ORGANIZAÇÕES DO CONHECIMENTO


COMPORTAMENTO INFORMACIONAL NO ÂMBITO DA CULTURA ORGANIZACIONAL

Elaine Cristina Lopes

 

O cenário organizacional mundial que se apresenta vem sendo marcado por intensos debates em torno do desenvolvimento, eficiência e competitividade organizacional. Esses debates são permeados por estratégias de mudanças quanto ao comportamento das empresas diante das crises, do desenvolvimento de novas tecnologias e das mudanças de comportamento dos clientes, em muitos casos chegando a uma alteração no modo de agir até de empresas cuja trajetória é mais tradicional. Isso ocorre porque essas discussões acabam por levar à mudança de paradigma, quanto à gestão das empresas propriamente dita, uma vez que a natureza cultural imprime a identidade dos controladores, fator que tem efeito direto sobre os resultados obtidos por essas empresas, bem como sobre o alinhamento de interesses entre todas as partes envolvidas.

 

As organizações enfrentam desafios crescentes, tanto na forma de inserção e interação de sociedades, como no sistema de gestão adotado. Com a globalização, houve uma quebra de paradigma e mudança em relação às crenças, conceitos e valores humanos, novos mercados profissionais surgiram e fizeram com que cada área repensasse suas atividades frente às novas demandas (MORAES; FADEL, 2009).

 

As organizações tiveram que realinhar seus objetivos estratégicos em decorrência do aumento da competitividade, imposto pela entrada de novos concorrentes no mercado nacional, e outro ponto de destaque se deve a uma elevação do nível de exigências do mercado consumidor, que sob a oferta de variados produtos e ampliação da opção de marcas e padrões de qualidade, passaram a ter uma postura mais exigente. Nesse contexto, as empresas passaram a conviver com a necessidade de novas estratégias e alinhamento de sua cultura organizacional com os interesses, especialmente informacionais, dos consumidores com o objetivo de se manterem competitivas no mercado, isso porque a informação é um dos principais subsídios que uma organização possui, considerando que é parte indissociável de todos os fazeres sejam táticos ou estratégicos.

 

Os estudos acerca da relação existente entre necessidades informacionais e o processo de busca da informação vem se desenvolvendo e ampliando seu escopo. Isso se deve à concepção de que quando ocorre uma determinada necessidade informacional, o sujeito necessita da informação como subsídio para a construção de conhecimento, e durante esse processo cognitivo ocorre o uso de mecanismos de busca da informação.

 

Nessa perspectiva, várias abordagens vêm sendo utilizadas para se analisar o comportamento do usuário. Para Nassif, Venâncio e Junqueira (2007) os estudos sobre necessidades, demandas e usos de informação buscam investigar como os indivíduos buscam informação sobre algo, que fontes lhes são importantes e como as utilizam.

 

Comportamento informacional é todo comportamento humano relacionado às fontes e canais de informação, incluindo a busca ativa e passiva de informação e o uso da informação. Isso inclui a comunicação pessoal e presencial, assim como a recepção passiva de informação, como a que é transmitida ao público quando este assiste aos comerciais da televisão sem qualquer intenção específica em relação à informação fornecida (WILSON, 1999).

 

É importante destacar o caráter cultural que envolve os processos de tomada de decisão baseados no comportamento informacional dos indivíduos que fazem parte da organização. Isso se configura como um ponto primordial, considerando que o cerne da cultura de uma determinada organização não muda, contudo, o comportamento dos indivíduos, ainda que sejam influenciados por essa cultura, de forma direta ou indireta, pode sofrer alteração de acordo com o contexto, o ambiente, as experiências adquiridas a priori, bem como as relações existentes nesse ambiente.

 

Desse modo, é importante reconhecer que a cultura organizacional pode influenciar significativamente o comportamento informacional dos indivíduos, o que pode consequentemente alterar os processos de gestão rotineiros. Porém, é importante considerar que o comportamento informacional, bem como as análises do comportamento de busca de informação, em geral, são realizadas de modo particular, enquanto que os conceitos e premissas da cultura organizacional inferem na organização como um todo.

 

Em termos simples, comportamento informacional se refere ao modo como os indivíduos lidam com a informação. Inclui a busca, o compartilhamento, a troca, o uso, o acúmulo e, até mesmo, o ato de ignorá-la. Consequentemente, quando administramos o comportamento ligado à informação tentamos aperfeiçoar a eficácia global do ambiente informacional, por meio de uma ação combinada (DAVENPORT; PRUSAK, 1998).

 

Enquanto o comportamento envolve atos individuais, a noção de cultura abrange grupos, organizações ou redes — em particular os valores e as crenças de um grupo (DAVENPORT; PRUSAK, 1998).

 

É importante considerar que os indivíduos são importantes fontes de desenvolvimento ou fortalecimento da cultura da organização, e que estes podem facilitar ou dificultar o comportamento informacional, cujos parâmetros estejam em acordo com o modelo da cultura raiz da organização. Os fatores tanto externos quanto internos podem estimular as necessidades informacionais e o alinhamento entre o comportamento dos indivíduos – diante das necessidades de busca de informação –, com a cultura da organização, pois quanto mais percebida for a sua importância, maior será seu fortalecimento.

 

Por cultura em relação à informação entendo o padrão de comportamentos e atitudes que expressam a orientação informacional de uma empresa. Culturas, nesse sentido, podem ser fechadas ou abertas, orientadas por fatos ou baseadas na intuição ou em rumores, de enfoque interno ou externo, controladas ou autorizadas (DAVENPORT; PRUSAK, 1998).

 

A cultura de cada organização é diferente, o que significa que a todo o momento o seu caráter específico, independentemente do segmento de mercado no qual atua, terá preponderância, especialmente no que diz respeito ao comportamento informacional das suas equipes profissionais. Independentemente do perfil cultural de cada organização, os padrões comportamentais dos indivíduos que ali atuam estão relacionados à cultura informacional existente na organização.

 

O comportamento informacional tem como uma de suas condições formadoras o resultado da incorporação e da prática de elementos da cultura da organização, sobretudo, quando esta valoriza a informação, bem como propicia que esse valor seja transformado em ações de busca, captura, aquisição, compartilhamento e uso para a tomada de decisão, assim podemos considerá-la como uma organização que estimula o desenvolvimento da cultura informacional (WOIDA, 2008).

 

Uma organização precisa – além da implementação e investimentos em sistemas de informação –, da capacidade de trabalhar determinados valores que estão enraizados em sua cultura, e que possam servir de subsídio para o desenvolvimento de uma cultura informacional considerando os efeitos do comportamento informacional e comportamentos relacionados à busca, compartilhamento e uso da informação, fatores que podem propiciar que a organização alcance um diferencial competitivo sem que sua personalidade seja alterada.

 

Uma organização cuja cultura seja formada por conceitos que valorizam a informação, como fator fundamental para o desenvolvimento tanto de fazeres rotineiros quanto de estratégias competitivas, pode ter grande sucesso quando realiza a aliança de sua cultura para a determinação de diretrizes no estabelecimento de um comportamento informacional no espaço organizacional, o que pode tornar o comportamento de busca e compartilhamento da informação um processo mais eficiente, tornando por consequência o uso da informação algo mais racional e eficaz.

 

Referências

 

DAVENPORT, T.; PRUSAK, L. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998.

 

MORAES, C. R. B.; FADEL, B. A informação no contexto organizacional: tipos, características e usos. IBERCID: Revista de Sistemas de Información y Documentación, n.3, p.61-65, 2009.

 

NASSIF, M. E.; VENÂNCIO, L. S.; JUNQUEIRA, L.C.H. Sujeito, contexto e tarefa na busca de informação: uma análise sob a ótica da cognição situada. DataGramaZero: Revista de Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.8, n.5, out., 2007.

 

WILSON, T. D. Models in information behaviour research. Journal of Documentation, v.55, n.3, p.249-270, 1999.

 

WOIDA, L. M. Cultura informacional: um modelo de realidade social para a inteligência competitiva organizacional. In: VALENTIM, M. L. P. (Org.). Gestão da informação e do conhecimento no âmbito da Ciência da Informação. São Paulo: Pólis, 2008. p.93-115


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MARTA LIGIA POMIM VALENTIM

Professora Titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pós-Doutorado pela Universidad de Salamanca (USAL), Espanha. Livre Docente em Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional pela Unesp. Docente de graduação e pós-graduação da Unesp, campus de Marília. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa "Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional". Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Unesp, campus de Marília, gestão 2017-2021. Presidente da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN), gestão 2016-2019.