BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

BIBLIOTECA ESCOLAR E A SALA DE LEITURA: QUAL O PAPEL DE CADA UMA?

Este é um tema recorrente, infelizmente, com o qual teremos que batalhar muito, pois tem muita lenha para queimar ou então só vamos ficar sentindo o cheiro do queimado e pegar as brasas que caírem...

 

Apesar de ser uma seara alheia, na qual não tenho muito familiaridade e não me sinto muito ambientada, se faz necessário tentar esclarecer que existe uma enorme diferença entre BIBLIOTECA e SALA DE LEITURA.

 

Isto porque muitas pessoas, às quais eu agradeço, antes de tudo, por fazerem contato, solicitar ajuda ou sugestões para seu trabalho, ou ainda apenas para se solidarizar com o que penso e escrevo, me questionam sobre o que podem e devem fazer na chamada Sala de Leitura. Ora porque foram readaptadas, ora porque foram transferidas ou por outros motivos e não têm muita noção do que fazer.

 

Pois bem, recordarei um artigo que eu mesma escrevi, em abril de 2009, nesse espaço, no qual menciono algumas particularidades entre esses dois locais de trabalho e também cito casos sobre distribuição de livros para as chamadas Salas de Leitura, assim como algo sobre os vários projetos que o governo lançou e lança mão para tentar fazer com que a população tenha mais e maior acesso à leitura. Como se isso fosse somente uma questão de distribuição de livros, ou como alguns preferem chamar, distribuição de acervos. É quase a mesma coisa se analisarmos que os jovens não engravidarão (tanto) mantendo relações sexuais seguras, durante as campanhas de distribuição de preservativo, realizadas pelo poder público.

 

Óbvio e ninguém é contra isso, que essa é uma boa medida, mas é apenas uma, paliativa, que se não for seguida e continuada com uma boa educação, se torna inócua, contraproducente, cara e ineficaz, nos dois casos: leitura e gravidez.

 

Partindo do princípio, devemos citar que bibliotecas existem desde a criação do mundo. A primeira biblioteca do mundo foi erguida em Nínive, a cidade mais importante da Assíria (atual Iraque), pelo rei Assurbanípal II, por volta do século 7 a.C. Nela foram armazenadas milhares de tabuletas escritas com caracteres cuneiformes, a mais antiga forma de escrita que se tem notícia. (Fonte: Blog Biblioteconomia e Ciência da Informação: blogdainformacao-patybiblio.blogspot.com)

 

Então sabemos que a biblioteca foi criada, principalmente, para preservação da história da humanidade, por conseguinte, salvaguardar também todo e qualquer tipo de informação, arquivo e registros históricos, científicos; e tem sido desse modo, ao longo dos anos, até hoje. E isso ocorre em qualquer tipo de biblioteca: pública, escolar, especializada, etc., pois o princípio é o mesmo, ou seja, o desejo e a necessidade de preservação da memória histórica se faz presente em qualquer local. O que vai diferir umas das outras são os serviços prestados e o acervo diversificado.

 

Já as salas de leitura foram criadas por meio de ”um programa chamado Sala de Leitura, em 2009, para oferecer aos alunos do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos - EJA, um ambiente com rico acervo de livros e periódicos.

A presença de Salas de Leitura nas instituições de ensino visa estimular a prática da leitura e o desenvolvimento de atividades, construídas especialmente para atender o perfil e os interesses de cada escola.

As salas, arejadas e equipadas com mesas e cadeiras, abrigam o acervo da sala de leitura, coordenada por professores e aberta durante a semana nos três períodos de aulas.” (Extraído do site da Secretária de Estado da Educação - SP)

 

Lá em abril de 2009, quando escrevi o artigo eu já conhecia alguma coisa do serviço público, porém hoje, trabalhando numa Escola Pública, tenho ficado um pouco mais por dentro dos meandros e melindres existentes nesse setor, ousando, portanto, afirmar que não é bem assim como o site apresenta. O site mostra também a relação das escolas que foram contempladas com esse programa. A escola onde estou foi uma delas, porém, o único item que caracteriza a sala de leitura, nos moldes referenciados, é a presença de um professor, este readaptado, que após três meses de tentativas, conseguiu reunir e montar quatro grupos de alunos, que vão à BIBLIOTECA para trabalho com a professora. Orientação esta que vem da Delegacia de Ensino à qual a escola pertence.

 

Tive a oportunidade de conhecer o Projeto elaborado pela professora que atende os grupos de alunos, com dificuldade na escrita e leitura e é, de fato, muito bom, porém ela só pode atendê-los, atualmente, porque a Escola, por meio de uma parceira privada, criou e mantém uma BIBLIOTECA, com espaço, acervo e ambiente adequados para tal. A Escola não recebeu nada além das dicas de como fazer essa mediação de leitura. Então eu pergunto: e as demais escolas, que não possuem biblioteca formada, foram contempladas com salas arejadas, acervo e tudo o mais necessário para o desenvolvimento pedagógico dos alunos com dificuldades de aprendizagem?

 

Antes de 2009, já era antiga a luta do CRB 8a. região para com os governos estaduais nessa questão da obrigatoriedade legal de ter um profissional bibliotecário, devidamente formado, nas bibliotecas escolares. São também velhos e conhecidos os motivos que levaram o Governo a criar tal programa - a descaracterização do espaço, isto é, ao batizá-lo de Sala de Leitura, deixa desconfigurada a presença do bibliotecário e ao mesmo tempo dá espaço para o professor readaptado, sem provocar qualquer tipo de problema com a legislação.

 

Como disse anteriormente não “meterei, muito, minha colher nessa cumbuca”, pois é bastante delicado. O que eu pretendo, porém, é mostrar que, infelizmente, pouca coisa ou nada mudou desde a criação das chamadas Salas de Leitura, e isso sem mencionar que alguns meses após a criação desse programa, o Governo Federal sanciona a Lei 12.244, em 25/05/2010, universalizando a biblioteca escolar no país.

 

Essa lei, apenas para informar a quem não conhece e recordar aos que já esqueceram, obriga todas as instituições públicas e privadas de ensino do país a ter uma biblioteca. Determina também que toda escola deve ter um acervo de livros nas bibliotecas, de pelo menos um título por aluno matriculado e que cabe à instituição adaptar o acervo conforme as necessidades, promovendo a divulgação, preservação e o funcionamento dessas bibliotecas escolares.

 

As escolas terão até dez anos (agora já são 7) para instalar os espaços destinados aos livros, material videográfico, documentos para consulta, pesquisa e leitura.

 

Outra pergunta que deixo no ar: quantas e quais escolas já estão prontas ou estão sendo preparadas para tal ação?

 

Mais uma questão: como pode o Governo do Estado de SP, diante dessa Lei Federal, ainda planejar, aumentar e manter as Salas de Leitura? E falo de SP, pois desconheço, infelizmente, se em outros Estados ocorre o mesmo fato.

 

As colocações aqui apresentadas, não possuem o caráter de reclamação, nem de polêmica, nem de achar que tudo só dá errado; pelo contrário, tem como propósito mostrar fatos e alertar a todos que trabalham com educação e informação daquilo que ainda está por ser feito e ajudarmos a pensar em como deve ser feito. Há muito desperdício de energia, tempo, dinheiro público e mão de obra.

 

Queria apenas ilustrar, um pouco, as minhas respostas a quem me escreve pedindo auxílio em seu trabalho. Caso se encontre em Sala de Leitura, é necessário se informar pelo programa já estabelecido, inclusive com encontros periódicos de orientação e estudo. Aliás, quero registrar que, embora não conheça pessoalmente, sei de uma escola estadual, em Santo Antonio do Pinhal, cuja Sala de Leitura está funcionando muito bem, com uma professora coordenadora e com os equipamentos necessários. Conheço a professora e ela disse que está bastante contente com os resultados obtidos até então. Ressalto que nesse caso, ela foi designada, exclusivamente, para essa atividade e não readaptada. Isso faz muita diferença.

 

Os projetos da Sala de Leitura são bastante pontuais, ou seja, mais voltados para atividades que envolvam a escrita e leitura, assim como existem várias maneiras, formatos e meios para se chegar a um bom resultado com os alunos. Mas é a Biblioteca Escolar que, sendo organizada dentro dos moldes adequados, tendo um profissional devidamente qualificado para sua administração e havendo a parceria com o professor, requisito básico pregado pela UNESCO para as Bibliotecas Escolares, se torna o centro vital de formação, informação e aprendizagem.

 

É na Biblioteca Escolar também que o professor pode e deve procurar adquirir e ampliar seus conhecimentos; deve se apropriar do acervo geral para diversificar seu trabalho em sala de aula, deve ter a consciência de que as atividades não devem ficar circunscritas somente à leitura, e sim, criar outras formas de aprendizado.

 

Gostaria de lembrar ainda, que a BIBLIOTECA e nem a SALA DE LEITURA, são sinônimos de DEPÓSITO DE LIVROS, algumas vezes velhos e desatualizados. Eu já tive a oportunidade de conhecer escolas com esse quadro.

 

Percebo que muitos dos leitores que me escrevem se sentem aflitos e ansiosos para desenvolver um trabalho adequado e com qualidade, porém nem sempre consigo entender as colocações apresentadas. Creio que a falta de conhecimento real do que seja e o que se faz numa biblioteca causa essas dúvidas e gera toda essa ansiedade.

 

Num livro lido há um tempo - A escola tem futuro? seu autor, Rui Canário preconiza que a criança aprende com trabalho; que a aprendizagem tem um percurso individual, ou seja, cada um tem seu tempo e seu jeito; que a escola deve ser um local de hospitalidade, deve promover a aceitação de todo e qualquer aluno que venha se matricular. E para que a Escola possa mudar, é necessário que o educador “desaprenda” e se abra para uma nova forma de aprendizagem. Ele precisa recomeçar do zero para que novas informações e novas formas de aprender sejam feitas.

 

Conclamo a todos para que façamos também uma reflexão com intuito de nos abrirmos para essas mudanças, tão prementes nos dias atuais; para que possamos, não só adquirir novos conhecimentos, mas também para que ideias novas possam surgir e nos auxiliar. Deixemos de lado os costumes, os achismos, a vergonha, a intolerância, os ...e se não der certo... e partamos para novas aventuras, novas propostas, novos rumos.

 

“Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum.” Monteiro Lobato


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?