LITERATURA INFANTOJUVENIL


A PRESENÇA DO INDÍGENA NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA

Devo iniciar essa nossa conversa dizendo que a presença dos indígenas na literatura infanto-juvenil brasileira, é quase inexistente. Isso acontece também com os descendentes afro-brasileiros e japoneses. Porém, os escritores (por mais difícil que seja) ao incluir esses personagens em suas histórias, precisam estar duplamente atentos para que preconceitos e estereótipos não sejam reforçados por meio desses textos. Muitas vezes, os autores, imbuídos de "boas intenções", defendem, por exemplo, que a cultura indígena deva ser "protegida" de outros grupos sociais; essa é uma visão equivocada, pois a postura não deve ser de proteção e sim de respeito e de direito.

Voltando aos livros para crianças e jovens, gostaria de citar alguns livros existentes na minha biblioteca infanto-juvenil. Dela retiro os seguintes livros: Talimamarê (Paulo Riani Costa/Editora Riani Costa), Bahira (Nunes Pereira e Béatrice Tanaka/Editora Codecri), Sonho de um Curumim (Leninha Garcia/edição da autora), De olhos nas penas (Ana Maria Machado/Editora Salamandra) e O casamento entre o céu e a terra (Leonardo Boff/Editora Salamandra). E por considerar os dois últimos, os mais importantes livros infanto-juvenis que tratam dessa temática, passo a comentá-los:

De olhos nas penas (Ana Maria Machado/Editora Salamandra) - 1981

Este livro propiciou a autora, duas homenagens em 1981. No Brasil, o prêmio - "Melhor Autor Juvenil" pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e em Cuba, o prêmio - "Casa de las Américas" (concurso destinado aos autores latino-americanos).

Narra a história de um menino que era brasileiro, mas nasce no Chile e tem passaporte francês, portanto um menino que passa grande parte de sua vida exilado em diferentes países e, que na ânsia de entender o mundo, opta por fazer uma fantástica viagem nas costas de um amigo/pássaro. "Nessa viagem, o menino descobre que, antes, os segredos e as histórias eram guardados numa imensa cabaça; hoje é que tem essa história antipática e individualista de guardá-los dentro das cabeças, de onde ninguém pode tirá-los" (quem me segredou isso, foram as orelhas do livro, porque orelhas dos livros também falam e falam pelos cotovelos, vichi, que confusão!!!).

O casamento entre o céu e a terra (Leonardo Boff/Editora Salamandra).

Assim como Ana Maria Machado, Leonardo Boff dispensa apresentação. O livro "O casamento entre o céu e a terra" foi publicado em 2001 e é dividido em duas partes: a primeira parte é composta de 30 contos indígenas e a segunda parte apresenta as principais contribuições dos indígenas ao Brasil e à globalização. Pelos títulos é possível perceber que a abordagem é atual e que a segunda parte tem um "toque" didático, porém o autor faz isso com uma linguagem descontraída acompanhada de quadros, mapas e fotografias. Vale destacar também que a primeira parte ocupa 123 páginas do livro e a última apenas 36.

Deixando, porém, esses detalhes sem muita importância, quero destacar a riqueza dos contos indígenas coletados por Leonardo Boff. Eles falam do amor, do fogo, dos pássaros, da morte, da vitória-régia, das Cataratas do Iguaçu, da Yara, da terra, do céu, das estrelas, da mandioca, do guaraná, do beija-flor e outros tantos assuntos.

E para demonstrar a riqueza dos contos, não consegui deixar de selecionar um deles, aquele que gosto mais. Chama-se "A mulher que virou beija-flor para libertar sua filhinha".

Coaciaba era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi. Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os mais diferentes passarinhos e insetos.

De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença ou por velhice. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la para passear. Mesmo pequena só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse sua mãe.

De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia a dia até que morreu também. Os parentes ficaram muito penalizados com tanta desgraça, sobrevindo sobre a mesma família.

Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como o dos demais índios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim, podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

A mãe Coaciaba, cujo espírito fora transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor, sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás, ao sugar o néctar, ouviu o chorinho triste. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro da flor a vozinha da filha querida, Guanambi. Como poderia estar aprisionada ali? Refez-se de emoção e disse:

- Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranqüila que vou libertá-la para juntas voarmos ao céu.

Mas deu-se logo conta de que era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida.

Recolheu-se, então, a um canto, em lágrimas, suplicou ao espírito criador e todos os ancestrais da tribo:

- Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa dos irmãos e das irmãs, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração de uma flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e vós todos, anciãos da nossa tribo: transformem-me num passarinho veloz e ágil, dotado de um bico pontiagudo, para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

Tanto foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criado e aos anciãos da tribo atenderam sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou, com voz carregada de enternecimento:

- Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

Com o bico pontiagudo, foi tirando com sumo cuidado, pétala por pétala, até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe. Purificadas, voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

Desde então entre indígenas amazônicos introduziu-se o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilases, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe na forma de um beija-flor virá buscá-la para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes.

(BOFF, 2001, p.106-108).


Gostaram? Choraram? Bem que o autor avisou no prefácio: "estórias para rir, chorar e aprender".


Sugestão de Leitura

BOFF, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.

COSTA, Paulo Riani. Talimamarê. São Carlos: Editora Riani Costa, 1992.

GARCIA, Leninha. Sonho de um Curumim. Londrina: Edição da Autora, 2000. (acompanhado de um CD com as músicas).

MACHADO, Ana Maria. De olhos nas penas. 9.ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1985.

PEREIRA, Nunes; TANAKA, Béatrice. Bahira. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1982.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.