LITERATURA INFANTOJUVENIL


UM MARAVILHOSO CONTO DE ANDERSEN

Em agosto de 2005 eu e meu amigo Rovilson (outro colunista deste site) escrevemos nessa coluna uma homenagem a Hans Christian Andersen. Na oportunidade transcrevemos parte de uma palestra que proferimos no dia 02 de abril em comemoração ao Dia Mundial do Livro Infantil e aos 200 anos de Andersen. Destaco que Andersen nasceu na ilha Fiônia em Odensee na Dinamarca no dia 2 de abril de 1805.

 

Naquela época nossa abordagem foi apenas a obra infantil desse autor, mas hoje quero contar que outro dia reencontrei com um texto antigo e criativo desse autor e decidi que os adultos que lêem essa coluna merecem conhecer um texto não infantil de Andersen.

 

Pura bobagem! Ops! Explico: não é que os adultos não mereçam conhecer esse texto. A bobagem pura é que temos mania de achar que um texto de adulto não desperta a curiosidade das crianças.

 

Então antes disso, vejam o que aconteceu: estava eu escrevendo essa coluna, quando o filho de um amigo de oito anos, me perguntou o que eu estava fazendo:

- Vou contar para os adultos na internet a história de um homem que perdeu a sombra.

Ele vendo o livro ao meu lado, perguntou:

- A história está nesse livro?

E sem me dar tempo de responder, me pediu:

- Conta prá mim?

 

Vou deixar de engabelação e ir direto a história, melhor dizendo – ao Conto. O conto que eu quero narrar chama-se - A Sombra.

 

Nele Andersen conta a história de um sábio/estrangeiro que ao ter mudado para terras quentes, muito diferente das terras frias em que ele sempre morou “tinha a sensação de estar sentado sobre um forno repleto de brasas; aquilo o afetou, ele ficou muito magro, até sua sombra murchou.”

 

Apesar disso, todas as noites “era uma verdadeira festa para os olhos; assim que a vela era trazida ao aposento, a sombra se espichava até o alto da parede, chegava ao teto, de tão comprida que ficava, precisava se espreguiçar para recuperar as forças.”

 

Os balcões das casas ficavam repletos de gente, exceto o da casa “que ficava na frente daquela em que morava o sábio estrangeiro, tudo permanecia quieto; e certamente alguém morava naquela casa, pois havia flores no balcão [...].”

 

“Uma tarde o estrangeiro estava sentado em seu balcão enquanto atrás dele, no interior do quarto, queimava uma vela, de modo que era muito natural que sua sombra fosse parar do outro lado da rua, na parede da casa do vizinho da frente; com efeito, lá estava ela, sentada entre as flores do balcão; e sempre que o estrangeiro se movia, sua sombra também se movia, porque era assim que ela sempre se comportava.”

 

Movido pela curiosidade o estrangeiro estimula sua sombra a se introduzir na casa do vizinho e avisa: “[...] mas não vá desaparecer.” Triste ilusão. No outro dia ao sair ao sol percebeu que não tinha mais sombra.

 

Ficou entristecido, mas qual não foi a sua surpresa quando oito dias depois “uma nova sombra havia começado a crescer de suas pernas [...]. A raiz devia ter ficado enterrada.”

 

“E assim o sábio voltou para sua terra e escreveu livros sobre o que era verdade no mundo e sobre o que era bom e sobre o que era belo, e passaram-se dias, e passaram-se anos, e passaram-se muitos anos.”

 

Uma noite, tomada “por uma espécie de nostalgia” a sua sombra voltou e voltou totalmente mudada, apresentando-se como homem – usava vestimentas e jóias. A sombra conta ao seu ex-dono como enriqueceu enganando os outros. E caso necessário, agora que tinha muito dinheiro poderia pagar pela sua liberdade. O sábio que era um homem bom dispensou-o dessa tarefa.

 

A sombra arrogante e mal intencionada pede ao sábio que faça duas promessas: primeiro nunca contar para ninguém que ela não é um homem e em segundo lugar que daquele dia em diante passe a chamá-la de senhor e não mais de você.

 

Anos se passaram e a sombra voltou para convidar o sábio estrangeiro para fazer uma viagem. Ele aceitou de boa vontade, mas nessa viagem a sombra conhece a filha de um rei que tinha uma doença – “ver tudo demais”. E para saber se ela (a sombra) era um bom partido, teria que responder algumas perguntas. Como a sombra não tinha a cultura do sábio, a sombra enrola a moça dizendo que a sombra dele (o sábio) era tão fantástica que sabia tudo o que ele sabia, mas devia tratá-lo como se fosse um homem de verdade, pois a sombra dele acredita nisso. “Isso seria verdadeiramente extraordinário!” (fala a sombra e concorda a moça). Depois de muita conversa a moça impressionada pensa: “Que homem deve ser aquele, para ter uma sombra assim!” e resolve se casar com ele (a sombra).

 

Quando o sábio estrangeiro soube da mentira e vai à direção da filha do rei, a sombra antecipa-se e dá ordem aos sentinelas para levá-lo à prisão. Nisso a noiva aproxima-se e pergunta ao noivo por que ele está trêmulo: “tive a mais terrível das experiências! [...] Imagine só... Claro, o cérebro de uma pobre sombra não agüenta grande coisa! Imagine que minha sombra enlouqueceu! Pensa que é um homem e que eu... Imagine só... Que eu é que sou a sombra!”

 

E no momento do casamento fogos e canhões fizeram muito barulho, mas o sábio estrangeiro não ouviu, “pois já perdera a vida.”

 

 

ENTROU POR UMA PORTA SAIU PELA OUTRA QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA

 

 

ANDERSEN, Hans Christian. A sombra. In: CALVINO, Italo. Contos fantásticos escolhidos por Italo Calvino. Tradução Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.