LITERATURA INFANTOJUVENIL


ENCARTE QUE SEMPRE DESPREZEI: MEUS ERROS, ACERTOS E ENCANTAMENTOS

Apesar de ser bibliotecária e saber da finalidade que cada parte de uma obra tem, seja ela: capa, contracapa, páginas textuais, folha de rosto, lombada, cinta, orelha, colofão, encarte etc., sempre tive uma grande implicância contra aqueles encartes com intencionalidade didática. Para quem não conhece, em geral, são folhas soltas com perguntas visando apoiar o leitor na compreensão de um texto literário, algo muito comum na década de 1980 e 1990 nas obras clássicas brasileiras.


Confesso que ao encontrar algum encarte desse tipo, meu ímpeto era amassar e jogar no lixo. Compreendo sua utilidade como apoio aos professores, que exprimidos, em todos os sentidos, não dão conta de tudo comprar, tudo ler, tudo saber. Na minha visão um encarte-roteiro tira do leitor a liberdade de fazer sua própria leitura. Como mediadora de leitura penso que é fundamental, sempre que possível, abrir espaços para conversar sobre o texto lido. Reforço esse pensamento com o argumento retirado da obra Diga-me: as crianças, a leitura e a conversa, quando o autor afirma: “Para ajudar as crianças a falar [...] sobre sua leitura, é essencial, tanto para crianças quanto para adultos, concordar que tudo pode ser relatado com respeito.” (Chambers, 2023, p.53).


Parece óbvio afirmar, mas vale reforçar a potência dos mediadores quando promovem rodas de leitura, clube de livros, bate papo com autores, ações, que de fato, contribuem na formação de leitores.  


Confesso que fazia muito tempo que eu não pensava nesses encartes, porém, essa semana reencontrei na minha estante o livro O cântico dos cânticos comprado em 1992 e que li e reli muitas vezes. Livro que, de tempo em tempo, pego, folheio e saio dele com a sensação de que ainda há algo para apropriar.


Trata-se de um livro sem palavras (aquele tipo de livro que amo e coleciono). Tenho um exemplar da primeira edição que foi publicada pela Edições Paulinas e é, talvez a obra mais complexa da escritora e ilustradora de Angela Lago que conheci no 2º. Congresso Brasileiro de Literatura Infantil e Juvenil em 1987 realizado na Universidade Federal Fluminense em Niterói- RJ. 
Naquela data eu não conhecia a Angela, mas quis o destino nos reunir em uma seção de apresentação de trabalhos, sentadas nas últimas carteiras de uma sala, em um dia calorento no Rio de Janeiro ouvindo uma análise técnica e nada literária de um livro infantil. Não era um livro dela. Ainda bem! O discurso que a estudante proferia era tão monótono e desestimulante que olhamos uma para outra e saímos de mansinho... 


Que doideira massacrar um texto! 


Saímos de lá e ela me convidou para o lançamento de um livro dela no dia seguinte. Fui e nunca mais me desliguei dessa autora. Que delícia rememorar 38 anos! Lia, comprava, indicava a leitura. Em 2018 essa autora esteve no Sesc Londrina, transferi a minha aula do curso de Biblioteconomia para lá e foi inesquecível para os meus alunos esse encontro. Hoje Angela não está mais entre nós, faleceu em 2017.


Voltando a falar sobre o livro O cântico dos cânticos vi que não cometi o pecado de descartar o encarte. Obviamente que depois de 33 anos nas minhas mãos e de outros incontáveis leitores, ele está um tanto amarelado e amassado, mas seu texto não foi afetado. Paro e uma dúvida martelo me aflige, será que nesse caso devo usar a palavra – ENCARTE. Não, não quero! E troco pela palavra CARTA, pois não é um ENCARTE-roteiro restritivo, é uma linda CARTA que foi escrito por Edmir Perrotti e recebeu o título O olhar sagrado. 


Sim, o Perrotti respeitabilíssimo pesquisador da Ciência da Informação cuja categoria textual nota 10 já é conhecida por nós. Vou acrescentar alguns trechos do texto dele, antes, porém é preciso descrever um pouco sobre essa obra de Angela Lago. A edição que eu tenho o copyright é de 1992, ela tem um formato no tamanho 34x25cm com capa dura. A obra é composta de 24 páginas só de imagens “[...] que de página para página, vão-se desdobrando (ou se interpenetrando) em poéticas/misteriosas situações. Trata-se da transfiguração do texto bíblico [...] de Salomão, linguagem imagética, que resultou numa desafiante/sedutora linguagem cifrada.” (Coelho, 2006, p.95). As ilustrações lembram iluminuras labirínticas (não se sabe o começo e nem o fim), levando o leitor a se perder, ou se achar, entre escadas que sobem e descem, colunas e portas altas que remetem aos castelos. “Como as grandes obras, esta também permite todas as leituras. É ‘aberta’, no sentido de [Umberto] Eco.”   (Perrotti, 1992).


Eu como leitora-fã sempre fico curiosa para saber como as ideias para a construção de um livro “aparecem” na mente do autor. Perrotti esclarece isso contando uma conversa descontraída que teve com Angela Lago. Para não omitir algum detalhe, passo a transcrever alguns trechos:


Faz alguns anos. Conversava com Ângela Lago sobre criação, literatura, livros infantis, essas coisas. Conversa gostosa, sem compromisso, de amigos. De repente, não sei dizer como, vejo-me passeando num sonho absolutamente fascinante: o encontro de uma quase-menina, de seus 12/13 anos, com o poema bíblico “Cânticos dos Cânticos”.
[...] 
Ao concluir seu relato do encontro mágico, num esforço visivelmente sobre-humano, Ângela sussurrou: “Gostaria tanto de traduzir esse deslumbramento em imagens. Mas não sei como!”
Aquele “não sei como!” repercutiu forte em mim. Apesar de quase inaudível, era a consciência clara da dificuldade que desde sempre atormenta os criadores. Por outro lado, me parecia o desafio que o artista lança a si mesmo quando seu desejo de expressão ganha urgência.
Sem nunca saber muito bem o que dizer nessas horas, fiz o convencional. Manifestei meu apoio pela idéia, estimulei Ângela a ir atrás de seu sonho.
Passados seis anos da conversa “inútil”, olho para este “Cânticos dos Cânticos” como se olhasse para um milagre. Ele não só reverencia a grandeza do poema que lhe serviu de inspiração, ao “escondê-lo” dentro de suas páginas, como é também um poema visual com vida própria, autônoma, realização completa de uma artista que superou a si mesma ao aceitar novos riscos e desafios.
[...]
Além disso, fiel à sua fonte, este “Cântico” solicita um “outro” olhar, uma “outra” disponibilidade. Tal a quase-menina que foi tocada pelo poema bíblico, seu leitor é convidado a passear livre e demoradamente por imagens, às “nossas” imagens, a nós mesmos. [...]. (LAGO, 1992).

Com essa narrativa memorial e de maneira singela expresso minha admiração pela obra Cântico dos Cânticos, pela escritora Angela Lago, pela CARTA e olhar sagrado de Edmir Perrotti. Viva o livro infantil e todos aqueles que orbitam em torno dele!

Sugestões de Leitura:
CHAMBERS, Aidan. Diga-me: as crianças, a leitura e a conversa. São Paulo: Cortez, 2023.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de literatura infantil e juvenil brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.
LAGO, Angela. Cânticos dos cânticos. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.
PERROTTI, Edmir. O olhar sagrado. In: LAGO, Angela. Cânticos dos cânticos. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.