CRÔNICAS E FICÇÃO


LISTAS DE DISCUSSÃO

Participo de uma série de listas de discussão na área da Biblioteconomia. Parece-me, hoje, que boa parte delas veiculam e reproduzem as mesmas mensagens, tendo como participantes, provavelmente, os mesmos interessados.

O termo "participo" que empreguei acima não reflete exatamente a minha relação com essas listas. A exemplo de Pierre Levy, sou muito mais um leitor, um observador, do que, propriamente, um participante. Poderia elencar um rol de motivos para justificar essa posição, desde a falta de tempo até certo desinteresse por determinados assuntos que circulam nas listas. Neste último caso, vale ressaltar, ninguém é obrigado a concordar com as posições defendidas e expressas por muitos dos participantes, nem mesmo achar de interesse assuntos que alguns apresentam como sendo a salvação da biblioteconomia ou como revestidos de um pioneirismo cuja força avassaladora transformará a área, a mesma força que, 50 anos antes, quando a idéia foi de fato apresentada pela primeira vez, resultou em pequenas mudanças, não tanto pela proposta, como, talvez, pela passividade que caracteriza a biblioteconomia.

Usei Pierre Levy como espelho - ao menos no aspecto apontado -, não por querer uma identificação com esse pensador, mas por ser ele reconhecidamente um ufanista do espaço virtual, alguém que expressa um otimismo em relação ao futuro das redes eletrônicas, em especial quanto aos aspectos vinculados à liberdade e à manutenção das culturas localizadas. Apesar dessas posições - com as quais em grande parte não partilho -, sua relação com as listas é a mesma que a minha.

Não ter uma participação "ativa", entendida como imprescindível para alguns, não significa omissão ou alienação. Expor suas idéias e opiniões diariamente é uma característica da personalidade de uma parcela das pessoas, como é, por exemplo, o falar em demasia, o tocar constantemente o interlocutor de uma conversa. O inverso também é verdadeiro, óbvio.

Costuma-se creditar aos que exteriorizam suas idéias, o privilégio em determinar os rumos da história, os caminhos do homem. Não se pode simplesmente descartar essa afirmação, mas deve-se analisá-la com certas ressalvas e entendê-la com cuidado.

A afirmação é verdadeira sob determinados aspectos, inegavelmente. No entanto, qualquer posição maniqueísta tende a nos levar ao erro, camuflando e sonegando possíveis outras abordagens.

O defensor explícito de uma idéia pode estar sendo induzido a veiculá-la por outra pessoa ou por um grupo, por uma corrente. Quem exterioriza aparenta ser o articulador da concepção, da proposta, mas pode ser apenas um mero veículo, um reprodutor passivo.

O exemplo acima serviu como base para a seguinte afirmação: os que participam das listas como observadores, não são, necessariamente, apenas consumidores de idéias, concepções, conceitos e propostas divulgadas via redes eletrônicas. A produção de novas informações, novos conhecimentos dá-se no âmbito individual, dá-se na organização coerente e lógica das informações recebidas, transformando-as em conhecimento.

Disseminar os conhecimentos assim adquiridos, parece-me importante, desejável e imprescindível. Apesar disso, essa disseminação não precisa ocorrer no espaço das listas; pode ela se concretizar em artigos, em palestras, em ações no ambiente de trabalho ou, até mesmo, em conversas informais com colegas de profissão, com amigos interessados no assunto objeto da disseminação.

Reforçando: a produção de informações e conhecimento pode se dar nas reflexões individuais, independente de serem elas partilhadas ou não. O conhecimento pode se originar da organização pessoal de informações assimiladas. No entanto, é inegável que todo conhecimento, mesmo que gestado e gerado individualmente, é fruto de uma ação coletiva. O coletivo está presente, mediando nossas reflexões, interferindo até mesmo na escolha dos temas objetos de nosso interesse.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.