BIBIOTECA PELO AVESSO


  • Quem nunca imaginou um outro final para uma história contada num livro, ou situações vividas em certos lugares e diálogos diferentes para as personagens? Inventadas ou reveladas, aqui as bibliotecas serão descobertas pelo avesso, de dentro das obras literárias.


A BIBLIOTECA DE MACONDO

Quando ultrapassamos os arcos da porta de entrada da biblioteca, já temos contato com a sua primeira magia: pétalas de flores amarelas caem sobre todos que adentram, como não houvesse um teto de zinco. É preciso tomar em nossas mãos pás e ancinhos para que possamos avançar a caminhada pelo acolchoado que produzem saguão abaixo, na rampa de descida. A experiência é tão incomum que esquecemos de observar de onde vêm, pois logo somos tomados pelos ruídos de cloc cloc cloc dos ossos de antepassados da família Buendía introjetados dentro das paredes e colunas que sustentam a arquitetura do prédio. Eles vibram com a presença viva e atmosfera criada pelas visitações.

Em pouco tempo nos distanciamos da ala de acesso sem que apercebamos. Além de um aquário que acompanha toda a extensão de uma ala interior do saguão e que produz uma tonalidade alaranjada no ambiente devido ao aquecimento de água régia, outras três instalações nos tomam atenção imediata: o laboratório de alquimia, a máquina de daguerreotipia e a máquina da memória.

O primeiro apresenta expostos nas paredes rudimentares que se conservaram, a álgebra e as fórmulas químicas que impulsionaram a tantos a tentativa falha de duplicação dos metais raros e das pedras preciosas noutros tempos de campanha; a segunda, pela capacidade de fazer um registro fotográfico, que no processo de revelação crava os rostos dos visitantes direto numa placa de aço na coleção de lápides do acervo; a terceira instalação, por sua vez, tem a capacidade de repassar todas as manhãs e, do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos registrados, com orientações gerais para serem evitados os sortilégios causados pelo esquecimento. Causa espanto e risos no público que me acompanha, percebo irriquieto.

As legendas explicativas indicam se tratarem de instrumentos trazidos pelo cigano, alma penada que habita o vilarejo e que desde muito antes dos episódios ocorridos por ocasião do funeral da mamãe grande perambula por estes ambientes, como estivesse a procura de diálogo com os vivos – fosse ele mesmo o bibliotecário?

Quando chegamos às prateleiras de impressos e objetos, temos noção da variedade e riqueza do acervo improvável dessa fabulosa biblioteca: as cartas de baralho que permitem ler o passado, como antes se lia o futuro, nos dão dimensão das possibilidades para adivinhações de sua história, ou da nossa própria, reconfortada; um catálogo com as quatorze mil fichas elaboradas como lembretes para memorização dos objetos e sentimentos, fixação dos nomes das coisas e suas funções, é instrumento que permite uma captura representativa da realidade pela escrita.

Alguns objetos também nos permitem um recuo seguro para compreensão dos fenômenos de fundação da biblioteca: mapas cartográficos e astrológicos, diversos manuscritos, cartas de adoção e manuais, astrolábios, lupas, ímãs, escapulários, dentaduras, armaduras, caldeirões e lingotes metálicos, dentre outros inúmeros itens, compõem a coleção e cada um possui uma descrição particular sobre sua origem.

Mas, sem dúvidas alguma, o que nos faz sentirmos estupefatos, como diante de um pelotão de fuzilamento, é a sala que conserva o tão falado livro de gelo. Já na entrada que precede a sala expositória, fixada sobre a grossa parede, faz-se notar uma grande placa de cobre, cuja idade é aparente, embora o cuidado em sua conservação procure disfarçar os anos, em que fora gravada a seguinte mensagem:

“É preciso notificá-los que ao contrário do livro de areia esta obra possui poucas referências que comprovam seu aparecimento, o que torna duvidável sua existência.

Ao longo dos últimos cem anos, após outras duas centenas que anteciparam a nova era com baixas temperaturas, poucos relatos foram localizados, pois a forte umidade do ar deteriorara a maioria dos registros impressos, que atestavam existir de fato o livro.

Este volume, em especial, que confirma a existência de uma remota era da escrita, possui registros que indicam se tratar de uma obra cujo o contato com os homo-sapiens-sapiens e os homo-sapiens-androides modificara sua forma e conteúdo ao longo da história recente, devido a troca sinérgica dos corpos. Tal aspecto tem confundido pesquisas atuais dos cientistas.

Os autos de tombamento notificam sua natureza provisória, fluida, sua atualização constante. Uma nota indica que preservá-lo é um crime contra sua própria fisicalidade e, de tempos em tempos, é permitido consultá-lo para que não sejam condenados os profissionais que se ocupam de sua guarda ou para que as legislações vigentes de armazenamento não sejam violadas, garantindo que sua exposição permaneça continuada através da história.

Dentro do cilindro no qual está alocado permanece um grande mistério sobre o fato do livro existir mesmo após atingir estados líquidos avançados e, por vezes, estado gasoso.

Os caracteres tipográficos possuem relevo, como os antigos livros braille, também reconhecidos pelo tato. Centenas de tonalidades se projetam conforme a luminosidade ou a temperatura ambiente e bifurcam nossa percepção visual acerca dos seus caracteres tornado-os incompreensíveis. Modificam-se a cada linha lida sem que possamos retomar o que fora lido. 

Outra curiosidade são os sinais que projeta e que se assemelham à grafia de palavras. Tão raras vê-las confesso serem limitados nossos estudos em filologia e paleográficos para sabê-los”.

Em frente da obra me limito a admirá-la como outros que presentificam sua possibilidade de existência. Sabemos que o líquido é uma substância em estado condensado, intermediário entre sólido e gasoso, ou seria uma substância incompreensível, densa e capaz de fluir... servir ao registro ou fruição literária? Vacilo em pensamentos difusos que outrora não me acometiam e, agora, me fazem duvidar sobre suas definições.

Percebo que não estávamos descendo, mas subindo. Sinto meu corpo trêmulo, entorpecido, já em estado de vigília, vitimado pelos efeitos do ar rarefeito. Ouço sons dos fuzilamentos e carreatas dos funerais. Definitivamente, os argumentos para seleção dos mártires não são aleatórios, penso.

Nossos avatares no second life adquiriram tamanha autonomia que repreendem nosso corpo e reflexões, tal qual dizem terem havido no passado outros dispositivos reguladores... Não me recordo se sou eu mesmo a redigir este relato.

“A terra é redonda como uma laranja”, ouço vacilante, sussurrada, a voz de José Arcadio Buendía.

Sou pego pelas manos de gorrión ciganas e rumo passos trôpegos ao desconhecido universo da Biblioteca de Macondo.

Referência

Cem anos de solidão. Gabriel García Márquez, originariamente publicada em 1967.

 


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MARCOS PAULO DE PASSOS

Bibliotecário com experiência e participação em projetos e pesquisas realizados no contexto de bibliotecas educativas. Bacharelado em Biblioteconomia pela UNESP/SP, com Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação pela USP/SP.