não cede aos argumentos da irmã, nem ao decreto de Creonte. E à noite, sorrateiramente, ao sair dos muros de Tebas para sepultar o irmão, determinou seu trágico destino, embora para ela “nada de vergonhoso há em honrar os do mesmo sangue”. 

A fragilidade de Antígona é, ao mesmo tempo, sua fortaleza, pois não se acomoda ao papel social que lhe é imposto. Ela questiona a extensão do poder real sobre a vida do cidadão, além disso, aponta ao próprio Creonte como o vê, como compreende sua lei:

Antígona: [...] mas a tirania, entre muitas outras vantagens,
tem o privilégio de fazer e dizer o que lhe apraz
(2007, p.39) 

Entretanto, Creonte não deixa dúvidas:

Creonte: [...] Mas, em minha vida, não permitirei
que uma mulher governe. (2007, p.41)

O enfrentamento de Antígona não será perdoado, embora o rei altere o apedrejamento público e institua: 

Creonte: Eu a enviarei a um lugar onde nunca ninguém pisou.
Vou prendê-la viva numa prisão lavrada em rocha.
De alimento só terá o necessário para isentar
a cidade da pecha de
tratamento sacrílego. (2007, p.60)

Ao receber a sentença, Antígona constata: 

Antígona: Vou a uma prisão-tumba,
tumba de rochas.
Desdita, não me procurei entre os vivos
Nem entre os mortos.
Nem viva, nem morta. (p.64-65)

Ela lamenta seu enclausuramento perpétuo, sem amigos e sem núpcias que aconteceriam naqueles dias com Hemon, filho de Creonte:

Antígona: Sem pranto, sem amigos, sem núpcias,
Sou desventurada, arrastada
por este franqueado caminho (p.66)

Antígona é a história de uma princesa que não terá final feliz, como é habitual encontrar. Emaranha-se o enredo em aspectos dilemáticos da natureza humana, dos laços sanguíneos e do amor, da organização social e política. 

E a releitura nos faz encontrar com outras leituras que ampliam a nossa, como os trechos do Prólogo da tradução-adaptação de Millôr Fernandes (2005) de Antígona:

[...]

Sabemos bem
Que ninguém aprendeu muito
Com esta história de Sófocles.

 

Os jornais de hoje mostram
Que os próprios gregos não aprenderam.
E, cansativamente, ela se repetiu
Nos 2.400 anos que passaram:
Ânsia de Brutos, Cruz de Cristo,
Bizâncio Prostituída, Heil Hitler!,
Lumumba esquartejado, Kenya de Kenyata,
Chê nas montanhas.

Há sempre duas faces na mesma moeda
Cara: um herói.
Coroa: um tirano.
Algo mudou, bem sei;
A ambição mudou de traje,
A guerra, de veículo,
O poder, de método.
O mundo girou muito
Mas o homem mudou pouco.

 

Porém repetir uma história
É nossa profissão, e nossa forma de luta.

[...]

Há quase 2.500 anos essa história vem sendo contada e recontada pelos séculos e, infelizmente, em cada período houve e tem havido Creontes: tiranos no poder que não olham para o povo que sofre, que não são justos, que ignoram a dor alheia e acreditam ter o poder de controlar cada pessoa por meio de suas ações totalitárias, tirânicas. 

Quando li Antígona pela primeira vez, compungiram-me fortemente a dor e os dilemas existenciais que envolveram aquela família tebana. A releitura, nesse momento histórico do Brasil, levou-me a reconhecer, mais uma vez, a importância da obra literária para a formação das novas gerações. Qual é o nosso papel nesse contexto? Retomo Millôr Fernandes: cabe-nos repetir essa história como forma de luta, pois pode ser uma das maneiras de evitarmos os tiranos que estão à espreita com o intuito de ceifar a democracia! 

Consultas:

CALVINO, Italo. Por que ler os Clássicos. São Paulo: Companhia das letras, 1994.

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das letras, 2002.

FERNANDES, Millôr. Prólogo: Antígona, de Sófocles. Tradução e adaptação de Millôr Fernandes. La Insignia: Diario independiente Ibero-americano, Madrid (España), 2005. Disponível em: https://www.lainsignia.org/2005/junio/cul_011.htm. Acesso em: 22/06/2020.

SÓFOCLES. Antígona. Tradução: Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2007. 


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.