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A BIBLIOTECA NA PANDEMIA E A QUESTÃO DA DIVISÃO DIGITAL

Desde o ano de 2020, passamos todos por uma situação calamitosa e perigosa de saúde pública. No contexto do exercício profissional de bibliotecário e do funcionamento das bibliotecas, ocorre um impacto causado pelo vírus da Covid 19. Impacto que modifica os procedimentos presenciais nas atividades biblioteconômicas.

A IFLA em documento sobre o tema, COVID-19 y el Sector Bibliotecario Global, destaca o grau de ameaça representado pelo coronavírus. Apresenta recomendações às bibliotecas no enfrentamento desta ameaça e na preservação do atendimento social nesta situação.

A entidade global de Biblioteconomia ressalta, que diante do cenário pandêmico, as bibliotecas em todo o mundo enfrentam a difícil decisão sobre que serviços oferecer e de que maneira oferecer, diante de restrições de funcionamento ou de fechamento total de seus espaços.

Deliberações promovidas pelo poder público, por seu lado, não são uniformes, apresentam orientações distintas, como: suspensão total das atividades empresariais ou seu funcionamento parcial. Adoção de protocolos no controle do fluxo de pessoas, além de outras determinações.

No âmbito das bibliotecas (públicas, escolares e universitárias), algumas das orientações resumiram-se à transferência de decisões, sobre o funcionamento das operações, aos gestores das bibliotecas.

É fato que a decisão de restringir ou suspender os serviços bibliotecários tem implicações sobre o público, e à própria equipe das bibliotecas; o que se soma aos riscos de contaminação pelo vírus. Bibliotecas do setor privado, enfrentaram as mesmas situações iniciais, em situações talvez menos estressante, mas de forma apreensiva pelo fechamento corporativo e consequente desemprego.

Saliente-se, que as restrições de operação das bibliotecas, limitou muitos dos seus setores. A realidade foi a adaptação, em certos casos improvisada, e em outras situações, uma mudança forçada dos serviços. A alteração de processos e rotinas realizadas em estrutura presencial para o ambiente remoto totalmente suportado em uma conexão da internet.

Neste sentido, o modelo de trabalho remoto, embora adotado nos grandes centros urbanos do país, torna-se uma opção generalizada. O modelo que era relativamente comum em empresas de tecnologia dissemina-se para outros modelos de negócio. Apresenta-se como tendência no mercado de trabalho para algumas profissões. Mas neste sentido, é enganoso imaginar que seu alcance sobre as diferentes atividades humanas remuneradas continuará a crescer como se observou até agora.

Porém, a partir de março de 2020, com a propagação da pandemia de covid-19, o trabalho à distância se disseminou até pela necessidade de aplicar o distanciamento social. Acabou por servir como um laboratório ao exercício profissional, em geral.

Apesar dos pesares, a pandemia ajudou a fortalecer as atividades profissionais ao quebrar certos paradigmas sobre a funcionalidade do trabalho remoto, inclusive no âmbito biblioteconômico.

Entretanto, neste texto, não se pretende discutir as implicações trabalhistas envolvidas. Nem os benefícios e as perversidades embutidas no processo do trabalho remoto realizado em home office. Tal questão deixa-se para outro momento. Intenta-se apenas destacar a situação de adaptação das atividades bibliotecárias para o modelo do trabalho a distância.

Desta forma, dirigir olhar para o cenário bibliotecário brasileiro, ainda que sob análise empírica, permite notar que as mudanças para o trabalho à distância não se limitaram apenas a adaptação de processos operacionais, no caso das bibliotecas. Tão pouco, se restringiu a adaptar planos didáticos, no caso dos cursos de biblioteconomia, também afetados pela pandemia.

Em ambos os cenários, as mudanças impuseram a busca de novas competências para o manejo de dispositivos tecnológicos necessários ao desempenho das atividades sob o novo contexto. Alguns dispositivos foram lançados ou divulgados ao longo do surto da covid-19, para atender novas demandas surgidas.

Entretanto, dentre as mudanças promovidas no âmbito do exercício profissional, fez sobressair o conceito da “divisão digital”.  Antes de contextualizar o termo, cabe recordar que um conceito recorrente, no âmbito das bibliotecas, foi o da “inclusão digital”.

O conceito compreendido como um processo para democratizar o acesso às tecnologias da informação, permitindo a inserção de todas as pessoas na chamada “Sociedade da Informação”. Neste sentido, as bibliotecas foram e continuam sendo espaços essenciais para essa democratização tecnológica. O conceito continua em evidência, na realidade social do nosso país. E ficou mais realçado com a situação pandêmica, em especial drama no sistema educacional.

No entanto, a mencionada situação do teletrabalho, ressaltou uma lacuna entre os profissionais que têm e não têm acesso aos dispositivos tecnológicos e ao acesso à internet de “alta” velocidade. Um tipo de exclusão digital, não limitada apenas ao contexto das comunidades de baixa renda.

De acordo com a TakingITGlobal, a exclusão digital, redefinida como divisão digital, abrange a capacidade, tanto técnica quanto financeira, no pleno uso da tecnologia disponível. Leva em consideração o acesso ou falta de acesso, à internet. Vai além, ao expandir o foco do acesso a computadores e smartphones, para a desigualdade entre aqueles que têm mais ou menos largura de banda e mais ou menos habilidades tecnológicas, também conhecida como alfabetização digital.

Ressalte-se que, inicialmente, os altos custos dos dispositivos computacionais criaram uma barreira natural entre aqueles que podiam ou não pagar. Mas, à medida que os custos dos dispositivos diminuíram, mais pessoas obtiveram acesso básico às tecnologias, provocando uma evolução no uso do termo da “exclusão digital”, para adquirir um significado adicional – divisão digital.

Faz-se uso do termo “divisão digital” para embasar as ocorrências observadas com as equipes das bibliotecas, na transferência do ambiente corporativo para o residencial.  De um lado da divisão, existia pessoas com computadores desktop, notebook, laptop e tablet em casa, e fazendo uso de dois provedores de acesso à Internet.

De outro lado, existiam membros da equipe com tecnologia obsoleta e/ou recursos computacionais consistindo em um telefone celular com plano de dados muito limitado e sem serviço de internet em casa.

A mesma realidade pode ser transferida para o campo do ensino de biblioteconomia, com docentes apresentando situação de deficiência tecnológica, porém com o agravante de lidar com uma comunidade discente, onde o desamparo e a carência tecnológica; somada a deficiência ou ausência de acesso a internet era presente. Neste segmento, a definição do termo da “exclusão digital”, infelizmente faz-se aplicável.

Para a maioria das bibliotecas, situadas em grandes instituições, houve a disponibilidade de recursos e de suporte para equipar os funcionários no teletrabalho.

Mas, assim como a tecnologia existente no ambiente do escritório requer manutenção regular e solução de problemas, o mesmo ocorre com a tecnologia disponível no âmbito doméstico.

Passa-se a lidar com atualizações de sistema operacional que não podiam ser instaladas fora da rede da instituição. A utilização de licenças de software que precisam ser atualizadas para funcionar fora do ambiente profissional. Uso de VPN (Rede Virtual Privada), para comunicações entre computadores e outros dispositivos que têm acesso restrito ou requerem credenciais para conexão com sistemas corporativos. Necessidade de pontos bem distribuídos do acesso Wi-Fi, sem obstáculos ao sinal, como espelhos ou micro-ondas próximos.

Aparecimento de falhas de hardware que exigiam deslocamento para o ambiente de trabalho na busca do suporte de TI. No caso de equipamentos pessoais, o suporte envolveu custos do suporte de terceiros, e suplícios para entrega no prazo.

O desamparo tecnológico de uns, a ausência de destrezas tecnológica de outros, soma-se a uma variedade de plataformas de comunicação para trabalhar. Repentinamente, os setores da biblioteca tinham que definir a adoção e adaptação de recursos de videoconferência para reuniões em grupos ou atendimento de usuários, por meio do Zoom, Microsoft Teams, ou Google Meet, dentre outros aplicativos.

Por vezes, lidando com todas essas plataformas. Recursos que requerem bons equipamentos, como computadores dotados de processadores potentes, câmera de vídeo, microfone e fone de ouvido de qualidade.

À questão do aparelhamento, agrega também o suporte do mobiliário e do imobiliário para acolher o trabalho em home office.

Cabe mencionar, que o período foi e é marcado pelo uso intenso de outras comunicações como telefone ou mensagens de texto e o antigo modo de espera, e-mail. Período também marcado pela postura de uma etiqueta social de convivência digital. Nos primeiros momentos, foram fartas a ocorrência de situações desagradáveis ou engraçadas, marcadas por gafes nos procedimentos das interações online.

Pode-se crer na existência de um consenso, na comunidade bibliotecária, de que qualquer plataforma de comunicação é inútil se o serviço de Internet for interrompido ou de baixa velocidade. Até pela complexidade e pelo volume de informações operadas por um serviço bibliográfico. São bases de livros eletrônicos, teses e dissertações, vídeos, arquivos sonoros e outros conteúdos digitais.

Em realidade, ainda nos adaptamos à situação. E mesmo no retorno ao ambiente presencial de atendimento na biblioteca; ou do ensino em sala de aula, a adaptação ou readaptação será necessária. Afinal, a situação de saúde vivenciada, afetou a todos não só no aspecto técnico, mas principalmente no emocional. Muitos amigos e familiares não terão um novo recomeço. Ocultando o lado da dor, a situação se constitui em um momento de aprendizado.

Aprendizado orientado à objetividade de nossa comunicação, na proatividade com as pequenas demandas, da mesma forma que a preocupação com as grandes. Adoção de uma atitude de paciência para com os outros, até porque precisamos da paciência dos outros, para com as nossas próprias deficiências e limitações pessoais e profissionais.  

Assim, a pandemia que se abateu sobre nós bibliotecários, nos abateu como seres humanos, e nos desafiou como profissionais. Apesar da vacina, não sabemos como será o futuro, na convivência com a doença. Entretanto, precisamos seguir sendo flexíveis, adaptáveis e compassivos.

Essa é a lição tanto do ano passado, quanto nestes meses de 2021. E essa talvez seja a lição que devamos adotar para inovar e ajustar os serviços e protocolos bibliotecários aos novos tempos, pós-pandemia. Assim, quem sabe possamos diminuir o próprio fosso preconizado pela divisão digital, na sociedade brasileira e entre a comunidade bibliotecária.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.