CRÔNICAS E FICÇÃO


UM CLIMA DE DÉJÀ VU

Segunda feira de carnaval, sentado no sofá da sala, Folha de São Paulo e Jornal de Londrina ao meu lado, já lidos, assistia a um trecho do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Um estranho clima de "déjà vu", talvez nem tão estranho assim, começou a rondar e se firmar como inegável. As imagens estavam sendo reprisadas? Não, não as de ontem, domingo, mas as do ano passado.

Parece, salvo melhor juízo (estou falando de aparência e não defendendo uma idéia, aliás, idéia da qual sou contra), que a história é cíclica. O mundo gira e a cada período determinado, tudo volta a se realizar, tudo se repete. É possível até que seja mera impressão de minha parte. Ou, ainda, e acredito que muito mais plausível, que seja uma artimanha dos meios de comunicação de massa.

Muitos vão dizer que o radicalismo inicial da Escola de Frankfurt em suas críticas à cultura de massa ou ao entretenimento massivo estão de volta em um saudosismo bobo e inútil. Não sou saudosista e nem quero reviver aquelas críticas, até porque importantes pensadores e analistas dos meios de comunicação de massa reconsideraram as avaliações feitas, entendendo terem sido elas construídas com bases muito mais ideológicas do que com um rigor "científico" desejável. O científico vai aqui entre aspas porque pede uma discussão mais ampla.

O que eu dizia, retomando, é que atribuo aos meios de comunicação de massa boa parte da culpa nessa sensação de já ter visto "esse" carnaval. Por que? Bom, por vários motivos que podem ser discutidos, mas, em especial e primeiramente, porque trabalham esse meios com a idéia, transformada em base técnica - mesmo que não explicitada - de que tudo o que já foi apresentado e aprovado deve ser repisado. Explicando melhor: nada de vanguarda, nada de propostas inovadoras. Quando muito, aceita-se uma experiência aqui outra ali e só. Televisão, por exemplo, não é lugar de experimento.

Um Big Brother que deu certo na Austrália, na Dinamarca, nos Estados Unidos, no Canadá será inevitavelmente transposto, com pouquíssimas mudanças, para as telas nada criativas e imaginativas das redes tupiniquins. As novelas, entendidas e reconhecidas como a grande marca de qualidade da televisão brasileira, vendida para todo o mundo, compete - e muitas vezes perde - para concorrentes produzidas no México, na Venezuela, na Argentina. Um suma: assistimos, globalizados, aos mesmos programas, às mesmas novelas que o mundo todo, ou boa parte dele, assiste.

Bom, na realidade, a situação não é tão simples assim. Apesar das afirmações de que todos possuem televisão e gastam boa parte de seu tempo em frente a ela, as estatísticas evidenciam um número alto de residências que não contam com essa "velha" tecnologia. Dados veiculados pela folha de São Paulo em 17 de fevereiro último, apresentam um total de 75, 47% de casas com televisão na região Nordeste do Brasil. Isso significa que em cada 4 casas, 1 não possui televisão. No Maranhão, terra de uma futura candidata a presidente da república, a situação é ainda pior: apenas 61,06 dos domicílios possuem televisão. É bem verdade que nesse estado, a luz elétrica é um benefício que só 79,09 da população usufrui. Mais: como ter acesso a um aparelho de televisão se 62,34 dos chefes de família, ainda naquele estado, sobrevivem com uma renda mensal de até 1 salário mínimo?

Várias questões, partindo-se das idéias apresentadas acima, tomam corpo: afinal, qual é a população que determina - com audiência - a baixa qualidade dos programas televisivos? Qual é, de fato, o interesse, a necessidade da população e que servem de parâmetros determinadores da programação? A televisão determina o que deve ser assistido ou não passa, como gosta de nos fazer crer, de um espaço que congrega os interesses e desejos da sociedade, transmitindo, imparcialmente, uma mescla deles?

É impossível negar a interferência da televisão em amplos aspectos da sociedade. Se assim não fosse, seriam poucos os políticos com interesse em adquirir retransmissoras das principais redes do país.

A exemplo da transmissão do carnaval, este é um assunto que parece já ter sido discutido. E, na realidade, foi e continua sendo ele foco de vários debates, com correntes que apontam para inúmeros nortes. Talvez por esse motivo, vamos continuar essa discussão em outra crônica.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.