ORGANIZAÇÕES DO CONHECIMENTO


O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO (1)


O cérebro é uma fabrica com muitos produtos.
Sua matéria-prima é a informação [...]
(1)

A informação, matéria-prima fundamental para o processo de inteligência competitiva, também é a base para a construção de conhecimento nos indivíduos. Nesse sentido, inicialmente é importante informar os conceitos que trabalho sobre os termos dados, informação e conhecimento:

dados são simples observações sobre o estado do mundo, são facilmente estruturados, obtidos por máquinas, freqüentemente quantificados e facilmente transferidos; informação são dados dotados de relevância e propósito, requer unidade de análise, exige consenso em relação ao significado e necessariamente exige a mediação humana; conhecimento é a informação valiosa da mente humana, inclui reflexão, síntese e contexto, além disso é de difícil estruturação, transferência e captura em máquinas, bem como é freqüentemente tácito (2).

A informação, aqui entendida portanto, como algo que deve ser compreendida pelo indivíduo, para que de fato seja considerada informação. Os dados apenas contribuem para a construção do conhecimento, quando por algum motivo, o indivíduo armazena-os em sua memória, caso contrário os dados serão usados naquele momento e, em seguida, descartados.

O conhecimento construído pelos indivíduos, portanto, precisa necessariamente de uma estruturação e posterior gravação na estrutura cerebral. Carter afirma que

Cada fragmento é despachado para uma parte diferente de nossa vasta biblioteca interna. Mas, à noite, quando o corpo descansa, esses fragmentos são tirados para fora do armazém, remontados e reprisados. Cada repassagem as grava mais fundo na estrutura neural até chegar um momento em que as memórias e a pessoa que as guarda são efetivamente a mesma coisa.

Assim sendo, a informação necessariamente precisa ser compreendida, de modo que seja possível estabelecer relações/conexões entre o que se está absorvendo e o que existe acumulado na estrutura neural de um determinado indivíduo. Isso., funciona do ponto de vista de que aquela nova informação apreendida pelo indivíduo será relacionada a outras existentes, portanto, propiciará uma reação em cadeia, permitindo ao cérebro ações químicas que possibilitem a gravação daquela informação de forma eficiente, tornando-a parte da memória.

Carter informa que esse processo denomina-se de "potencialização de longo prazo", explica que isso ocorre porque

a cada vez que um grupo de neurônios dispara junto, a tendência de o fazer novamente é aumentada [...] Quanto mais rápido um neurônio disparar, maior a carga elétrica que atira para fora e maior a probabilidade de deflagrar seu vizinho. Uma vez que o vizinho tiver sido incitado a disparar, ocorre uma alteração química na sua superfície que o deixa mais sensível à estimulação pelo mesmo vizinho [...] Se a célula vizinha não for novamente estimulada, ela permanecerá nesse estado de prontidão por horas, talvez dias. Se a primeira célula voltar a disparar durante o período, o vizinho poderá responder mesmo se a taxa de disparos da célula 'número um' for relativamente baixa. Um segundo disparo a torna ainda mais receptiva, e assim por diante. Finalmente, a disparada sincrônica repetida une os neurônios de tal maneira que uma mínima atividade em um fará com que todos aqueles que se tornaram associados a ele também disparem. Formou-se a memória (1).

A informação, conforme mencionado anteriormente, deve obrigatoriamente ser significativa para ser absorvida. Um indivíduo que não lê japonês, certamente, não conseguirá entender do que se trata um documento redigido nesta língua, portanto, não compreenderá seu conteúdo. O cérebro humano possui uma área cortical para cada sentido. Ela

É formada por uma colcha de retalhos de regiões menores, cada uma das quais lida com uma faceta específica da percepção sensorial [...] Uma vez que as informações de entrada tiverem sido reunidas nessas áreas, elas serão retransmitidas para frente para grandes regiões corticais conhecidas como áreas de associação. Aqui, as percepções sensoriais são casadas com associações cognitivas apropriadas - a percepção de uma faca, por exemplo, é juntada aos conceitos de esfaquear, comer, fatiar e assim sucessivamente. É somente nesse estágio que as informações de entrada se tornam uma percepção plenamente desenvolvida, significativa (1).

Por esse motivo, cada indivíduo constrói o conhecimento de maneira única, uma vez que a informação, mesmo quando recebida por várias pessoas, em um mesmo momento/contexto, será associada diferentemente por cada indivíduo. Portanto, o conhecimento é construído individualmente. No entanto, é importante lembrar que a linguagem (escrita e falada) é um mecanismo importantíssimo para a construção de conhecimento, pois por meio dela ocorre a retroalimentação das estruturas informacionais do mundo, se a informação é a matéria-prima do conhecimento, o ciclo sempre se renova.

_______________

1 CARTER, R. O livro de ouro da mente: o funcionamento e os mistérios do cérebro humano. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. 431p.

2 DAVENPORT, T.; PRUSAK, L. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998. 316p.


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MARTA LIGIA POMIM VALENTIM

Professora Titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pós-Doutorado pela Universidad de Salamanca (USAL), Espanha. Livre Docente em Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional pela Unesp. Docente de graduação e pós-graduação da Unesp, campus de Marília. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa "Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional". Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Unesp, campus de Marília, gestão 2017-2021. Presidente da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN), gestão 2016-2019.