INFORMAÇÃO E SAÚDE


INFORMAÇÃO EM SAÚDE NA WEB: O CASO DOS CRUDIVORISTAS

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Antonio Cid Garbin Junior

 

Introdução

 

Vamos supor que adentre fisicamente ou virtualmente em sua unidade de informação, um usuário desconhecido por você que demande informação sobre crudivorismo. Como excelente profissional da informação, você começa a buscar fontes que contenham essa informação, mas não encontra livros ou artigos sobre o assunto. Acessa a base de dados x ou y, por exemplo, e a única mensagem que recebe é “Não foram encontrados documentos para sua consulta”.

 

Você entrevista novamente o usuário e solicita a ele outros sinônimos que possam representar o assunto de interesse, bem como alguns conceitos que possam elucidar o termo crudivorismo. O usuário lhe detalha a temática e você estabelece novas estratégias de busca a serem usadas nas principais fontes de informação que aprendeu na faculdade. Todavia, busca vai, busca vem: nada encontrado! De forma mais intuitiva, você acessa um buscador da Internet e verifica que há alguns milhares de sítios e blogs sobre o assunto.

 

Questão: o que você faz? a) Diz ao usuário que não há informações confiáveis sobre o assunto; b) Passa ao usuário alguns endereços dos sítios e blogs encontrados e considera o seu trabalho finalizado; c) Analisa sítios ou blogs, verificando quais possuem informações confiáveis e, então, repassa endereços confiáveis para o usuário; d) Pede auxílio aos demais colegas para resolver o caso; e) Envia o usuário para outra unidade de informação; f) Nenhuma das alternativas anteriores.

 

Quando não são encontratadas informações em fontes convencionais ou de caráter mais fidedigno, é natural que os dilemas existenciais do profissional da informação surjam. Esta situação é mais complexa no âmbito da saúde, pois uma informação correta pode salvar vidas, já a informação errada, inadequada ou incompleta pode causar danos e até mesmo a morte.

 

Este texto tem por objetivo apresentar alguns critérios que podem ser utilizados no processo de avaliação da informação em saúde, disponível na Web, destinada às populações, sejam minoritárias, vulneráveis e/ou leigas, tendo como exemplo o caso dos crudivoristas, população minoritária em decorrência de seus hábitos alimentares.

 

Participou da produção do presente texto, Antonio Cid Garbin Junior, crudivorista, permacultor, profissional da informação egresso do Curso de Ciências da Informação e da Documentação da Universidade de São Paulo e funcionário na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

O pensar crudivorista e seus conflitos com o mundo científico

 

Crudivorismo é um tipo de dieta vegetariana restrita, na qual o indivíduo não consome alimentos de origem animal e todos os alimentos ingeridos não são cozidos. Trata-se de uma dieta baseada no consumo exclusivo de frutas, castanhas, folhas, algas, cogumelos, grãos germinados, brotos, sal marinho e mel: orgânicos e naturais. Isto não significa que se comam apenas alimentos crus. Há processos de preparação que não causam perda de nutrientes, como a desidratação dos alimentos. Produtos desse processo de preparação são as frutas secas e o pão essênio, um pão de trigo germinado desidratado ao sol. (GONZALES, 2010)

 

Os preceitos deste modo de vida afirmam que, como o homem é um organismo vivo, deve igualmente consumir alimentos vivos, que proporcionem uma simbiose energética entre ambos. A premissa é que o corpo humano está mais adaptado a consumir os alimentos como a natureza os fornece, assim como os animais e como era antes da existência do fogo. A ingestão do alimento ainda cru proporcionaria o aproveitamento integral de seus nutrientes, geralmente desperdiçados durante o cozimento. Por fim, defendem que o alimento in natura ou aquecido até aproximadamente 42ºC é de mais fácil digestão e absorção pelo organismo (SALGADO, 2009).

 

A prática crudivorista não utiliza alimentos tratados com inseticidas, pesticidas, fungicidas, herbicidas, formicidas, e fertilizantes sintéticos. Assim, muitos crudivoristas cultivam seus alimentos em casa. Logo, este tipo de dieta exige um estilo de vida diferenciado, com foco no ambiente em que se vive e na natureza como um todo.

 

Na concepção de Cid Garbin, crudivorista, cientistas e universidades não possuem interesse em pesquisar a alimentação viva, pois estão comprometidos com grandes corporações capitalistas produtoras de alimentos, ou de medicamentos ou de agrotóxicos. Por este motivo, é relativamente difícil encontrar informações científicas sobre essa prática alimentar.

 

Fontes de informação sobre crudivorismo e os critérios para análise de seus conteúdos

 

Se de um lado é difícil encontrar informações com base científica sobre crudivorismo, o que não faltam na Web são sítios e blogs sobre o assunto. Em busca realizada em 27 de março de 2013, via a ferramenta de busca Google, foram localizados cerca de aproximadamente 68.700 resultados em 0,19 segundos. Obviamente, esse número poderia ser maior, se fossem elaboradas novas estratégias de busca empregando os termos: alimentação viva; alimentação crua; alimentação crudívora; alimento vivo; alimento cru; comida viva; comida crua; ou crudismo.

 

Entre os resultados que podem ser encontrados no Google estão os sítios: Centro vegetariano (http://www.centrovegetariano.org); Comida ecológica (http://www.comidaecologica.com.br); Cozinha viva (http://www.cozinhaviva.com); Crudivorismo, a ciência dos alimentos vivos (http://www.crudivorismo.com.br); Doce limão (http://www.docelimao.com.br); Dr. Alberto Peribanez Gonzalez (http://www.doutoralberto.com); Terrapia, alimentação viva na promoção da saúde e ambiente (http://www4.ensp.fiocruz.br/terrapia).

 

Diante desses resultados, uma questão subsequente que vem à mente do profissional da informação é: como avaliar a qualidade desses sítios para saber se possuem informações confiáveis e se seu conteúdo informacional é seguro, sem possibilidade de causar danos para o indivíduo?

 

Como saída possível, a Health on The Net Foundation criou o HONcode, que em português seria Princípios da Fundação Saúde na Rede, que traz critérios mínimos para avaliar informação em saúde disponíveis na Web. O HONcode foi projetado como um código ético com foco em três públicos-alvo: público em geral, os profissionais de saúde e editores em saúde que atuam na Web. A Health on The Net Foundation emprega o HONcode para certificar, na atualidade, cerca de 7300 sítios, 10 milhões de páginas, em 102 países, incluindo o Brasil. O sítio certificado recebe um selo de acreditação.

 

A seguir, estão os princípios do HONcode, com algumas adaptações para o contexto brasileiro.

 

Autoridade. Toda orientação médica ou de saúde contida no sítio será dada somente por profissionais treinados e qualificados, a menos que seja declarado expressamente que uma determinada orientação está sendo dada por um indivíduo ou organização não qualificado na área de saúde (HEALTH, 2013). Em decorrência disso, se o sítio é sobre nutrição, caberia ter um nutricionista como responsável; se é sobre educação física, caberia ter um educador físico formado; se é sobre alguma enfermidade, caberia ter um profissional da medicina ou da enfermagem como responsável; e assim sucessivamente.

 

Complementaridade. É preciso estar esclarecido na fonte de informação que informação ali disponível foi concebida para apoiar, e não para substituir o relacionamento existente entre pacientes e profissionais da saúde (HEALTH, 2013). Logo, o sítio, por exemplo, pode ter frases do tipo: não deixe de procurar um profissional da saúde ou um profissional da saúde poderá lhe esclarecer quais destes aspectos são pertinentes ao seu caso ou em caso de dúvida, entre em contato com seu médico.

 

Confidencialidade. Existem muitas maneiras de identificar a origem dos acessos realizados em sítios na Web. Muitos sítios também solicitam cadastro como condição para realização do acesso à informação. Dessa forma, a fonte de informação precisa garantir e respeitar o caráter confidencial dos dados dos visitantes de sítios sobre saúde, preservando a identidade pessoal daquele que acessa a informação. Logo, os responsáveis pelo sítio devem apresentar no próprio sítio um compromisso explícito que honrarão os requisitos legais mínimos de privacidade de informação em saúde vigentes no país e no Estado onde estão localizados o sítio e as cópias do sítio (HEALTH, 2013).

 

Atribuições. A informação contida no sítio será respaldada por referências claras às fontes consultadas e, quando possível, apresentará links HTML para tais referências. A data em que cada página contendo informação em saúde foi atualizada pela última vez será exibida claramente (no topo da página ou no final da página, por exemplo) (HEALTH, 2013). É importante lembrar que os conhecimentos em saúde evoluem diariamente. Dessa maneira, uma informação de dois ou três anos atrás pode já não ter validade alguma.

 

Justificativas. Nos sítios, quaisquer afirmações feitas sobre os benefícios e/ou desempenho de um tratamento, produto comercial ou serviço relacionado à saúde serão respaldadas com comprovação adequada e equilibrada (HEALTH, 2013). Ou seja, não é suficiente dizer que tal procedimento é adequado para uma determinada enfermidade. É preciso esclarecer, por exemplo, quais estudos fundamentam tal afirmação, ressaltando-se novamente a importância da existência de referências bibliográficas.

 

Transparência. Os sítios como foco na saúde apresentarão a informação da forma mais clara possível, bem como disponibilizarão endereços de contato para os visitantes que desejem informação ou ajuda adicional. O webmaster exibirá seu endereço de e-mail claramente em todas as páginas do sítio (HEALTH, 2013). Esse critério é importante também para fins jurídicos, pois se uma informação causar algum dano ao indivíduo, ele tem como localizar o responsável pela informação.

 

Transparência do patrocínio. Os apoios dados ao sítio serão identificados claramente, incluindo a identidade das organizações comerciais e não-comerciais que tenham contribuído para o sítio com ajuda financeira, material ou de outra natureza (HEALTH, 2013). Acrescenta-se que muitos estudos são realizados e muitas informações são produzidas com o apoio de vários tipos de indústrias, como a farmacêutica. Logo, pode haver um potencial conflito de interesse por trás da informação que está sendo disponibilizada pelo sítio, com prejuízo ou risco para o bem estar daqueles que estão acessando a informação.

 

Honestidade da publicidade e da política editorial. Se a publicidade é uma das fontes de renda do sítio, isto deverá ser explicitado para quem acessa o sítio. Para tanto, os proprietários do sítio fornecerão uma breve descrição da política de divulgação adotada. Já os anúncios e outros materiais promocionais serão apresentados aos visitantes de uma maneira e em um contexto que facilitem diferenciá-los do conteúdo informacional produzido pelos responsáveis pelo sítio (HEALTH, 2013). Ou seja, o sítio não deve apresentar anúncios ou propagandas no meio da informação.

 

Partindo dos critérios desenvolvidos pela Health on The Net Foundation, desdobrou-se uma lista de perguntas que podem ser realizadas às fontes de informação disponíveis na Web, antes de serem recomendadas por um profissional da informação à população. Faz-se notar que por meio dessas questões muitos integrantes da população poderão de forma mais autônoma analisarem se as fontes de informação que acessam são relativamente confiáveis. São elas:

 

A fonte de informação apresenta o nome, preferencialmente completo, do autor responsável?

 

A fonte de informação apresenta autor qualificado na área de saúde ou na temática que está sendo apresentada?

 

A fonte de informação apresenta o número do registro do autor do conteúdo informacional no conselho profissional?

 

Quando possui mais que um autor, a fonte de informação apresenta a atividade desenvolvida por cada um deles?

 

A fonte de informação esclarece que a informação disponibilizada não substitui o relacionamento com os profissionais da saúde?

 

A fonte de informação esclarece que os dados daqueles que visitam ou acessam a fonte serão preservados em sigilo?

 

A fonte de informação apresenta em cada página a data em que foi atualizada pela última vez?

 

A fonte de informação apresenta as referências que a subsidiam?

 

A fonte de informação apresenta referências que comprovem o benefício e/ou desempenho de um tratamento, produto comercial ou serviço específico que é por ela recomendado?

 

A fonte de informação apresenta de forma clara endereços, telefones e e-mails para contato, caso seus leitores desejem informação ou ajuda adicional?

 

A fonte de informação apresenta pelo menos uma forma de contato (por exemplo, e-mail) em cada uma de suas páginas?

 

Os apoios recebidos pela fonte de informação estão claramente identificados?

 

A publicidade existente na fonte de informação eletrônica está acompanhada de uma breve descrição da política de divulgação adotada?

 

Os anúncios e outros materiais promocionais estão apresentados aos leitores de uma maneira e em um contexto que facilitem diferenciá-los do conteúdo informacional?

 

Se a fonte de informação em saúde não responde às questões anteriores de forma clara, sugere-se que não seja recomendada pelo profissional da informação à população. No caso específico dos sítios sobre crudivorismo anteriormente elencados, observou-se que são falhos na apresentação de conteúdos informacionais, sendo o mais confiável, considerando a aplicação dos critérios citados, o Terrapia.

 

Conclusão

 

O presente texto apresentou a problemática de se atender um usuário quando este busca um conteúdo informacional em saúde que não está presente em bases de dados convencionais e científicas. No caso apresentado, o usuário pertence a uma parcela minoritária da população com hábitos alimentares diferenciados da maioria. Além disso, tais hábitos e seus supostos benefícios, de forma geral, não são sustentados por uma literatura ou evidências científicas.

 

Em decorrência dessa situação, apresentaram-se alguns critérios que podem ser adotados para avaliar informação em saúde disponibilizada na Web. A adoção desses critérios se justifica na medida em que o risco de um indivíduo encontrar informação inadequada na Web está relacionado, de um lado, com a proporção de informação inadequada disponibilizada e, de outro, com as limitações do próprio indivíduo (ou das ferramentas tecnológicas e informacionais que possui) para filtrar informação inadequada. Ao nível individual, esse risco de acesso à informação inadequada pode ser reduzido melhorando a capacidade dos indivíduos para localizar sítios de confiança ou para usar metodologias que filtrem resultados inadequados. (EYSENBACH, 2011)

 

Na concepção de Eysenbach (2008), o profissional da informação que atua no contexto da saúde assumirá com a WEB 2.0 a função de apomediação, atividade que consistirá em orientar o usuário com instrumentos e parâmetros a fim que ele, de forma autônoma, busque, analise e selecione a informação que convier.

 

Para tanto, temos ainda um longo caminho de aprendizagem para profissionais da informação em saúde, para provedores de informação em saúde que tenham na população seu público-alvo, e para a população que precisa ser sensibilizada para estas questões e educada para um comportamento informacional mais pró-ativo. Como um primeiro passo nessa direção, priorizamos neste texto uma abordagem na qual o profissional da informação ainda atua auxiliando diretamente o usuário, seja em espaços físicos ou virtuais.

 

Voltando à questão da introdução, após a leitura deste texto, você pode considerar a alternativa C (Analisa sítios ou blogs, verificando quais possuem informações confiáveis e, então, repassa endereços confiáveis para o usuário) como a melhor entre as apresentadas. Uma outra alternativa possível, não mencionada, é explicar ao usuário quais critérios devem ser considerados para avaliar informação em saúde disponível na Web. No entanto, será necessário observar as competências informacionais do usuário, verificando se ele tem condições de buscar e selecionar informação de forma autônoma.

 

Informações em saúde sustentadas cientificamente dão segurança para que o profissional da informação procure conteúdos informacionais adequados ao público-alvo. Quando o profissional da informação dispõe apenas de informações que foram construídas a partir do senso comum ou de uma cultura local, ele precisa alertar os indivíduos de forma mais incisiva de que tais informações não dispensam o contato com um profissional da saúde.

 

Referências

 

EYSENBACH, G. et al. Empirical studies assessing the quality of health information for consumers on the world wide web: a systematic review. Journal of the American Medical Association, v. 287, n. 20, p. 2691-700, 2011.

 

EYSENBACH, G. Medicine 2.0: social networking, collaboration, participation, apomediation, and openness. Journal of Medical Internet Research, v. 10, n. 3, p. e22, jan. 2008.

 

GONZALEZ, Alberto Peribanez. Lugar de médico e na cozinha: cura e saúde pela alimentação viva. 12. ed. São Paulo: Alaúde, 2010. 296 p.

 

HEALTH on The Net Foundation. Princípios. Suíça, HON: 2010. Disponível em: <http://www.hon.ch/HONcode/Patients/Portuguese>. Acesso em: 27 de março de 2013.

 

SALGADO, Jocelem Mastrodi. Alimentos crus x cozidos. In: e-campo. Disponível em: <http://www.e-campo.com.br/Conteudo/Noticias/visNoticias.aspx?ch_top=812>. Acesso em: 27 de março de 2013.

 

Como citar este texto

 

GALVAO, M.C.B., GARBIN JUNIOR, A.C. Informação em saúde na Web: o caso dos crudivoristas. 4 de abril de 2013. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2013. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=740


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.