BIBLIOTECAS ACADÊMICAS


PROJETO BIBLIOTECA & EDITORA: UMA NOVA E PRODUTIVA RELAÇÃO ENTRE BIBLIOTECAS ACADÊMICAS, EDITORAS E CORPO DOCENTE

Com a colaboração de Luciana Torres,
Bibliotecária, Coordenadora do PB&E

Em relatos de profissionais do mercado editorial há um paradigma que revela a limitação do relacionamento entre as editoras e as bibliotecas acadêmicas. O padrão reporta-se ao contato da(o) bibliotecária(o) com a editora através da tradicional carta solicitando doação de publicações para o acervo da Biblioteca. Pelo raciocínio da editora, o livro enviado à Biblioteca - em nome de uma boa ação pela cultura e educacão - não será uma ação com retorno, direto ou indireto, esperado pelo editor. O livro na estante, no meio de outros 4, 5 ,6, 10, 20 , 30 mil ou mais não produzirá um efeito multiplicador de divulgação e vendas conforme as necessidades comerciais da editora. É bom lembrar, as editoras sobrevivem de vendas.

De olho no mercado acadêmico

A estratégia das editoras para divulgação de suas publicações no mercado acadêmico contempla práticas convencionais como a utilização dos representantes universitários para abordagem dos docentes e coordenadores de curso nas salas de professores das IES e o recurso da distribuição de publicações para os docentes cujas disciplinas estejam diretamente ligadas ao tema da obra. A distribução de catálogos, listas direcionadas por especialidades e a sedução pela possível edição de um livro do professor também estão presentes nesse relacionamento.

Nem todas as editoras que atuam no mercado acadêmico possuem estrutura para um trabalho próximo dos docentes com a presença de um representante universitário em visitas periódicas às salas dos professores. Muitas e pequenas editoras não encontram viabilidade para desenvolver este tipo de trabalho e ficam dependentes de estratégias muito limitadas para divulgação de sua produção editorial. Há que se ressaltar que o perfil de contato em nossa cultura é muito pessoal/ presencial; podemos enviar uma série de comunicados por escrito mas qualquer que seja a situação, o contato pessoal / presencial é o decisório para alcançar os objetivos dos interlocutores e esta situação não é diferente na atividade de divulgação de publicações no meio acadêmico. A presença dos representantes das editoras é um ganho real no processo de divulgação do produto.

O foco da divulgação das editoras nas IES está no corpo docente; eles são o alvo, pois detêm o "poder multiplicador" da adoção da publicação em sua disciplina. A publicação, incorporada à bibliografia de sua disciplina, passa a contar com a potencial venda de exemplares para os estudantes, seu público alvo.

A tarefa de divulgação de publicações para os docentes não é algo fácil. Todos sabemos, convivendo dentro das IES, que acessar os docentes, fazer contato com os coordenadores de curso, por vezes, torna-se uma tarefa de extrema dificuldade. Professores superatarefados, com atividades em várias instituições, quando não em cidades diferentes. Coordenadores sobrecarregados, por vezes trabalhando em estruturas multicampi, quando não em multicurso, contato com professores, reclamação de estudantes, projeto pedagógico, bibliografia, atividades de extensão, eventos, faltas, notas, transferências, adequação de grade curricular, avaliações, laboratórios, materiais de consumo, titulação do corpo docente, planejamento, reconhecimento do curso... ufa!

Se para os profissionais da biblioteca o contato já é difícil imaginem a dificuldade da editora através de seu representante universitário. Ele não pode dedicar-se a uma única instituição, não pode "fazer plantão" diariamente na sala de professores. O trabalho de divulgação tende a ficar sempre incompleto.

Projeto Biblioteca & Editora

No primeiro semestre de 2001, em contato com algumas editoras e, em especial, em conversas com a sra. Cida Rossi, Gerente de Vendas da Editora Thomson Learning - Pioneira, começamos a elaborar e definir algumas linhas de ação para reversão de um quadro até então nada promissor na relação Biblioteca - Editora - Docente. Após um breve levantamento dos problemas identificamos alguns pontos de interesse de cada parte envolvida na questão. Vamos a eles:

Biblioteca

1 Interessa à Biblioteca estreitar seu relacionamento com os professores / coordenadores de curso, relação estratégica para o bom andamento do curso e dos serviços prestados pela Biblioteca;

2 Identificamos na bibliografia das disciplinas e, conseqüentemente, nas listas de aquisição um grande número de publicações inacessíveis à Biblioteca e aos alunos, pois constam como itens esgotados no mercado livreiro ou fora dos catálogos das editoras. Essa ocorrência representa um desperdício de tempo e recursos nas IES e aponta, também, para uma situação que evidencia um certo distanciamento dos docentes em relação às novidades do mercado editorial ou ao menos uma dificuldade em acessar os novos títulos, pois nem tudo pode ser considerado um "clássico", insubstituível;
3 A Biblioteca poderia transformar-se em um ponto de apoio à atualização do professor em relação aos lançamentos do mercado editorial e itens presentes nos catálogos das editoras num trabalho conjunto com as editoras;

4 A Biblioteca, intermediando a relação editora - docente, estabeleceria um novo serviço à comunidade acadêmica, ampliando sua capacidade de interlocução, inaugurando uma nova relação tripartite, fixando-se em um campo ainda pouco ou nada explorado pelas bibliotecas acadêmicas. A relação biblioteca - editora abriria um universo muito grande de aprendizado mútuo;


Editora

5 Mesmo trabalhando com os divulgadores universitários as editoras ainda caressem de um trabalho mais amplo e presente nas IES. As dificuldades de contato apontadas nos itens anteriores são fatores presentes e limitantes no trabalho dos divulgadores / editoras;

6 O trabalho de distribuição de exemplares aos docentes é prática da maioria das editoras mas há limitações evidentes, não há possibilidade de doar um exemplar para cada professor do curso ou interessado pela publicação; esta prática tem que estar focada no docente titular da disciplina diretamente ligada ao assunto da publicação trabalhada pela editora. Potenciais docentes usuários da publicação ficam fora dessa abordagem e acabam não tendo contato com a publicação;

7 O acesso aos campi universitários, salas de professores, sempre está vinculada a alguma condição que pode fugir ao controle do representante da editora, o grau de empatia com diretor da IES, a disponibilidade do coordenador de curso, as regras de acesso ao espaço físico da IES, etc. Driblar as dificuldades inerentes e acessar os docentes nas IES não é tarefa fácil, pois a visão mais comum das demais partes envolvidas é de que o divulgador é um mero "vendedor" de livros. Parte destas dificuldades decorre da ausência da uma relação institucionalizada entre a editora e a IES, o divulgador é um "vendedor" isolado tentando penetrar no espaço da Instituição;

Docente

8 O acesso à informação sobre os lançamentos do mercado editorial nem sempre se dá de forma rápida e facilitada para o docente;

9 O processo de construção da bibliografia de sua disciplina possui um cronograma determinado pela IES e por vezes a informação sobre novas publicações chega após a oportunidade da elaboração e entrega da bibliografia ao coordenador do curso;

10 A inclusão de itens esgotados e fora de catálogo nas disciplinas é um fato comum nas IES. Conforme já abordado, as conseqüências desse fato são conhecidas;


Equacionando o Projeto Biblioteca & Editora

A partir do diagnóstico estabelecido e discutido começamos a elaborar um plano de ação que absorvesse as necessidades das três partes envolvidas na questão: professores, editora e biblioteca. O PB&E teria como objetivo fazer chegar ao docente, em primeira mão, a informação sobre publicações lançadas no mercado editorial e a própria publicação àqueles que se interessassem por ela, de forma facilitada, mediada pela Biblioteca.

A biblioteca intermediaria a relação professor - editora através de seu espaço físico e serviços. Como? Estabelecemos um plano de ação conforme descrito abaixo:

1) Espaço físico e mobiliário - A Biblioteca ofereceria um espaço físico destinado ao Projeto contendo estantes expositoras de livros, mesas para disponibilizar material de divulgação das editoras (catálogos, fichas de cadastro de professores, lista de preços, brindes, etc), sofás ou poltronas para uso exclusivo dos professores que freqüentariam o espaço. O espaço físico, estipulado em aproximadamente 6 metros quadrados, ofereceria, ainda, boa iluminação, acesso faciliatado ao professor, de preferência em sua rota de passagem pela biblioteca, e outras comodidades possíveis como serviço de café, entre outros. As estantes-mostruário deveriam dispor as publicações através de suportes que apresentassem-nas em ângulo adequado de visão, como em livrarias, afinal, estaríamos "vendendo" suas imagens, capas;

2) Rede de informação - A Biblioteca deveria montar uma rede de informação que possibilitasse a comunicação direta com todos os professores do curso sem a produção de despesas financeiras com impressão, reproduções, postagens, etc. O meio deveria ter eficiência, ser rápido, de fácil manipulação, recepção e prescindir da presença do professor na Biblioteca para obter a informação inicial. Após uma história de várias tentativas de fazer chegar informações sobre novidades do acervo aos professores, utilizando-se de reproduções de capas de livros em murais, recados, etc. chegamos a conclusão que esses meios eram pouco eficazes, não resultavam numa comunicação efetiva e tendiam a ter custos relativamente altos. A solução de comunicação adotada foi encontrada na comunicação através de correio eletrônico (e-mail). Barato e de fácil manipulação, continha elementos de grande "performance" pois consegue dar solução para questões como a grande quantidade de destinatários das mensagens, rapidez de envio e facilidade de recepção. O desafio da Biblioteca estaria na construção de uma mala-direta de e-mail's dos professores por curso, possibilitando uma comunicação direcionada, focada.

3) Escala do trabalho - o Projeto deveria ter uma escala multi-institucional, deveria ser implantado em várias instituições de ensino superior, oferecendo uma base de divulgação ampla às editoras. A utilização das IES filiadas ao Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior seria a base inicial e experimental do Projeto;

4) A editora conveniada teria o compromisso de enviar um exemplar de cada publicação às bibliotecas participantes do projeto segundo um plano que considera os seguintes critérios:

a) A seleção das publicações a serem enviadas às bibliotecas seria realizada pela editora;

b) O envio das publicações às bibliotecas é orientado pelo curso ao qual se destina a publicação. Se a publicação é destinada ao curso de Administração, somente as bibliotecas que trabalham com este curso receberiam a obra;
c) O envio das publicações seria realizado segundo uma relação de IES/Bibliotecas/ cursos elaborada pelo GBIPES e enviada às editoras. Todas as bibliotecas cadastradas no projeto e que respondem ao curso para qual é direcionada a obra deveriam recebê-la. A editora não deveria enviar a publicação para as IES conforme critérios diferentes dos estipulados no Projeto.


5) A Coordenação do Projeto (GBIPES) receberia a publicação da editora, digitalizaria a capa e sumário e distribuiria na forma de um alerta bibliográfico padronizado, através de e-mail, aos demais membros do projeto para que repassassem aos docentes em cada uma das IES participantes;

6) A publicação, recebida em cada uma das bibliotecas participantes, seria direcionada ao espaço destinado à sua divulgação, o "Espaço Projeto Biblioteca & Editora", destinado exclusivamente aos docentes, dentro do ambiente da Biblioteca, conforme já mencionado. Lá a publicação será exposta por 30 dias corridos a partir do envio do alerta bibliográfico (e-mail) pela biblioteca aos docentes do curso a que se destina a publicação;

7) A partir do envio do alerta bibliográfico (e-mail) aos docentes inicia-se um trabalho de contato pessoal dos profissionais da biblioteca com os professores que freqüentam o Espaço Biblioteca & Editora para que conheçam melhor a proposta e os objetivos do Projeto;

8) As ações do PB&E poderiam estender-se a outras formas de comunicação e divulgação do Projeto. Veiculação em jornais e revistas internas, programas de tv, rádio, palestras de autores em eventos dos cursos, noites de autógrafo, são algumas das possíveis formas de ampliação da capacidade de interlocução do Projeto com a comunidade da IES;

9) Apesar de estar direcionados ao corpo docente, os alertas gerados pelo PB&E podem ter como público alvo secundário os alunos e funcionários das IES. Nada obsta que este trabalho possa realizar-se em um segundo momento, após o prazo de 30 dias destinado ao contato do professor com a obra. Um segundo espaço, destinado às novidades do acervo, para o público geral, pode ser utilizado para expor as publicações do PB&E ao público geral da biblioteca. Amplia-se assim a divulgação, potencializando-se as ações de marketing do PB&E.


O PB&E teve sua implantação por um período experimental de 6 meses no segundo semestre de 2001. Naquele momento atuamos com 6 editoras e seis IES. Em 2002 reestruturamos o PB&E com base na experiência de 2001, elaboramos o seu regulamento e reiniciamos os trabalhos em agosto de 2002. Atualmente contamos com a presença de 11 editoras e 7 IES cobrindo aproximadamente 17 bibliotecas acadêmicas. No primeiro semestre de 2003 trabalhamos 50 títulos enviados pelas editoras. Parte dos títulos recebidos já foi incorporada às bibliografias das disciplinas dos cursos ministrados nas IES participantes.

Para que sejam partilhadas experiências e traçados os planos para as próximas atividades, os trabalhos do PB&E são periódicamente discutidos a avaliados em reuniões com a participação das editoras e IES conveniadas.

Como o Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior - GBIPES agrega IES de todo país, o que assegura relativa visibilidade ao Projeto, é freqüente a consulta de IES demonstrando interesse pelo PB&E, seus resultados e experiência da parceria biblioteca - editora.

Os direitos do Projeto Biblioteca & Editora e sua metodologia são reservados ao Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior - GBIPES. Informações adicionais podem ser obtidas através do e-mail amoreira@uniban.br ou pelo telefone 11 6967-9120 da 14 ás 22 horas ou com Luciana Torres, Bibliotecária, Coordenadora do PB&E pelo e-mail ltorres@uniban.br e telefone 11 5842-9000, ramal 9017.

OBS: Para aqueles que manifestarem interesse, há possibilidade de envio dos alertas eletrônicos para conhecimento.


Relação de editoras participantes do Projeto Biblioteca & Editora:

Editora Aleph.
www.alephnet.com.br

Editora Thomson - Pioneira
www.thomsonlearning.com.br

Editora Siciliano (Futura, Arx e Berkeley)
www.siciliano.com.br

Editora Moderna
www.moderna.com.br

Editora Campus
www.campus.com.br

Reichmann & Affonso Editores
www.ra.inf.br

Editora Palas Athena
www.palasathena.org

Editora Verus
www.veruseditora.com.br


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ARTUR DA SILVA MOREIRA

Bibliotecário, fundou e presidiu o Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior – GBIPES (1997 – 2004) e a Comissão Brasileira de Bibliotecas das Instituições Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica – CBBI (2011 – 2014). Formado pela FESP-SP, turma de 1987. Coordena o Grupo de Trabalho de Cadastro de Bibliotecas e Profissionais da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e atua como moderador e administrador da Lista de Discussão da CBBI, atualmente com 672 membros.