BIBLIOTECA ESCOLAR - NOVA FASE


  • Discussões, debates e reflexões sobre aspectos gerais e específicos da Biblioteca Escolar. Continuação da coluna anterior, agora apenas com autoria de Marilucia Bernardi

LIVRO OU TABLET? EIS A QUESTÃO!

Pois é, cá estamos nós todos às voltas com mais este dilema, não é mesmo?

 

Em conversa com uma professora de língua portuguesa, da rede estadual de ensino, ela me diz assim: “se já está bastante difícil fazer com que meus alunos leiam, o que farei agora se vão ganhar tablets do governo?”

 

Fechar os olhos, negar, fingir que não é tanto assim, não querer aprender a lidar com toda a parafernália tecnológica que nos é apresentada diariamente, não é mais possível e tampouco viável. Há tempos ela está entre nós, vai ficar e pode modificar ainda mais a situação vigente. Ponto!

 

E o que fazer então para minimizar os danos causados, ou diria até, a inversão de valores que está havendo com o uso desregrado da tecnologia, no que diz respeito aos celulares, tablets, smarthfones, Ipads etc.? Cada vez mais ficamos cercados por tantos “aplicativos”, tantos “jogos”, tantas “interfaces”, que mal conseguimos entender uma, já aparece outra mais atual e moderna.

 

Imaginemos então como fica o cérebro da criança e jovem, que já não possuem a familiaridade com o objeto livro. É inegável, assim como necessária, a contribuição da tecnologia no aprendizado, no crescimento e desenvolvimento do indivíduo, porém é mister que haja um equilíbrio, um controle no uso dessas ferramentas, tanto na família, como ponto mais importante e primeiro, quanto na escola que deveria explorar mais o uso do livro.

 

Em minhas peregrinações pela Internet, achei uma entrevista com o sociólogo e professor da Universidade do Ceará, em 27.09.2011, versando exatamente sobre esse tema: O tablet substitue o livro? Cito a seguir algumas de suas ideias com as quais compartilho: ”... É crível que as tecnologias digitais contribuem para o processo educativo, mas não numa escala de substituir livros (pelo menos não da forma arbitrária como pregam alguns). É preciso ponderar que o livro também é uma tecnologia e, como tal, não deve ser subestimado como instrumento dinâmico de educação.

 

Na verdade, ao invés de discutirmos sobre as mudanças de suportes tecnológicos, deveríamos discutir sobre o nível de leitura, escrita e, principalmente, de incentivo à pesquisa de nosso corpo docente e discente, desde o ensino básico até o ensino superior, que parece ser tão pouco incentivada no Brasil”. (Ler a entrevista na íntegra, que foi feita ao JORNAL AO POVO).

 

A título de ilustração da situação vigente, quero contar-lhes que outro dia, conversando sobre política e futuras eleições com um professor de Educação Física, da rede municipal de ensino, um moço com idade por volta dos 27 anos e com 5 anos de formado, fiquei chocada quando ele me disse que a Prefeitura havia ganho 2 “caminhões vasculantes”. Eu lhe perguntei: Como? E ele repetiu sem problema algum, sem notar absolutamente nada, ou seja, para ele é o correto. Logo após, quase ao encerrar nosso papo, pois era chegada a hora de sua aula, me diz: ”olha aí, hoje tem bem menas gente pra aula.” Confesso que pensei muito se eu deveria lhe dar um toque, porém como não tenho intimidade com ele, deixei passar.

 

Esse fato me incomodou muito porque é o retrato de como está o ensino básico, médio e até mesmo o universitário, pois em nenhuma das etapas, ele foi corrigido, foi impelido a falar o certo. É um bom rapaz, conhece bem as técnicas de sua disciplina, porém seu nível de leitura e escrita devem ser baixíssimos. Por conseguinte, ele ensina e continuará ensinando do mesmo jeito, errado, ou até que alguém o corrija.

 

Infelizmente, o que vemos hoje é uma febre generalizada no uso da tal tecnologia, principalmente entre as crianças e os jovens, em detrimento de uma boa conversa ou leitura. Só se comunicam por meio de celulares, colocando em risco o já muito pouco que aprendem na escola, uma vez que as mensagens parecem codificadas, de tanto uso de siglas e abreviações, como a resposta dada por uma jovem, do 3°ano do E.M, quando me pediu pra que eu lesse uma mensagem que havia recebido em seu celular e eu lhe falara que estava tão cortada e com muitos erros de português que estava difícil de ler e entender, ela responde: “muitas palavras precisam ser cortadas ou abreviadas pois são compridas e se a gente não sabe de outra forma, corta mesmo. Assim fica mais rápido e fácil.”

 

Pessoalmente não sou, absolutamente, contrária ao tablet ou a qualquer outro equipamento de primeira linha, só creio que se torna mais que necessário que nas escolas, pelo menos, o livro seja apresentado às crianças, que ele tenha seu espaço e seu papel. Que os alunos possam ter acesso a todas as ferramentas de ensino possível, para seu aprendizado.

 

Recentemente assisti a uma reportagem, na televisão, que tratava exatamente dessa questão, ou seja, o uso dos celulares com aplicativos, para tudo que possa ser imaginado. O repórter entrevistou várias pessoas, entre jovens e adultos e a maioria dos jovens já criara uma dependência em relação a esses aplicativos. Uma das perguntas feita a um jovem foi: “você consegue se imaginar se não tivesse mais seu celular?” Ele responde: ”seria o fim, pois toda a minha vida está nesse celular!!!!!!!” Eu diria: que pobre vida!

 

Na mesma reportagem um psiquiatra foi entrevistado e apesar de também ser adepto de aplicativos para sua prática esportiva, portanto usar bastante seu aparelho celular, salientou muito bem a necessidade de controle nesse uso, pois uma vez que se cria dependência é porque se tornou um vício e assim como ocorre com drogas, fumo ou álcool, esse tipo de vício causa inúmeros danos. É preciso cautela, cuidado e muito critério no uso desses equipamentos.

 

A mídia, de um modo geral, tem procurado apresentar matérias sobre essa questão, mesmo porque existe uma grande preocupação quanto a educação infantojuvenil diante dessa realidade, não somente no que diz respeito ao aprendizado formal, com conteúdos adequados para sua faixa etária, mas também em relação a outras questões, tais como aos acessos que as crianças e jovens são capazes de ter, sem saber, e são pegos por pedófilos e ainda a questão que o uso exagerado, por tempo muito longo pode causar nas mãos, punhos e braços, além dos olhos.

 

Li um artigo na Internet, infelizmente não marquei a fonte, citando que daqui poucos anos poderemos ter uma “epidemia” da LER – lesão por esforço repetitivo, se é que já não está ocorrendo. Imaginem então com os tablets, uma vez que podem ficar mais próximos da vista. Poderemos então, dessa forma, nos depararmos com uma nova problemática, dessa vez, uma questão de saúde pública.

 

Como, na minha modesta opinião, o foco principal neste cenário de “high-tech” é a criança, creio que aí deveria aparecer mais a biblioteca escolar, ou pelo menos, ter um papel predominante, fundamental, que fizesse a diferença na aprendizagem dos alunos. Porém, sabemos que não é essa a realidade, muito pelo contrário. Apesar da já aprovação da Lei n.12.244, de 24/05/2010, que cria a Universalização das Bibliotecas, obrigando toda escola pública e particular a ter uma biblioteca e por conseguinte um profissional qualificado para administrá-la, ainda encontramos inúmeras escolas sem uma biblioteca decente, digna do nome. E em alguns colégios, a biblioteca fica fechada por falta de quem a coordene ou quando aberta, mesmo com professores readaptados, não tem havido aplicação de recursos para que ela possa se desenvolver.

 

Há cerca de uns 4 anos escrevi um texto, nesta mesma coluna, sobre o boom que estava em curso sobre biblioteca escolar. A mídia veiculava artigos a respeito; foram feitos encontros, congressos, debates e muita conversa girou em torno das bibliotecas escolares, logo após a criação da lei citada acima.

 

A sensação atual é que voltamos à estaca zero, ou seja, parece que o poder público desistiu de investir em bibliotecas, em pessoal, em abertura de concurso, e acha que resolve esse problema com a distribuição de tablets, simples assim.

 

Há alguns dias, os noticiários propagaram os resultados do IDEB-Índice do Desenvolvimento da Educação Básica e, uma vez mais, eles foram por “água abaixo”. É claro que esses resultados podem e deveriam ser discutíveis, pois são feitos por amostragem, nem sempre refletindo a realidade (o que poderia ainda ser pior). Porém, de qualquer maneira, quem trabalha ou conhece a situação das escolas, sejam elas públicas ou privadas, sabe muito bem como está o ensino no Brasil, em qualquer Estado.

 

Então eu pergunto: o uso do tablet deixará as aulas mais atrativas, mais gostosas, os alunos aprenderão mais, com mais conteúdos e esses serão de real interesse e serventia em suas vidas? Os professores, principalmente os da rede pública, já sabem trabalhar com esse equipamento? Se o aluno tiver seu tablet quebrado ou perdido, será reposto? Quais outras ferramentas, além do tablet serão utilizadas no processo ensino/aprendizagem? Qual o uso, então, que se fará da biblioteca escolar?

 

Ainda que possa parecer que eu esteja um pouco pessimista em relação ao desenrolar desta situação, reafirmo minha imorredoura esperança de que as bibliotecas escolares ainda terão muito fôlego para coexistir com todo e qualquer outro recurso informacional que possa aparecer, contudo, para que isso aconteça será necessário muita mudança de comportamento e total comprometimento do poder público em fazer valer as leis vigentes. Assim como também aos profissionais bibliotecários que estão à frente das bibliotecas existentes saibam exercer seu papel, procurando se reciclar, inovar, promover atitudes que atraiam alunos para o espaço de leitura e lazer.

 

Lembrando Silvia Castrillón, em O direito de ler e de escrever, 2011: “Uma biblioteca ideal deve ir além do plano mínimo de trabalho, podendo ser convertida em um ambiente de debate cuja população - de todas as classes sociais – encontre as respostas para seus questionamentos e onde lhe sejam abertos novos horizontes de pensamento e, por conseguinte, de ação. E é nesse meio que o bibliotecário deve se converter em um ser político, ético, leitor e curioso, no sentido de explorar e buscar mudanças e soluções para auxiliar os cidadãos.” Neste capítulo ela trata da biblioteca pública, mas cabe perfeitamente na escolar.

 

Inclusive, como forma de sugestão para dinamizar, tentar mudar para atrair mais alunos, desviar um pouco o foco de “telinhas”, deixo o exemplo usado, recentemente, na FLIP-Feira Literária de Paraty. Numa praça com árvores de sombra gostosa e larga, a organização preparou a Flipinha, espaço destinado às crianças, e pendurou nos galhos dessas árvores, vários livros para quem quisesse ler e embaixo dessas árvores foram colocados tapetões para deitar, ler ou ouvir histórias.

 

Considerando que o perfil do público que participa de uma FLIP é um pouco mais letrado e culto, portanto seus filhos também já têm acesso à computadores e afins, o que se viu, curiosamente, foi que a plantação de livros se tornou um verdadeiro sucesso.

 

Lembrei-me também, que anos atrás numa escola em que trabalhei, em São Paulo, fizemos uma pequena amostra dessa atividade, na biblioteca infantil. Usamos um galho grande, com várias ramificações, colocamos num vaso com areia e penduramos vários livros menores e leves, bastante coloridos. Foi realmente uma surpresa como as crianças gostaram dessa simbologia usada para a leitura.

 

Como podemos perceber é uma forma simples de chamar a atenção e creio que em qualquer escola, ainda que muito modesta exista uma árvore ou qualquer outro elemento que o valha onde possa ser “plantado” livros e chamar os alunos pra “colher” leitura.

 

Outra forma não muito usual, mas que com certeza poderá dar bons frutos, é chamar os alunos a opinarem sobre o espaço da biblioteca; que eles possam ser protagonistas no processo de mudança; que eles se sintam inseridos nesse lugar que é todo preparado para eles, mas que nem sempre são ouvidos sobre o que querem ou gostariam que lá tivesse ou pudessem fazer.

 

Eis uma oportunidade para fazer com que os jovens coloquem a cabeça para funcionar e não apenas os dedos!!!!!!!!!

 

“Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros.” ´Bill Gates


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MARILUCIA BERNARDI

Formada pela PUCCampinas. Atualmente elabora projetos para formação de Biblioteca Particular (Pessoal), oferece apoio a Bibliotecas Escolares e é aluna da Faculdade da Terceira Idade, da UNIVAP, em Campos do Jordão. Ministrou aulas de Literatura e Comunicação, por dois anos, na Faculdade da Terceira Idade. Atuou na Escola Estadual Prof. Theodoro Corrêa Cintra, em Campos do Jordão, pela ONG AMECampos do Jordão. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo; na Metal Leve; chefiou a Biblioteca da Faculdade Anhembi-Morumbi e foi encarregada da biblioteca do Colégio Santa Maria. Possui textos publicados e ministrou diversas palestras sobre Biblioteca Escolar.?