LITERATURA INFANTOJUVENIL


PALAVRAS LOUCAS PALAVRAS

Sempre brinquei com as palavras e elas sempre exerceram um fascínio sobre mim – ou será que é o contrário: elas sempre exerceram um fascínio sobre mim e então eu comecei a brincar com elas?

 

Quem me conhece sabe como sou invocada com palavras. Invocada? O que é ser invocada? Meu dicionário eletrônico diz que é suplicar, implorar, mas também antipatizar ou implicar. Fico com o último sinônimo, pois quando ouço alguém colocar uma palavra fora do lugar, eu implico. Não que eu não faça isso muitas vezes, pago um monte de mico (que saudade de jogar mico!), em especial quando a palavra é de origem inglesa ou americana.

 

É muito engraçado quando uma pessoa quer falar palavras bonitas e fala uns absurdos (sou implicante, né?).

 

Há muito tempo dentro de um ônibus ouvi uma garota falando que o código de barra dos produtos de supermercado, no futuro seria colado na gente. E ela continua a conversa explicando: - e aí vão passar uma caneta “caótica” e saberão todos os nossos segredos. Beleza! Caneta caótica!

 

Um dia ouvi um senhor que é bom de conversa explicando para uma senhora que quando a filha dela mandasse dinheiro do Japão, ela teria que fazer um “intercâmbio” do dinheiro.

 

Essas pessoas eu perdoo, pois são de origem simples, sem oportunidade de estudo. O difícil é perdoar uma pessoa estudada. Outro dia ouvi um profissional de roupa branca, falar que “tem que coibir palavras de baixo escalão”. Aí é complicado, né? Sabia que era calão, mas quis saber o que significava, fui ao dicionário. Calão tem origem na palavra cigana - caló, e é uma linguagem especial de ladrões, vadios etc, gíria; jargão. No caso da expressão baixo calão é o uso de termos obscenos ou grosseiros.

 

Chega de falar mal dos outros, pois hoje sem querer, consultando um dicionário, descobri que sempre falei que não gosto de assistir futebol, no máximo gosto de jogar peabolim.

 

Errado! O correto é pebolim (pé+bola+im). Que língua maldita! (não a portuguesa, a minha).

 

Mas vamos deixar de azedume e vamos brincar com as palavras:

 

Você sabe o que é pavê?

R: aquilo que não é pra comê.

 

E externa?

R: uma pessoa que hoje é rude.

 

O que é testar?

R: é bater a testa. Onde? No ar, menos mal!

 

O que é arranha-céu?

R: um edifício de unhas grandes.

 

Vou parar por aqui, pois a criatividade em mim não abunda. Ops! Essa palavra também é engraçada, né? Por falar nisso, andei colecionando algumas palavras engraçadas, veja:

 

Debalde = em vão, inutilmente. Se a decisão for complicada “de balde” não é suficiente.

 

Cudiguim = linguiça onde entra também o couro do porco gelatinizado (não me pergunte o que é isso, pois não entendo de cozinha, muito menos de cudiguim!).

 

Meditabundando = meditando. Aqui me parece que há uma inversão do órgão que medita, mas tudo bem.

 

Além disso, têm palavras de fácil explicação do significado, por exemplo:

 

Ressentimento = mágoa. Será que é sentimento de ré?

 

Há palavra que ao buscarmos a proveniência, descobrimos uma semelhança na origem, mas com significação diferente, é o caso de: saber (sapere) e sabor (sapore) que vem da mesma raiz. Porém, se paramos para pensar é saboroso saber e dessa forma colocamos as duas palavras no mesmo balaio.

 

Têm palavras que eu gosto bastante, uma delas é serendipidade. (aproveito para agradecer a Ângela Maria Dalla Torre, minha ex-aluna de Biblioteconomia que descobriu o significado pra mim). Você sabe o que é? Serendipidade é parecido com eureka, mas é diferente. Pois eureka é quando estamos procurando alguma coisa e quando achamos falamos: Eureka! E serendipidade é quando não estamos procurando e fazemos uma descoberta. Talvez seja certo dizer: serendipide! (não tenho certeza disso).

 

Outro dia estava xeretando (dizem que essa palavra vem de cheirar, por isso na maioria das vezes é usada para falar das pessoas que metem o nariz onde não são chamadas) na internet e encontrei um site com antônimos bem divertidos. Uma brincadeira humorada que prova a criatividade das criaturas - palavra que pode ser explicada como os seres que Deus cria e agora tem que aturar (cria+atura). Veja alguns exemplos:

 

Andar = Anreceber; Amazonas = amaigrejas; Atadura = Atamole; Bateria = Apanharia; Convento = Semvento; Oculto = Oburro; Semente = Sefalaverdade e Simpatia = Nãoprotio.

 

Ficou curioso (a)? O endereço tá lá embaixo.


Chega de falar das minhas curiosidades, vamos falar de livros infantis. Existe uma imensidão de livros infanto-juvenis que falam das palavras e do fascínio delas. Hoje, porém, vou falar só de alguns.

 

Vou começar pelo livro (que engraçado, a palavra livro talvez possa significar todo objeto que eu não me livro/separo. E quem disse que eu quero me livrar/separar?):

 

Os que eu escolhi são livros que eu não me livro e tem lugar especial na minha estante.

 

Palavra, palavrinhas & palavrões de Ana Maria Machado.

 

Como sou antiga tenho a edição publicada em 1982, pela extinta editora Codecri (nossa a palavra extinta, coube aqui como uma luva, pois no caso de uma editora fechada, só pode ser ex-tinta).

 

O livro narra a história de uma menina que vai crescendo e vai descobrindo palavrões, entre eles: paralelepípedo, otorrinolaringologista... O prazer em pronunciar as palavras, fez com que ela invente um nome para o seu irmão que irá nascer: “[...] Cusfosfós. Nome gostoso de dizer dava uma espécie de cosquinha dentro da boca.” A menina como qualquer criança desata a língua e sai repetindo palavras, palavrinhas e palavrões, que ouvia, incluindo as impublicáveis... Aí a situação se complica...

Bom, o final você confere no livro, que está sendo publicado pela Quinteto Editorial (pelo menos essa é a editora do outro exemplar que tenho e foi a última notícia que eu consegui descobrir).

 

A revolta das palavras de José Paulo Paes, começa assim:

 

“Como as personagens desta história são palavras, nada mais natural que ela aconteça nas páginas de um dicionário.” A partir disso o autor vai brincando de imaginar se o arranjo das palavras no dicionário não fosse feito por ordem alfabética, que confusão seria encontrar palavras. Pensa também: e se as definições estivessem trocadas e o significado de verdade, por exemplo, fosse assim: “Idéia, juízo ou opinião falsos”. Que mentira! E é exatamente por isso, digo, pelo mal uso das palavras na vida real é que aconteceu a Revolta das Palavras. E elas rebeladas acabaram prejudicando a vida do industrial (nos anúncios), do comerciante (nos cartazes), do político (na entrevista verdadeira) e assim por diante. Vou parando por aqui, fiquem com José Paulo Paes e que ele onde estiver faça a alegria das palavras-gente!

 

O livro das palavras do Ricardo Azevedo

 

Esse livro, com poucas páginas, tem uma imensidão de palavras e sentimentos. Ele conta que um dicionário um dia estava resmungando assim:

“- Nem sei como tanta gente perdeu tanto tempo escrevendo tanto livro. Um dicionário que se preza contém tudo o que se possa imaginar. Eu disse tudo. Todas as palavras. Não há nada num romance, num poema, num livro de Ciências que não esteja aqui. Não há...”

Quando de repente um livro infantil, lhe faz um desafio:

“- Se der uma voltinha por aí, vai descobrir que sabe todas as coisas e, ao mesmo tempo, não entende nada.”

Então o dicionário saiu mundo afora conhecendo pessoas e vivendo emoções... Até que conhece um mendigo com muita fome e... (depois vocês me contam o resto...).

 

O menino que vendia palavras de Ignácio de Loyola Brandão

 

Narra a história de um menino que tem um pai capaz de responder o significado de todas as palavras que ele pergunta. Até que um dia os colegas desse menino começam duvidar do pai dele e fazem uma listagem de palavras e tanto ir e vir, o menino acaba cobrando pelas respostas: figurinhas, bala toffe, chicletes, picolé... Quando o pai descobre isso, sugere que ele mesmo responda as perguntas consultando a enciclopédia Jackson. Um dia uma criança pergunta o significado de uma palavra que não existe e o menino se sente arrasado/vencido, mas o pai o ensina que na vida não se deve jogar com jogo sujo!

 

Observação:

Esse livro eu ganhei da minha aluna de Biblioteconomia, a Cida, que outro dia escreveu comigo nessa Coluna. É um livro que eu não conhecia e que eu considero uma preciosidade, em especial, porque comprova que um escritor sensível escreve, e muito bem, para crianças também.

 

 

Referências:

 

AZEVEDO, Ricardo. O Livro das palavras. Belo Horizonte: Formato Editorial, 1993.

 

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O Menino que vendia palavras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

 

BUENO, Márcio. A Origem das palavras: para crianças e jovens curiosos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

 

MACHADO, Ana Maria. Palavras palavrinhas e palavrões. Rio de Janeiro: Codecri, 1982.

______. Palavras palavrinhas & Palavrões. 2.ed. São Paulo: Quinteto Editorial, 1998.

 

PAES, José Paulo. A revolta das palavras: uma fábula moderna. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2006.

 

Tem também o site que eu falei lá em cima:

http://www.gnn.com.br/forum/showthread.php?t=1000059655


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.