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INTERNET MÓVEL PARA BIBLIOTECAS SEM RODINHAS NAS ESTANTES DE SEUS PRODUTOS E SERVIÇOS

Conversava com uma colega bibliotecária, diretora de biblioteca universitária, sobre o impacto das mudanças tecnológicas. Ela comentou da necessidade em mudar aspectos do mobiliário, e das instalações físicas da biblioteca. Decorrência da demanda crescente dos usuários em utilizarem seus computadores e equipamentos portáteis. Precisou instalar maior número de tomadas (para carregar baterias), e ampliar o acesso à internet de banda larga sem fio.

 

Na última semana de junho, presenciei um fato curioso, mas não raro, visto que se torna comum entre os consulentes da biblioteca. Um rapaz que ao folhear a publicação tirava fotos com o seu celular. Uma nova maneira, tecnológica, do conhecido “copia e cola”. Outro que digitava no notebook, em dado momento, fotografou com o celular uma figura do livro que consultava e, sem a mínima dificuldade, enviou para o seu computador, agregando ao texto que desenvolvia. Fantástico? Não, simplesmente bluetooth.

 

Os celulares até então utilizados para a comunicação interpessoal e profissional  se convertem em poderosas ferramentas para incrementar, ainda mais, a interação humana com a informação e o conhecimento, e a própria aprendizagem. O acesso e o uso da informação transcendem limites por meio dos dispositivos móveis. Em realidade, nós humanos somos criaturas móveis, em movimento, utilizando vários ambientes para uma variedade de atividades. As tecnologias tradicionais não foram capazes de se adaptar a este estilo de vida. Ao menos até agora.

 

Na minha época do ginásio havia os “deveres de casa”, ia à biblioteca com o caderninho de anotações. Hoje, o estudante acessa a informação mediante seu celular, lê conteúdos e realiza suas tarefas escolares, etc. Veja exemplo deste processo no site do youtube ou em: http://goo.gl/CRDxn.

 

Agora, obter informação extraída de material impresso e enviar para um destinatário remoto é prática corriqueira. Essa mobilidade torna mais flexível a vida das pessoas, e começa a influenciar mais intensamente a atividade bibliotecária no que se refere aos seus serviços e produtos. Já não basta às bibliotecas fornecerem informação, devem também fornecer a energia que o usuário precisa, além de conexão com a internet sem fio, e serviços de informação configurados para as mais diversas polegadas de telas.

 

Meu pai sempre me dizia que a Martha Rocha não fora eleita miss universo, em 1954, por ter algumas polegadas a mais. Atualmente, a biblioteca corre risco de perder qualquer opção do usuário se não estiver em muitas polegadas de telas das mais variadas gadgets em que se transformaram os portáteis eletrônicos atuais.

 

Estamos em uma efervescência da evolução contínua das tecnologias de informação e comunicação, que possibilitam conexões sem fio para acesso à internet e às redes sociais a partir de telefones celulares, e de uma variedade de dispositivos de fácil utilização e comodidade na conectividade.

 

São aspectos dos quais emergem as expressões: “Internet móvel” ou “Web móvel” ou “mobile internet” ou “mobile web” ou “mobile site”, que designam o acesso à web desde aparelhos cuja qualidade essencial é a própria mobilidade. É a mesma web consultada a partir de equipamentos portáteis. As expressões são compreendidas não só pelo enfoque do hardware, mas do contexto da mobilidade em referência ao usuário. É também definida como uma extensão da Web centrada no usuário como criador e consumidor de conteúdo. Dispositivo móvel é o meio para se alcançar a “inteligência coletiva”.

 

Isto tudo, apesar de o brasileiro continuar pagando por um dos serviços de telefonia celular mais cara do mundo. Segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT) que apontou que, enquanto o mundo viu uma redução média de 22% nos custos de celular nos últimos dois anos (2009-2010), no Brasil essa queda foi de apenas um terço do valor, cerca de 7%. A queda nos preços internacionais fez com que o número de celulares no planeta passasse de 4 bilhões em 2008 a 5,3 bilhões ao final de 2010, apesar da crise econômica mundial. No caso do Brasil, o país passou a ter mais celular que habitantes. Em maio de 2011, o país chegou à marca de 215 milhões de contas para uma população de 194 milhões de habitantes, de acordo com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

 

Especialistas sinalizam que nos próximos cinco anos, a tecnologia móvel será a primeira opção no acesso e uso da informação e, portanto, coloca novos desafios para a gestão documental. Bibliotecas que restringem o uso de celular em seus espaços terão que rever suas decisões, e olhar o recurso como canal de oportunidades de acesso à informação bibliográfica, e ao oferecimento de serviços e atendimento personalizado.

 

Uma questão eminente é qual o papel dos bibliotecários nesses ambientes móveis, irá se mudar as competências e atividades no gerenciamento de informações, produtos e serviços, ou então, simplesmente, remodelar os pensamentos?

 

Convém observar que a tecnologia móvel é um recurso que deve ser explorado para melhorar a interação com o usuário e público em geral, mesmo porque: a) o mercado oferece recurso com preço acessível por prestações, capacidade variada e novidades que não param de crescer, e b) a maioria dos usuários (para não citar todos) carrega algum dispositivo móvel de última geração no bolso, mochila ou bolsa.

 

Ademais, é constante nos meios de comunicação notícias sobre inovações nas tecnologias de comunicação sem fio, apoiadas em dispositivos como smartphones, tablets, ou PDAs, que estão provocando mudanças nas relações entre os cidadãos, e a influência em sociedades nas quais encontram-se imersos, provocando mobilizações que já chegam a derrotar governos ditatoriais como visto em alguns países árabes, ou promover campanhas globais e solidariedade diante de desastres naturais como ocorrido no Japão e Chile, e mesmo manifestações pelo direito de expressão como os realizados recentemente  em diversas capitais e cidades brasileiras.

 

Experiências bibliotecárias

 

Mobile web tem como característica básica o fato de acompanhar os usuários. Aspecto que obriga a biblioteca a pensar sobre o que se pode explorar da plataforma para refletir a verdadeira mobilidade dos produtos e serviços de informação.

 

Algumas bibliotecas adaptaram os conteúdos de seus sites para o acesso também por dispositivos móveis, com a vantagem de não requerer conhecimentos técnicos avançados no processo. Alguns exemplos neste sentido:

 

§  Fremont Public Library: http://fpld.websiteforever.mobi/, é uma biblioteca pública situada na cidade de Mundelein, Illinois, EUA, que se utiliza do serviço do mobiSiteGalore, http://www.mobisitegalore.com/. Uma empresa digital que permite ao próprio usuário construir, gerenciar e compartilhar o seu próprio site móvel, a preços módicos.

§  Harris County Public Library, localizada em Houston, Texas, EUA. Realiza uma circulação anual de mais de 10 milhões de itens. Estrutura-se em uma rede de 26 bibliotecas orientada para a comunidade, e empenhada em fornecer um serviço de ponta para o século 21. Neste aspecto criou um site móvel básico dentro de sua proposta de trabalho: http://pda.hcpl.net/.

§  Regina Public Library, localizada na cidade de Regina, Canadá. Determina em sua missão a preocupação com a qualidade de vida dos habitantes da cidade. Neste sentido, proporciona o acesso à informação para o desenvolvimento cultural, econômico, educacional e de lazer. A biblioteca desenvolveu um site móvel para contato com seus usuários: http://www.rpl.regina.sk.ca/m/.

§  Ryerson University Library & Archives, situada na cidade de Toronto, Ontário, Canadá. Segundo sua missão, é parte integrante das atividades acadêmicas de aprendizagem, ensino e pesquisa, e criatividade. Possui um serviço digital móvel denominado “mobile library”, disponível em: https://m.ryerson.ca/.

§  Universidade de Bath, Reino Unido, por meio de um blog  no endereço: http://blogs.bath.ac.uk/qrcode/, explora o recurso de mobilidade em ambientes físicos, usando códigos QR. Um tipo de incorporação para o mundo real que ajuda a fornecer informações sempre que os usuários querem. Com a web móvel, não se está mais limitado por fios, cabos e computadores fixos. É outra forma de explorar as possibilidades de mobilidade no ambiente de informação.

 

Os sites móveis fornecidos pelas bibliotecas costumam contemplar informações básicas. Informações como: contato por e-mail e horário de funcionamento, eventos promovidos (textos breves e concisos), lista de novidades e de materiais mais emprestados, renovação, FAQs (perguntas frequentes), acesso ao catálogo bibliográficos on-line.

 

Outro aspecto é o design da página. Normalmente,  limpa, simples, com fundo branco, sem imagens, conteúdo disposto em lista com poucas páginas. Sinaliza que o usuário precisa de praticidade no acesso às informações por equipamentos móveis de visualização restrita.

 

Bibliotecas que divulgam suas informações por Twitter, Facebook ou Youtube, por exemplo, não necessitam adaptações. Esses recursos dispõem de interfaces móveis, bem como alguns serviços de blogs e rss.

 

Sobre os catálogos, na literatura têm sido chamados de “mopacs” ou “mobile opacs”. Como a consulta em OPACs, resulta em grandes listas de resultados com inúmeros dados bibliográficos que dificulta a consulta em telas pequenas. Mesmo a estratégia de busca fica complicada em teclados pequenos. Assim, as bibliotecas buscam criar interfaces para consulta em equipamentos portáteis, capazes de responder aos usuários em movimento de forma concisa e simplificada. Neste sentido surgem empresas com soluções comerciais para bibliotecas, é o caso da AirPAC, da Innovative Interfaces.

 

No Brasil as primeiras iniciativas começam a aparecer:

 

§  Biblioteca do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, localizado no campus da Cidade de São Paulo (capital), que desenvolve o seu “mobile site”, para acesso via telefone celular, no endereço: http://www-sbi.if.usp.br/mobile/.

§  Portal de Periódicos, mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que em parceria com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), desenvolvem configuração do Portal para acesso via aparelhos smartphones e Tablets. Pode ser acessada no endereço: http://www.periodicos.capes.gov.br/mobile/#home.

 

Finalizando

 

Qualquer conteúdo web pode ser visualizado a partir de qualquer dispositivo móvel com navegador. Para melhorar a experiência de navegação do usuário pode ser necessário adaptar os conteúdos.

 

O cenário reforça a responsabilidade dos bibliotecários em fornecer informação aos seus usuários, de forma organizada, independentemente do meio que eles querem consumi-la por completo.

 

Bibliotecas têm necessidade de facilitar a entrega de conteúdo para os dispositivos dos usuários e, também, ter em mente que a informação que o usuário espera recuperar deve estar formatada para cada tipo de monitor (que  depende do dispositivo utilizado). Este é um duro desafio para as bibliotecas.

 

Bibliotecas que queiram explorar o recurso das tecnologias móveis podem iniciar pelo caminho mais simples, utilizando-se das mensagens de texto via SMS.

 

O SMS ou Torpedo (como popularizado no Brasil) é o mais acessível, até pelo baixo custo (muitas vezes incluídos nos contratos de assinatura). É uma maneira simples e fácil de a biblioteca realizar a prestação de um serviço móvel. Mesmo o serviço de referência pode ser experimentado por este meio de comunicação.

 

Neste sentido surgem portais de texto online, ou mesmo serviços de referência SMS disponíveis para compra em (http://www.textalibrarian.com/), mas como um primeiro passo, a prestação deste serviço pode ser muito simples, fácil e  barata. Para quem desejar testar é possível encontrar, na internet, serviços gratuitos, caso de: http://www.torpedogratis.net/.

 

Apesar da realidade de muitas bibliotecas brasileiras, que sequer têm um computador descente e uma conexão de Internet de banda larga mínima, não se pode deixar de buscar alternativas para fornecer informação. Nem que seja adotar patins para deslizar entre as estantes. Aliás, é também um serviço móvel.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.