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PARA ORGANIZAR OS PENSAMENTOS E A EMOÇÃO, INSTALE UMA BIBLIOTECÁRIA(O) NO HD DO CORAÇÃO

Nestes tempos de “tsunami” tecnológicos, as pessoas parecem atordoadas com a organização cotidiana de suas vidas. Algo contraditório, ao se pensar que a tecnologia existe para facilitar a vida humana.

 

Há, na vida moderna, algumas situações que forçam a busca de ajuda especializada, como: a) estando acima do peso e não ter tempo para frequentar uma academia, a opção é um personal trainer; b) sem noção quanto ao tipo de roupa usar, a opção é um personal stylist; c) incompreendido socialmente ou querendo comunicar-se melhor com as pessoas, a opção é um assessor de relações públicas.

 

Com tantas assessorias para nortear a vida é provável que o cartão ou o cheque especial estoure o limite. Nesse caso, busca-se a ajuda de um consultor financeiro. Se os acontecimentos provocam ações jurídicas, o jeito é apelar para o advogado (consultor jurídico). Afinal, conseguir uma vida tranquila e organizada não tem preço.

 

Neste sentido, os bibliotecários e as bibliotecárias formados nos anos finais de 1970, e que leram o livro de Derek Langridge: “Classificação: abordagem para estudantes de biblioteconomia” (do original: Approach to classification for students of Librarianship), irão se recordar da história do casal Brown que consta do prólogo da obra. A história descreve as atividades cotidianas, na vida deste casal, para explicar conceitos da classificação bibliográfica ou vice-versa. O casal é composto pelo Sr. John Brown (consultor industrial e para quem as questões formais eram importantes), e sua esposa que, não tendo um nome próprio, estava dedicada às atividades domésticas.

 

Em resumo, a história relaciona os inúmeros atos de classificação realizados pelo casal. Nos dias de trabalho, ao se levantar, o Sr. Brown se encaminha para o banheiro. Um aposento fácil de organizar devido a uma classificação elementar: as coisas dele e as coisas dela. Por exemplo, o barbeador, o pincel de barba e a loção após barba dele ficam em um compartimento. Já, o shampoo, pós e cremes dela, em outro. A toalha de rosto e sabonete dele do lado esquerdo do lavatório, os dela do lado direito. A toalha de banho dele é azul, a dela, cor-de-rosa. Na definição do casal, o banheiro arrumado é um sinal de eficiência.

 

No guarda roupa os trajes ficam arrumados segundo seu peso e tamanho. Os sobretudos mais pesados no lado esquerdo, seguidos pelas blusas mais leves, a capa de chuva, os ternos formais, jaquetas e as camisetas. As camisas colocadas nas prateleiras do lado esquerdo e direito do armário. Classificadas segundo três critérios: formal ou informal, grossa ou fina e cor. Essa ordem permite definir a vestimenta do dia.

 

A Sra. Brown, em seu trabalho doméstico, na cozinha, começa a arrumar os utensílios em grupos definidos ao lado da pia – copos, xícaras, pires, pratos e talheres – para lavá-los nesta ordem. Os alimentos são classificados inicialmente de acordo com sua necessidade de proteção do ar, ao calor e à poeira: leite, carne e ovos na geladeira, pão e biscoitos em recipiente vedados contra o ar e os alimentos embalados em vários armários. A geladeira fora dividida em compartimentos de acordo com o grau de refrigeração requerido; os biscoitos estavam em latas separadas para doces e salgados e os pacotes e as garrafas foram agrupados como bebidas, cereais, conservas e condimentos. Em outros compartimentos da cozinha e gavetas encontravam-se separadas toalhas de mesa, talheres e louças. Seu lema transmitido de mãe para filha é: “Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar”, a essência da classificação prática.

 

A história apresentada por Langridge é, obviamente, um comportamento estilizado e ideal de todo homem (qual seria o da mulher?). Na prática a maioria das pessoas não é tão ordenada como o casal Brown. Afinal, não há citação de filhos na história. Como a edição traduzida do livro é de 1977, permite supor que o casal não era hyppies e nem adapto do ideal “Paz e Amor” (Peace and Love). Nesse contexto, o sexo ao que tudo indica, deveria estar classificado, unicamente, no conceito da procriação. Humor a parte, o livro enfatiza que a classificação na atividade humana é evidente. E, independente das evoluções tecnológicas, esse preceito parece valer ainda mais.

 

Evidente, também, é o fato de haver pessoas, nos dias atuais, fazendo da organização da vida diária, um meio de vida. O nome desses profissionais: personal organizers - a solução para a desorganização da vida.

 

A área de atuação dos chamados organizers é vasta e bem remunerada. Em média, cobra-se entre R$60 a R$120 reais por hora. Basicamente, as atividades mais solicitadas são: arrumar armários e organizar o ambiente residencial. Há, também, demandas para organização de loja (em geral os estoques), e araras de butique de roupas. Em escritórios, destaca-se a organização da caixa de entrada de e-mail, entre outras atividades. Neste segmento, também ocorre organização de coisas exóticas, como o acervo de “brinquedos” eróticos de uma senhora de 70 anos. O Material foi classificado por cores, formas e tamanhos, além do: muito ou pouco usado.

 

A proposta dos “organizadores profissionais” é ajudar as pessoas a desenvolverem uma rotina que dê mais tempo livre. A atividade tornou-se uma alternativa para profissionais de diversas áreas, como: arquitetos, nutricionistas, e administradores, entre outras.

 

Para quem quer organizar a própria casa ou trabalhar como personal organizer na organização da vida doméstica das pessoas, há curso de formação. Um curso encontrado na web é oferecido dividido em quatro módulos de quatro horas cada um, com a seguinte estrutura:

 

§     Módulo 1 - Closets, Banheiros e Quartos de Criança;

§     Módulo 2 - Cozinhas, Áreas de Serviço, Escritórios e dicas de como se tornar uma personal organizer;

§     Módulo 3 - Aula Prática de Organização de Closet e Moldes para Camisetas

§     Módulo 4 - Aula prática de Divisórias para Gavetas

 

É um curso eminentemente prático sobre a organização doméstica. Carece de embasamento teórico que fundamente o conceito de organização e de classificação, ainda que de uma residência.

 

Esse tipo de curso tem interesse. Indica que a falta de competências das pessoas não está limitada apenas na busca e uso da informação, mas também em organizá-la minimamente, ou seja, em por ordem na desordem documental doméstica (ordenar a papelada e as contas), e no material de uso pessoal.

 

Como, normalmente, há bibliotecários empreendedores no ambiente de consultoria documental, esta área mais da vida privada pode ser contemplada com um suporte profissional mais especializado. Além da capacitação do usuário no acesso e uso da informação, algumas bibliotecas também podem desenvolver programas básicos de capacitação do usuário na organização da sua documentação pessoal. Afinal os conceitos de classificação cabem em qualquer lugar. Melhor ainda é o usuário colocar a bibliotecária no coração; para uma boa emoção, basta.

 

Indicação de leitura sobre o tema abordado:

 

YRU ORGANIZER. Organização de Ambientes. Disponível em: http://organize.yru.com.br/personal-organizer.php. Acesso em: 24/04/2011.

 

PERSONAL Organizer: a solução para a desorganização da sua vida. Disponível em: http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1246000-EI1377,00.html. Acesso em: 24/04/2011.

 

PERSONAL organizers ensinam como arrumar o armário. Blog do Atmosfera Eco Clube. Disponível em: http://migre.me/4qDcb. Acesso em: 20/04/2011.

 

MARTIN, F.; Lessa, K. O Trabalho deles é organizar. Revista São Paulo, 17 a 23 de abril de 2011, p.44-46. (Suplemento do Jornal Folha de São Paulo). Disponível em: http://migre.me/4qDF6. Acesso em: 18/04/2011.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.