LEITURAS E LEITORES


MUNDO E PALAVRA: LEITURAS QUE SE COMPLETAM

Nem sempre nos damos conta das leituras que vamos realizando durante a vida. Do nosso contato com o mundo, somos instigados a fazer diversas leituras. Mais visual para uns. Tátil para outros. Olfativa e visual para outros tantos. Cada um utiliza os órgãos dos sentidos que lhe são mais aguçados, ou todos ao mesmo tempo.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, afirmava Paulo Freire. Há pessoas que "lêem" as outras pela maneira de se vestir, pelo que possuem, pelos lugares freqüentados, ou por obras lidas. Na verdade, estamos sempre "lendo" o mundo que nos rodeia. E essa leitura está circunscrita à relatividade do olhar, ou seja, depende das leituras prévias daquele que olha. Se a compreensão (leitura) do mundo for abrangente, também a análise dele será mais ampla.

A convivência com todos esses recursos de leitura nos tornam mais aptos e abertos à leitura da palavra. Quando lemos um livro, automaticamente, somos lançados num universo que contém fortes elementos da existência humana: tristezas, alegrias, sentimentos ocultos, angústia, esperança, confronto com o insólito, inóspito. A partir de então, estabelecemos relações com o que lemos, interligando-o à nossa própria experiência ou a outras conhecidas.

Cada obra lida desperta-nos inúmeras correlações com as quais nos identificamos ou estranhamos. Posteriormente, estabelecemos analogia com outras obras lidas. Por exemplo, difícil não correlacionar o herói problemático Paulo Honório de São Bernardo (Graciliano Ramos) e Bento Santiago de Dom Casmurro (Machado de Assis). Ambos, na velhice, resolvem narrar suas histórias. Num processo analítico, buscam entender o que fizeram da vida, o porquê da solidão e da perspectiva desencantada da vida.

Bento e Paulo Honório, apaixonados respectivamente por Capitu e Madalena, compartilham um período da vida com os seus amores, no entanto, devido às suas próprias inseguranças, perdem as mulheres que amam. Só a perda trará aos dois a dimensão do vazio existencial.

No início de Dom Casmurro, Bento, narrador da história, permite-nos entrar em sua velhice e solidão. Vive numa casa muito confortável, apenas ele e um criado. Posteriormente, explica-nos que o seu "fim evidente era atar as duas pontas da vida , e restaurar na velhice a adolescência." É como se Bento quisesse, muito tempo depois, entender a si próprio, o motivo pelo qual sua vida, tão altiva na adolescência, tornara-se cinzenta e solitária.

Já Paulo Honório, num processo semelhante ao de Bento Santiago, impotente frente ao intangível destino, desabafa: "Sou um homem arrasado.(...) Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada." Como Bento, Paulo Honório realiza um processo de auto-análise, olha para a sua vida e constata a solidão e o "fracasso" diante do amor.

Infinitos são os enfoques que se pode depreender da leitura da trajetória de Bento e Paulo Honório, por exemplo, de que não temos controle sobre o nosso futuro; o quanto decisões tomadas hoje podem refletir diretamente em nossas vidas amanhã; se não devemos valorizar mais nosso relacionamento amoroso, etc. O processo vivido pelas personagens provoca-nos a reflexão sobre a nossa própria existência. É certo que quando lemos, estabelecemos conexões com leituras preexistentes em "nosso acervo" e nos colocamos a interligar situações que vão do âmbito ficcional ao pessoal. E assim, leituras de mundo e da palavra se cruzam e trazem consigo a leitura individual, permeada pela leitura da própria humanidade.

Portanto, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, mas uma vez que nos tornamos leitores da palavra, invariavelmente estaremos lendo o mundo sob a influência dela, quer tenhamos consciência disso ou não. Nesse momento, a leitura, até então oral e ágrafa, amplia-se, oferece-nos outras perspectivas para ler o mundo. Dá-nos condição de encontro com novas maneiras de interpretar a sociedade, seus conflitos e a própria natureza humana. A partir de então, mundo e palavra permearão constantemente nossa leitura e inevitáveis serão as correlações, de modo intertextual, simbiótico, entre realidade e ficção.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.