ORGANIZAÇÕES DO CONHECIMENTO


MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E COMPORTAMENTO INFORMACIONAL

Luciane de F. Beckman Cavalcante

 

Tendo em vista que espaço informacional, segundo Almeida Júnior (2008), “se constitui ao mesmo tempo como objeto e sujeito da história e do destino da sociedade”, pode-se caracterizar as organizações como sendo um espaço informacional, ao passo que estas influenciam e são influenciadas pelo ambiente no qual estão inseridas. Bem como são produtoras e receptoras de dados, informação e conhecimento, tanto do seu meio interno quanto do meio externo a elas.

 

Pelo exposto a informação e o conhecimento são elementos essenciais ao desenvolvimento organizacional, por essa razão é importante que as pessoas de uma organização possuam um comportamento informacional que propicie tal desenvolvimento. De acordo com Davenport e Prusak (1998, p.110) e Spink e Cole (2006, p.25), o comportamento informacional refere-se às atitudes em relação a informação, ou seja, a disseminação, busca, recuperação, filtragem e uso.

 

Partindo-se do conceito de mediação da informação proposto por Almeida Júnior (2008, p.3), em que há a interferência direta no indivíduo, visto que o indivíduo se apropria da informação para satisfazer uma necessidade informacional, pode-se estabelecer um paralelo entre a mediação da informação e comportamento informacional, pois este último é circundado por uma necessidade informacional.

 

Tendo em vista que o profissional da informação pode atuar em diversos contextos, cabe ressaltar que as organizações empresariais, as quais estão envoltas por intensos fluxos informacionais, muitas vezes não sabem lidar com a quantidade informacional, tampouco sabem “gerenciar” o comportamento informacional de seus colaboradores. Percebe-se, portanto, a necessidade de atuação do profissional da informação nesses contextos, tendo em vista que este profissional pode interferir no modo como os atores organizacionais trabalham a informação, contribuindo para a disseminação, bem como no modo como os indivíduos buscam e usam a informação para suprir uma determinada necessidade informacional.

A mediação da informação estaria presente, de maneira não explicitada na seleção, na escolha dos materiais que farão parte do acervo da biblioteca, em todo o trabalho de processamento técnico, nas atividades de desenvolvimento de coleções e também no serviço de referência e informação (ALMEIDA JÚNIOR, 2008, p.46).

Ressalta-se, portanto, que a mediação da informação no âmbito organizacional inicia-se junto aos processos informacionais e encerra-se junto aos atores organizacionais, que por sua vez interagem com distintas finalidades.

 

Nesse contexto, a função do profissional da informação não é uma função assistencialista, ao contrário é uma interferência direta no comportamento informacional dos indivíduos, ou seja, atua entre a necessidade de informação dos indivíduos, visando à apropriação da informação, cujo uso pretende suprir as necessidades informacionais.

 

A mediação da informação é uma ação desenvolvedora do comportamento informacional nas pessoas de uma determinada organização. Por outro lado, o comportamento informacional é fruto da cultura organizacional. Schein (2001, p.29-36) estabeleceu uma concepção sobre cultura organizacional, e defende que a cultura é um elemento que serve tanto para adaptação de um determinado grupo a um determinado ambiente, quanto para integrar tal grupo e fazer com que esse grupo a adote como a forma correta de pensar e agir, ou seja, ela permeia toda a organização e é a responsável pelo modo como as pessoas agem no ambiente organizacional, influenciando seus comportamentos e atitudes.

 

Como parte integrante à cultura organizacional tem-se a cultura informacional. Compreende-se cultura informacional como um conjunto de valores que influem na maneira como as pessoas lidam com a informação e o conhecimento no contexto organizacional, seja na assimilação, interpretação, uso e disseminação da informação e do conhecimento, seja na geração de informação e conhecimento, como apresentado por Woida e Valentim (2006, p.40).

Cultura informacional é entendida como um conjunto de pressupostos básicos compostos por princípios, valores, crenças, ritos e comportamentos positivos em relação à construção, socialização, compartilhamento e uso de dados, informação e conhecimento no âmbito corporativo.

Desse modo, a cultura informacional interfere no modo como a informação é trabalhada no contexto organizacional, fator que influi na mediação da informação e, neste contexto, deve abarcar e compreender o todo organizacional, conhecer a cultura que a envolve, pois de nada adiantará a interferência do profissional da informação, se a cultura não propiciar as condições básicas para a mediação.

 

Percebe-se o quanto o comportamento informacional é influente no desenvolvimento das organizações, visto que é por tal comportamento que a informação é explorada neste âmbito. Partindo-se do pressuposto que as organizações estão envoltas em fluxos informacionais, destaca-se o quão relevante é a atuação do profissional da informação nesse contexto.

 

Explica-se que ausência desse profissional junto às organizações empresariais, se faz em parte pela própria formação profissional, bem como pelo próprio desconhecimento das organizações sobre a atuação desse profissional. O trabalho do profissional da informação não deve ficar restrito somente às paredes das bibliotecas, visto que todo ambiente informacional é passível da atuação do profissional da informação.

 

Defende-se que a mediação da informação em ambientes organizacionais, pode contribuir para um comportamento informacional mais positivo a tomada de decisão estratégica. Contudo, a modificação de tal comportamento não cabe à mediação da informação, mas sim aos gestores de tal comportamento. A mediação da informação interfere em todos os processos informacionais, podendo ou não propiciar uma mudança de comportamento, ao passo que este é constantemente influenciado pela cultura organizacional/cultura informacional existente.

 

Para que a mediação da informação interfira diretamente no comportamento informacional dos indivíduos, é necessário que ela faça parte da cultura organizacional/cultura informacional do ambiente organizacional, ou seja, é necessário que o agente mediador faça parte desta cultura.

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA JÚNIOR, O. de. Mediação da Informação: ampliando o conceito de disseminação. In: VALENTIM, M. L. P. et al. Gestão da informação e do conhecimento no âmbito da Ciência da Informação. São Paulo: Polis: Cultura Acadêmica, 2008. p.41-54

 

DAVENPORT, T.; PRUSAK, L. Ecologia da informação: por que só a tecnologia

não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998. 316p.

 

SCHEIN, E. H. Guia de sobrevivência da cultura corporativa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001. 191p.

 

SPINK, A.; COLE, C. Human information behaviour: integrating diverse approaches and information use. Journal of the American Society for Information Science and Technology, v.57, n.1, p.25-35, 2006.

 

WOIDA, L.M.; VALENTIM, M. L. P. Cultura organizacional/cultura informacional: a base do processo de inteligência competitiva. In: VALENTIM, M. L. P. et al. Informação, conhecimento e inteligência organizacional. Marília: FUNDEPE Editora, 2006. 282p.

 

 

Luciane de F. Beckman Cavalcante  - Aluna de mestrado da Linha de Pesquisa “Gestão, Mediação e Uso da Informação”, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Bolsista FAPESP. Orientanda da Profa. Dra. Marta Lígia Pomim Valentim.


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MARTA LIGIA POMIM VALENTIM

Professora Titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pós-Doutorado pela Universidad de Salamanca (USAL), Espanha. Livre Docente em Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional pela Unesp. Docente de graduação e pós-graduação da Unesp, campus de Marília. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa "Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional". Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Unesp, campus de Marília, gestão 2017-2021. Presidente da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN), gestão 2016-2019.