INFORMAÇÃO E SAÚDE


INFORMAÇÃO SOBRE OBESIDADE: UMA TEMÁTICA PARA AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS E CULTURAIS

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Bianca Acorinte Cândido

Talita Maria Fávaro Danelon

Taíssa Lima Martins

 

Introdução

 

Este texto tem por objetivo apresentar as múltiplas facetas da obesidade e as informações básicas sobre esse assunto necessárias à população, bem como apresentar um exemplo de como instituições sociais e culturais podem contribuir em sua prevenção.

 

Esta publicação é resultante de estudos realizados na Disciplina de Graduação Comunicação e Difusão de Conhecimentos em Saúde, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, ministrada pela Profa. Dra. Maria Cristiane Barbosa Galvão, cujo conteúdo se volta para metodologias de translação de conhecimentos e informação em saúde considerando diferentes públicos-alvo, dentre os quais pesquisadores da saúde, profissionais da saúde, gestores da saúde e a população.

 

Participaram na produção do presente texto, especialmente na coleta de informações básicas sobre obesidade necessárias à população, as graduandas Bianca Acorinte Cândido, Talita Maria Fávaro Danelon e Taíssa Lima Martins, do Curso de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto.

 

As múltiplas facetas da obesidade

 

O sobrepeso e a obesidade constituem-se como acúmulo de gordura anormal ou excessiva que possa prejudicar a saúde. O índice de massa corporal (IMC) é comumente utilizado para classificar o sobrepeso e obesidade em adultos. É definido como o peso da pessoa em quilogramas dividido pelo quadrado de sua altura em metros (kg/m2). Um IMC maior ou igual a 25 indica sobrepeso e um IMC maior ou igual a 30 indica obesidade. Embora o IMC seja uma medida amplamente aplicada para se conhecer o sobrepeso e a obesidade da população, faz-se notar que a avaliação do grau de gordura deve considerar também outras características do indivíduo. (ORGANIZAÇÃO, 2012)

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (2012), dentre as principais consequências da obesidade e do sobrepeso estão as doenças cardiovasculares (principalmente doenças cardíacas e acidente vascular cerebral), que foram a principal causa de morte em 2008; diabetes; distúrbios músculo-esqueléticos (principalmente osteoartrite - doença degenerativa das articulações); e alguns tipos de câncer (endométrio, mama e cólon).

 

Embora a obesidade possa ser prevenida, ao longo de várias décadas ela vem crescendo e paulatinamente se tornando uma epidemia global importante. A OMS aponta que, em 2005, cerca de 1,6 bilhão de adultos tinham sobrepeso e, pelo menos, 400 milhões de adultos eram obesos. Para o ano de 2015, a OMS estima que cerca de 2,3 bilhões de adultos terão sobrepeso e mais de 700 milhões de adultos poderão estar obesos. Em relação às crianças menores de 5 anos, estima-se que, já em 2010, mais de 40 milhões estavam com sobrepeso (BAHIA et al., 2012; ORGANIZAÇÃO, 2012).

 

Na literatura científica, há uma vasta discussão sobre os aspectos ecológicos, genéticos, socioculturais, psicológicos e econômicos relacionados ao sobrepeso e à obesidade. De forma que se pode entendê-la, na atualidade, como uma enfermidade multifatorial. (WANDERLEY, FERREIRA, 2010)

 

Numa perspectiva econômica, a obesidade impacta, por exemplo, nos gastos dos sistemas de saúde. No caso brasileiro, estima-se que o Sistema Único de Saúde empregue anualmente, com as doenças relacionadas ao sobrepeso e a obesidade, uma importância de US$ 2,1 bilhões, sendo US$ 1,4 bilhão devido às internações e US$ 679 milhões referentes a procedimentos ambulatoriais. (BAHIA et al., 2012)

 

Em relação ao gênero, Kanter e Caballero (2012), alertam que a prevalência de sobrepeso e obesidade entre os homens e mulheres varia muito dentro e entre países, mas em geral as mulheres são mais obesas que os homens, sobretudo nos países em desenvolvimento. O conhecimento científico disponível sugere, assim, que inúmeras dinâmicas socioculturais em todo o mundo agravam as disparidades de gênero no excesso de ganho de peso. Em muitas situações, as mulheres consomem alimentos mais saudáveis. Por outro lado, elas também consomem mais alimentos ricos em açúcar. Além disso, em alguns países, os valores culturais reforçam que o maior tamanho corporal entre homens ou mulheres é um sinal de fertilidade, saúde ou prosperidade. Desse modo, a obesidade perpassa os caminhos da cultura e vice-versa.

 

Em relação às classes sociais e etnias, Kuross e Folta (2010) ressaltam que, nos Estados Unidos, a obesidade e doenças relacionadas são especialmente prevalentes em populações minoritárias e pobres. No caso norte-americano, 22% das crianças negras e 22,5% das crianças hispânicas possuem sobrepeso comparadas a 17,7% das crianças brancas.

 

Considerando a faixa etária, não seria errado afirmar que muitos fatores individuais e ambientais também contribuem para a obesidade infantil. Entre eles: a segurança dos bairros, a disponibilidade de parques e áreas de recreação, atitudes culturais ou familiares para comer e de exercício, entre outras. (WANDERLEY, FERREIRA, 2010)

 

Para resolver o problema da obesidade e do sobrepeso, o suporte deve vir de uma variedade de instituições que influenciam a vida das famílias. Em outras palavras, ações no âmbito coletivo devem envolver políticas públicas que promovam a saúde, o bem estar e a qualidade de vida das populações onde a parceria entre o governo e a sociedade civil deve ser entendida como um caminho promissor na prevenção e tratamento da obesidade, por meio da responsabilização e do autocuidado, permitindo que a comunidade participe do processo de promoção da saúde. (WANDERLEY, FERREIRA, 2010)

 

Informações básicas para a população

 

Considerando que a temática obesidade, por sua relevância social, deve estar presente nos processos de translação do conhecimento e informação em saúde de diferentes instituições sociais e culturais, as graduandas Bianca Acorinte, Talita Danelon e Taíssa Martins entrevistaram, no dia 26 de novembro de 2012, a Professora Doutora Ellen Cristini de Freitas da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, doutora em Ciências dos Alimentos pela Universidade de São Paulo. A entrevista contemplou questões básicas sobre a obesidade que pudessem gerar informações úteis à população, conforme segue.

 

Talita: Professora, qual sua área de estudo?

Ellen: Nutrição clínica e obesidade e nutrição esportiva.

 

Talita: Quais são os principais fatores que levam à obesidade?

Ellen: O estilo de vida, a alimentação inadequada e a inatividade física. A genética também, mas muito pouco.

 

Talita: Fala-se muito sobre gordura saturada e gordura trans. Ambas contribuem para a obesidade?

Ellen: Com certeza, ambas contribuem para a obesidade. A pior seria a gordura trans, que é uma gordura transformada pela indústria. É uma gordura que nosso corpo não reconhece de forma alguma. A gordura saturada é tão ruim quanto, mas a trans é ainda pior para o corpo quando comparada a gordura saturada. A gordura saturada está presente em alimentos de origem animal, em proteínas, carnes, leite. A gordura trans é muito utilizada pela indústria para confecção de alimentos, como o biscoito, a crocância do biscoito, o sabor bom do sorvete e chocolate... Isso é trans. É uma gordura transformada, por isso o nome. Então, é utilizada pela indústria para deixar o alimento mais saboroso.

 

Talita: Existem só estes dois tipos de gordura?

Ellen: Existem gorduras boas. Gordura trans é ruim pra gente, a saturada passa a ser ruim quando consumida demasiadamente, de forma errada. Fora isso existem outros tipos de gordura sim. As boas são as gorduras insaturadas: as monoinsaturadas presentes no azeite, amendoim, castanhas. Temos a gordura ômega 3, ômega-6, ômega-9. Todas essas gorduras são boas e estão presentes mais nos alimentos de origem vegetal, como as castanhas e o abacate.

 

Talita: Uma pessoa acima do peso tem maiores chances de adquirir certas doenças. Quais?

Ellen: Além da obesidade, doença cardiovascular (do coração), diabetes, câncer. Estas são as piores e são doenças conhecidas como inflamatórias. A obesidade é uma doença inflamatória.

 

Talita: A obesidade diminui a fertilidade?

Ellen: Diminui, tanto no homem quanto na mulher. A gordura em excesso mexe com a libido e, diminuindo a libido, a pessoa já diminui seu apetite sexual e isso já desencadeia todo um processo de redução.

 

Talita: Quais são os tipos de obesidade?

Ellen: Existe a obesidade Ginóide, que afeta a mulher e é coxo-femoral (maiores níveis de gordura na região do quadril e coxas), e a Andróide, que afeta o homem, deixando o abdômen mais protuso. Existe a obesidade mórbida, que avaliamos por meio do índice de massa corporal. De 25 até 30, o indivíduo é classificado com sobrepeso, acima de 30 é considerado obeso e a partir de 40 é considerado obeso mórbido, e aí, inúmeras doenças são desencadeadas.

 

Talita: Como reverter a obesidade?

Ellen: Não acho que seja simples, pois se fosse uma fórmula simples não existiriam obesos. Já teríamos erradicado a obesidade no mundo. Uma das principais doenças no mundo, doença de saúde pública, primária, é a obesidade. Então não é simples. Mas deve haver uma mudança do estilo de vida. São pessoas que precisam ter uma força de vontade absurda, e na verdade, às vezes nós temos essa força de vontade quando estamos com “um pé na cova e outro na sepultura”, aí o indivíduo muda. Mas não tem como... É preciso mudar o estilo de vida, mudar a alimentação, realizar o exercício físico, ou mesmo a atividade física, trocando-se, por exemplo, o elevador pela escada. É extremamente importante esta modificação, porque se não for assim, não muda... O indivíduo sozinho, só com remédio, nunca será magro. Na obesidade, deve haver uma associação de profissionais, que devem trabalhar com a pessoa e dela deve partir a vontade, que é o princípio inicial: a vontade da mudança.

 

Talita: Cirurgias como lipoaspiração e redução de estômago são uma boa opção?

Ellen: Não! Eu, como nutricionista, classifico essa opção como muito ruim. Na lipoaspiração, na maioria dos casos, pelo que se vê em índices e pesquisas, as pessoas fazem a cirurgia e, em menos de 12 meses, elas recuperam o peso e quando conseguem mantê-lo é por um período máximo de 3 anos. Então a pessoa não mudou o hábito, ela fez a cirurgia, perdeu a gordura pontualmente e volta a engordar, pois volta a comer o que estava acostumada. A cirurgia do estômago é uma cirurgia muito drástica, o indivíduo come “x” e passa a comer “menos, menos, menos x” e quando o indivíduo não é acompanhado como realmente deve ser, com suplementação, com todo o cuidado psicológico, isso gera depressão, gera desnutrição, gera outras doenças. No entanto, muitas vezes, a cirurgia é necessária porque tem obesos que, se não se submeterem a uma cirurgia, vão morrer num curto espaço de tempo. Nesses casos, há uma necessidade real. Agora, eu ouço comentários de pessoas que engordam para se submeter a essa cirurgia, fato que pra mim é resultante de desconhecimento.

 

Talita: Quais as restrições, para um obeso, quanto ao exercício físico?

Ellen: São inúmeras. O peso é uma delas, a pessoa não vai suportar fazer exercícios. Muitas vezes, nós não temos aparelhos prontos pra receber este cliente. Assim, inicialmente, deve ser feito todo um trabalho de resistência. Você carregar 50kg é uma coisa. Você carregar 150kg é como subir uma escada com 100kg nas costas. Isto vai requerer demais do seu coração e, muitas vezes uma intensidade que ele não vai suportar. Penso que as restrições iniciais são: necessidade de perda de peso, para que o exercício fique pelo menos mais confortável; questão de entorse; questão muscular; e questão óssea. É preciso preparar o indivíduo para que ele consiga realizar o movimento. Você tem que ensiná-lo o movimento, pois ele não tem amplitude de movimento, tem dificuldade para realizá-lo. Falando de grandes obesos, sugiro que os primeiros exercícios sejam na água para que seja reaprendido o fazer exercício. Nos obesos menores, a facilidade é um pouco maior, mas ele precisa, geralmente, vencer a dificuldade de se entrosar com pessoas, a vergonha de estar num lugar onde há pessoas magras e bonitas... É outra história. Mas no início do exercício esse indivíduo precisa trabalhar a resistência física.

 

Talita: Agradecemos a entrevista, Professora!

 

A obesidade e as instituições sociais e culturais

 

A Organização Mundial de Saúde esclarece que o sobrepeso e a obesidade, bem como suas doenças não-transmissíveis relacionadas, são em grande medida evitáveis.

 

Ambientes e comunidades de apoio são fundamentais para prevenir a obesidade e auxiliar as pessoas frente às escolhas por alimentos mais saudáveis, bem como por uma atividade física regular. No nível individual, as pessoas podem limitar a ingestão energética do total de gorduras; aumentar o consumo de frutas e produtos hortícolas, leguminosas e grãos inteiros; limitar a ingestão de açúcares; praticar atividade física regular; alcançar equilíbrio energético e um peso saudável. (ORGANIZAÇÃO, 2012)

 

Todavia, a responsabilidade individual só poderá ter pleno efeito se as pessoas têm acesso a um estilo de vida saudável, que só é possível por meio de um compromisso político sustentado e a colaboração de instituições públicas e privadas para que os indivíduos mais pobres possam se alimentar e praticar atividade física regularmente. Também, segundo a OMS, a indústria de alimentos pode desempenhar um papel significativo na promoção de regimes alimentares saudáveis reduzindo a gordura, o açúcar e o teor de sal dos alimentos transformados, assegurando que as escolhas alimentares saudáveis e nutritivas estejam disponíveis e acessíveis a todos os consumidores; praticando comercialização responsável; assegurando a disponibilidade de escolhas alimentares saudáveis e apoiando práticas de atividade física regular no local de trabalho. (ORGANIZAÇÃO, 2012)

 

Kuross e Folta (2010) destacam que instituições culturais que ofereçam um ambiente para envolver toda família e que representam uma voz confiável na comunidade têm um papel a desempenhar como um parceiro nesse sistema de apoio.

 

Assumindo essa tese como verdadeira, por exemplo, o Museu das Crianças de Boston (Estados Unidos) desenvolveu, com outras autoridades locais, um projeto inovador para integrar à programação do museu estilos saudáveis de vida com foco em grupos de origem urbana, minorias e populações de baixa renda. Esse projeto teve dois objetivos: reforçar o papel dos museus para crianças em desenvolver formas divertidas e eficazes para se aprender sobre saúde; e a criação de ligações entre o museu e a audiência que é afetada pelas disparidades de saúde e normalmente mal servidas pelas instituições culturais. Por meio dessa experiência, concluiu-se que o museu pode ser utilizado para tratar questões de nutrição e de atividade física, já que quase todas as crianças e adultos envolvidos no projeto relataram ter alegria e receber informações úteis sobre o assunto, não havendo relatos de aversão às atividades. (KUROSS, FOLTA, 2010)

 

Conclusão

 

Pelo exposto, entende-se que as instituições culturais e sociais podem e devem aproveitar seu potencial informativo incluindo em seus programas e programações temáticas e propostas que contemplem a discussão da obesidade e do sobrepeso. Saber mais sobre a temática obesidade é também uma necessidade e uma oportunidade para que os profissionais da informação, da comunicação e da saúde possam criar estratégias e processos informacionais compatíveis a cada contexto cultural e para que sejam parceiros na prevenção e no controle dessa epidemia.

 

Referências

 

BAHIA, L. et al. The costs of overweight and obesity-related diseases in the Brazilian public health system: cross-sectional study. BMC Public Health, v.30, n.12, p.2-7, 2012.

 

KANTER, R.; CABALLERO, B. Global gender disparities in obesity : a review. Advances in Nutrition: an International Review Journal, v. 3, p.491–498, 2012.

 

KUROSS, E.; FOLTA, S. Involving cultural institutions in the prevention of childhood obesity: the Boston Children’s Museum's GoKids Project. Journal of Nutrition Education and Behavior, v. 42, n. 6, p. 427–429, 2010.

 

ORGANIZAÇÃO Mundial de Saúde. Obesity and overweight. Genbra: OMS, 2012. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/index.html. Acesso em: 31 de janeiro de 2013.

 

WANDERLEY, E. N.; FERREIRA, V. A. Obesidade: uma perspectiva plural. Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, n. 1, p. 185-194, 2010.

 

Como citar este texto

Galvao, M.C.B. et al. Informação sobre obesidade: uma temática para as instituições sociais e culturais. 14 de fevereiro de 2013. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2013. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=730 


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.