CRÔNICAS E FICÇÃO


O PROPÓSITO

Um pouco de medo

ou muito medo.

Exagero de medo.

Medra a alma

na ânsia do fim.

 

Sou covarde

para algumas coisas.

Outras, não.

Extremas, não.

 

A lâmina pulsa e sangra.

Meu coração expulsa,

o sangue lateja, jorra,

esguicha, pulveriza.

Marca o chão,

avermelha o chão.

 

Sou o chão.

Não sei para onde

vou. Voo. Voragem.

 

Toda viagem se acaba.

É a sina da viagem.

Toda viagem é assassina.

Toda vida é assassina.

 

Por que deixar nas mãos

de outros o meu destino?

Destino aos outros

um pobre legado.

Uma fala boba,

perdida no espaço,

escritas vazias,

porque sem atos.

 

É passado, ficou

na história.

Fez-se estória e se

Perdeu.

(Mas, o que ficou

na história, fica).

Palavras gritadas

no calabouço,

escritas gravadas

nas paredes escuras.

Quase nada exposto.

Não há espaço,

não é possível.

Quase tudo virou cinza.

E o que não virou

é cinzento, cinza escuro.

 

Há um escuro,

que não sei onde dá.

Começou no berço.

Nem as milhares de

manhãs, amanhãs,

clareou.

 

A eterna busca.

No escuro.

 

Avermelha o que não se vê.

Talvez se descubra, depois,

o propósito.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.