REFLEXÕES ÉTICAS


“O SEU OLHAR MELHORA O MEU”: O VALOR DO OLHAR DO OUTRO

Ansiosa para escrever meu primeiro texto nesta preciosa coluna, inicialmente, senti-me como Arthur Moreira Lima ao piano, com os dedos ágeis, quase que movendo sozinhos no teclado, cabeça baixa, desejando introduzir a partir da menção e agradecimento ao trabalho realizado pelo Professor Francisco das Chagas de Souza que durante sete anos publicou algumas pérolas sobre a prática e a ética profissionais neste espaço.  Eu sou um dos muitos frutos de sua semeadura ao longo de sua bela caminhada na docência e na pesquisa. Em seu último artigo publicado, ele informava sobre a continuidade da coluna a partir de mim. Assim como ele, meu “cuidador” na minha trajetória filosófico-científica, pretendo tratar de assuntos semelhantes porque também direciono meus estudos para o “movimento humano”, principalmente no que se refere a sua atuação em espaços que possibilitam a informação, como é o caso das bibliotecas.

 

O título do texto tomei emprestado de um artigo, ainda em vias de conclusão, sobre algumas das percepções decorrentes de pesquisa concluída em 2011 e que recentemente ganhou formato de livro (SILVA, 2014). A partir de entrevistas com líderes de bibliotecas comunitárias, o estudo teve como objetivo investigar os fundamentos éticos mobilizadores destas pessoas para a criação e manutenção destes espaços. Como pesquisadora, trabalhando a partir da observação e da oitiva de percepções, lidamos com um manifesto de ideias que mesmo parecendo por vezes muito semelhantes, possuem detalhes que aos olhos de um pesquisador mais atento podem ser iluminados.

 

Após finalizada a pesquisa, uma questão entre tantas que continuou ressoando - e que pode migrar para a vida além trabalho - foi a relevância do olhar externo para nossas ações. Uma das perguntas do roteiro de entrevistas foi: “Fale o que pensa sobre a biblioteca pública atualmente”. Tal questionamento figurou na pesquisa em função do entendimento de que as bibliotecas comunitárias e as bibliotecas públicas se assemelham em sua finalidade e característica de servir o público em geral. Neste questionamento em específico surgiram narrativas ricas sobre os bibliotecários, principalmente os que atuam em bibliotecas públicas. 

 

À tona, no discurso destes líderes de bibliotecas comunitárias, questões como o sentimento de se sentir excluído, seja pela distância geográfica das bibliotecas públicas em relação à população que reside em bairros periféricos, pelo restrito horário de atendimento que não privilegia o trabalhador, ou mesmo, pela forma como são tratadas as pessoas com determinada condição econômica ou vestimenta (aparência).

 

Outras questões levantadas se relacionam com a falta de ânima (no latim alma, vida) das bibliotecas públicas, ressaltando sobre a pouca articulação cultural, estagnação, um sinônimo de depósito de livros sem articulação com a política de formação do acervo, ambiente de pouca relação e troca entre as pessoas.

 

Como quem anima (ou desanima) qualquer ambiente são as pessoas, essas imagens acabam sendo direcionadas para bibliotecários que trabalham nestes espaços. Passividade, desatualização, corporativismo, atenção maior às demandas internas de cunho técnico, postura supostamente soberba de um profissional que mediante diploma e registro em Conselho tem sua reserva de mercado, pouca articulação política para defesa das bibliotecas públicas, são percepções reveladas a partir das falas:

 

“Eu [...] não vejo as pessoas que trabalham na biblioteca [...] com preocupação de fazer com que as pessoas vão até eles [...] “estamos aqui a obrigação de vocês é vir”. (grifo meu).

“Eu penso que elas hoje elas tão muito voltadas pras suas atividades internas, [...] não trabalham, não desenvolvem uma política de livro e leitura, por falta de apoio oficial, por causa de seus profissionais, por causa da falta de política da própria biblioteca [...], [...] se preocupam [...] pouco com o acesso [...], com a relação.” (grifo meu).

“Acho que elas não estão sendo bem aproveitadas [...], [...] e não são espaços humildes não, são espaços de difícil relacionamento, de você chegar com propostas novas e as pessoas não quiseram dar nenhuma importância pra isso [...], achar que eles sabem tudo, os bibliotecários, [...] de acharem porque estão num espaço público, e são representantes do poder público e estar naquela estrutura grandiosa, basta [...] como se não tivesse minimamente um conhecimento disposto a socializar, complicado. [...] (grifo meu).

“[...] Culpo o governo, [...] culpo inclusive a categoria também, [...] muito parada com relação à reivindicação, com relação à defesa deste espaço, um espaço mais dinâmico [...].”(grifo meu).

 

Todos os trechos destacados foram os pontos que, após o exercício fenomenológico de distanciamento da minha condição profissional, suscitaram em mim maior incômodo. Contraditoriamente, as questões que estes sujeitos colocaram são as que justamente fazem parte do discurso da classe profissional bibliotecária e também de sua formação acadêmica atual: foco prioritário no usuário, promoção do acesso a todos sem distinção, defesa da biblioteca como um direito, declaração de amor por estes espaços (instituída por organismos de classe e estampadas em camisetas que circulam nos eventos promovidos pela categoria...).

 

A partir da declaração destes sujeitos, percebe-se que há um abismo entre o que declaram e almejam os bibliotecários para as bibliotecas e o que muitas vezes é percebido por parte da sociedade, neste caso os líderes comunitários. O bibliotecário que presta serviço para a sociedade e a auxilia no seu processo de desenvolvimento, não deveria ouvi-los nas questões que levantam? São ou não são questões pertinentes?

 

Norbert Elias, sociólogo que dedicou-se a estudar como se deu o processo civilizador no Ocidente e a questão do interacionismo e interdependência entre os indivíduos, em seu livro “Norbert Elias por ele mesmo” ressalta a relevância das relações enfatizando a importância de conviver e aprender com outros para a formação do homem (ELIAS, 2001). Em outra obra, resultado de uma experiência etnográfica escrito com Scotson, Elias endossa que o indivíduo não é totalmente independente da opinião dos outros, sua auto-estima e auto-imagem estão ligadas ao que os outros membros do grupo pensam dele (ELIAS; SCOTSON 2000). Umberto Eco em consonância coloca o olhar do outro como definidor e formador do indivíduo, este olhar faz parte dele (ECO, 2009). Cito também Ivana Marková (2006, p. 53) que destaca que “onde existe diálogo, existe atividade humana”. As tensões das oposições deixam sempre uma “fenda”, expondo o diálogo humano a uma série de interpretações e, consequentemente, à novidade. (MARKOVÁ, 2006). Partindo dos pressupostos destes autores, estes “olhares” externos podem contribuir para o exercício de diálogo com a sociedade, para o hábito de avaliação de práticas e posturas, para propiciar inovação!

 

Retorno ao último texto de Francisco para esta coluna publicada em dezembro de 2014 que provocava o leitor ao mencionar sobre o que é, para ele, as dez atitudes questionáveis do bibliotecário brasileiro registrado nos Conselhos de Biblioteconomia. Ele destaca que essas dez atitudes não figuram em ordem de prioridade, entretanto, se eu ousasse classificá-las desta forma, pontuaria a última atitude mencionada como sendo das mais relevantes: “Estar indisposto para fazer e receber crítica às suas práticas profissionais.” Nesta atitude, mediante sua trajetória sobre educação e formação bibliotecária, menciona sobre um vício do profissional: considerar a boa crítica um elogio e a má crítica uma ofensa.  Considera ainda que uma situação retroalimenta a outra: ao ser indisposto à crítica, também é indisposto ao exercício da crítica, um exercício salutar para qualquer pessoa ou classe profissional. Termina perguntando: “Como superar esse círculo vicioso?”

 

Como superar esse círculo vicioso? O título deste texto foi emprestado da composição de Arnaldo Antunes e Paulo Tatit. Ao escutá-la, melodicamente semelhante a um mantra, o que fica mais forte em sua poesia é a ideia de que o olhar do outro pode “devorar o breu”, vir como chuva molhando “o que se escondeu”. A arte nos ajudando a romper culturas e encontrar novos caminhos...

 

Vamos em frente!

 

Referências:

 

ECO, Umberto. Quando o outro entra em cena, nasce a ética. In: ECO, Umberto; MARTINI, Carlo Maria. Em que crêem os que não crêem? 12. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

 

ELIAS, Norbert. Norbert Elias por ele mesmo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

 

ELIAS, Norbert.; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

 

MARKOVÁ, Ivana. Dialogicidade e representações sociais: as dinâmicas da mente. Petrópolis: Vozes, 2006.

 

SILVA, Ana Claudia Perpétuo de Oliveira da. É preciso estar atento: a ética no pensamento expresso dos líderes de bibliotecas comunitárias. Curitiba: Appris, 2014.


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ANA CLAUDIA PERPÉTUO DE OLIVEIRA

Docente do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui mestrado e doutorado em Ciência da Informação pela UFSC. Possui graduação em Biblioteconomia pela UFSC e em Ed. Artística - Habilitação em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Integra o Grupo de Pesquisa Informação, Tecnologia e Sociedade, da UFSC. Atuou por quase 20 anos em biblioteca universitária, escolar, comunitária, especializada e em políticas públicas para bibliotecas públicas. Tem como interesse de pesquisa assuntos relacionados à ética em unidades de informação, bibliotecas públicas e comunitárias, relações entre biblioteconomia e arte, ação cultural, exclusão/inclusão em unidades de informação, centros e acervos culturais, relações entre escrita, oralidade e leitura. Aposta na arte como forma de reinventar uma atuação profissional que desenvolva empatia e o compromisso com uma sociedade mais igualitária.