ALÉM DAS BIBLIOTECAS


CAOS. VACINAÇÃO. ESPERANÇA

A humanidade, ao longo dos séculos, tem vivenciado uma série de pandemias, como peste bubônica, varíola, cólera, gripe espanhola e gripe suína, que deixaram um rastro de destruição e de horror. Pleno século 21. É a vez da Covid-19, que traz consigo as fake news (notícias falsas), que conquistam acentuada velocidade e alcance, graças à expansão das inovações tecnológicas, atingindo em cheio o fluxo informacional e a ética da informação, elementos básicos da sociedade contemporânea.

Além do coronavírus e das fake news que assumem também caráter pandêmico, há por toda parte, sobretudo, no Brasil, a politização da enfermidade. Pior do que isto, numerosas investigações, sob o comando da Polícia Federal, mediante denúncias provenientes de diferentes órgãos, têm “passeado” de Norte a Sul do país, comprovando uma série incrível de contratos, processos licitatórios, pagamentos, emissão de notas fiscais fraudulentas, que entre outras diligências apontam um prejuízo efetivo de, aproximadamente, 20 milhões de reais aos cofres públicos. Incluem a compra de equipamentos de proteção individual (EPI), como luvas, máscaras cirúrgicas descartáveis / óculos de proteção até insumos essenciais, como seringas, respiradores de segurança, aliados à aquisição de testes rápidos para a detecção do vírus não autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), à (des)montagem de hospitais de campanha, à formação das equipes de linha de frente, à compra de caixões e terrenos para novas covas, etc.

São ações criminosas. São fraudes à licitação. São desvios gigantescos de recursos públicos. São atos que negam e renegam o sofrimento da população, ênfase para o Estado do Amazonas. São 209.847 (dados de 18 de janeiro) vidas perdidas de brasileiros território afora. São olhares que olham e não veem os que morrem por falta de oxigênio em intervalos incrivelmente próximos. Famílias correm em busca de auxílio em redes sociais e/ou entre familiares e amigos para chegarem aos hospitais munidos de cilindros de oxigênio. Famosos, a exemplo de Whindersson Nunes, Tatá Werneck, Marília Mendonça e Wesley Safadão se sensibilizaram (ou se revoltaram) e enviaram para Manaus oxigênio para salvar vidas.

Empresários, populares e até assalariados também ajudam. Iniciativas dignas de louvor. Só que, literalmente, é dever supremo e Constitucional dos Governos suprirem a saúde pública de sua gente. Cinco Estados, além do Distrito Federal, quais sejam, Goiás, Maranhão, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte dispuseram leitos para pacientes da Covid-19 em seus hospitais universitários. Surpreendentemente, alguns cidadãos desses Estados-solidários manifestaram sua contrariedade frente ao temor de contaminação em suas capitais face ao ineditismo da terceira linhagem do SARS-CoV-2, responsável direto pela Coronavirus Disease 2019 (Covid-19). Como as mutações dos vírus são comuns, antes, já surgira B.1.1.7 (VOC 202012/01), no Reino Unido; 501.V2, na África do Sul; agora a terceira, em Manaus.

O caos ora instalado no país pode ser assim resumido. Atenção! Trata-se de mero resumo: (I) expansão vertiginosa e sem controle da pandemia; (II) onda imensurável de embustes e mentiras galopantes, reforçando quem diz que “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas”; (III) politização e competição acirrada entre presidente, governadores, laboratórios farmacêuticos e quem quer que intervenha para buscar soluções; (IV) práticas criminosas inomináveis diante da situação aterrorizante da enfermidade; (V) miséria vivenciada pela população amazonense e manauara, em particular.

Figura 1 – Vacinação e esperança

 

 

Fonte:

Metrópoles (https://www.metropoles.com/saude/afinal-o-que-falta-para-comecar-a-vacinacao-contra-a-covid-19-no-brasil)

Assim, ao contrário do que deveria ocorrer, a liberação de duas vacinas em caráter emergencial, no país, dia 17 de janeiro de 2020, a CoronaVac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto brasileiro Butantan, e a vacina da Universidade de Oxford / AstraZeneca, que será produzida no Brasil pela Fiocruz e a AstraZeneca, acirrou os ânimos entre Governo Federal – ostensivamente contrário à vacina – e o Governo do Estado de São Paulo. Este saiu na frente. Tudo se assemelha ao turfe, que promove corridas e apostas de cavalos.

Como decorrência, sem propriedade e conhecimento especializado, discutem-se, agora, a eficácia das vacinas, o número de doses, a necessidade (ou não) de vacinar quem já foi acometido pelo vírus e uma série de outras postagens que rondam as redes sociais, algumas das quais de cunho “político”: “se for a da Rússia, não quero. Não sou comunista”; (2) “se for a da China, nem pensar”; e bobagens similares. É a desinformação ou a informação propositadamente desvirtuada ou falseada para induzir o outro ao erro de apreciação. É o ápice das fake news. Há, ainda, a hiperinformação, quando excesso de informações se perdem num universo imensurável de bytes digitados a esmo: parece que, no universo de informações em saúde, em particular, relega-se a seleção de fontes comprometidas com a verdade e a ética. E mais, há a hipertrofia da informação, quando o excesso de dados conduz à atrofia da capacidade cognitiva dos cidadãos. Ninguém entende nada, nem mesmo os mutáveis cronogramas de vacinação. As controvérsias dão voltas circulares sem parar.

Portanto, em meio ao caos estabelecido e à vacinação iniciada em território nacional, resta-nos apaziguar o coração e acalentar a esperança de que novos tempos virão!


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MORTOS EM VIDA
Novembro/2020



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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”