HISTÓRIAS ESCRITAS


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A CAMPAINHA

João acordou meio assustado. Às vezes nós acordamos assim; acho que é culpa dos sonhos, daquilo que estávamos sonhando pouco antes de acordar. Sei lá. Só sei que ele acordou, olhou para os lados, saiu da cama e foi ao banheiro.

Enquanto escovava os dentes, ficou pensando em uma série de coisas. O banheiro era o lugar em que ele ficava sozinho e pensava no que tinha que fazer naquele dia. Será que ele tinha terminado a lição de casa? Tinha estudado para a prova? Decidiu que tomaria banho naquele momento. Melhor do que deixar para depois e ter que correr para não se atrasar.

O menino não gostava de tomar banho. Quer dizer, gostava só quando estava embaixo da água, mas todo o preparativo antes e depois (ir até o banheiro, tirar a roupa, pegar a toalha, separar o uniforme ou o pijama) era muito, mas muito chato. Pior quando a mãe olhava a orelha para ver se estava limpa.  (e puxava quando estava suja).

Depois de ensaboado, ele começou a assobiar, ou melhor, ele tentou assobiar. Desde pequeno essa era uma coisa que ele sempre tentava... e não conseguia. O assobio parecia um sopro, algo meio estranho. Os amigos diziam que ele cuspia e não assobiava. E sempre que ele preparava a boca para soltar o assobio/sopro, todos corriam pra longe.

Sozinho ele podia assobiar, cantar, fingir que tocava guitarra. A ideia era imitar os músicos das bandas que ele admirava.

Outra coisa que ele gostava de fazer no banho era encher a boca de água e cuspir fazendo mira em algum ponto do box, como a torneira, um pedacinho quebrado do azulejo, o sabonete que caiu no chão...

No meio do canto, quer dizer, aquilo que ele chamava de canto, epa, parece que a campainha tocou.

- Alguém vai atender – pensou ele e continuou na sua imitação. Parou de repente e lembrou que estava sozinho. Seus pais estavam trabalhando e o irmão menor estava na escola.

- O que vou fazer? Pelado eu não posso ver quem está na porta. Também não posso colocar a roupa todo molhado. Pior, estou com muito shampoo no cabelo e sabão pelo corpo – continuou pensando ele.

Ele estava pensando muito rápido nas alternativas para resolver a situação. Uma ideia era gritar e pedir para a pessoa esperar até que ele estivesse em condições de ir até a porta. Mas, o banheiro era longe da porta e, mesmo gritando, ele não seria ouvido.

A campainha tocou mais uma vez.

- Mas que coisa chata. Eu não quero comprar nada e se for entrega de alguma coisa, volte mais tarde, no horário que meus pais estão em casa – desta vez não foi só pensamento, João falou alto.

O menino falava sozinho. Quando ele fazia o dever de casa, ele repetia em voz alta o que estava lendo. Outras vezes ele conversava com ele mesmo, fazendo perguntas e respondendo e até, em alguns momentos, balançando a cabeça, mexendo os braços e coisas desse tipo.

Mais uma vez a campainha tocou. Quem estava na porta era insistente.

Agora ele precisava fazer algo. Pensou em fingir que não tinha ninguém em casa. Essa era uma solução. Mas, e se fosse algo importante? E se fosse uma carta dizendo que ele, João, o cientista mais importante do mundo tinha ganhado o prêmio Nobel? Ou era alguém querendo contratá-lo para jogar no Corinthians? Ou era o dono de alguma rede de televisão querendo saber se era lá que morava o melhor cantor do mundo?

Ele tinha que fazer alguma coisa. Desligou o chuveiro, pegou a toalha, se enxugou mais ou menos, colocou a calça do pijama, uma camiseta que estava jogada no banheiro e... a campainha mais uma vez.

- Corre João – ele disse alto, se incentivando a ir mais rápido.

Descalço, passando a toalha na cabeça, já saindo do banheiro, ele olhou para trás e viu o chão todo molhado.

- Depois eu penso nisso.

Bateu o dedinho na quina do armário, disse um palavrão (daqueles não tão feios, mais ou menos), saiu do quarto pulando em uma perna só, passou quase que voando pela sala, abriu a porta e... não tinha ninguém.

- Poxa! Não podia esperar mais um pouco?

Foi até o portão, olhou para um lado e para o outro. Nada. Ninguém.

Com raiva, se atirou no sofá e terminou de enxugar a cabeça. Passou perto do espelho, se olhou e disse:

- E se eu ganhei o Oscar ou o primeiro lugar entre todos os alunos da minha escola ou se querem que eu seja o presidente do mundo?

Voltou para arrumar o banheiro.

- Chega de banho: e se a campainha toca outra vez? – pensou/dizendo.

Pegou o fone de ouvido, mas colocou em uma orelha só. Ouviu as músicas das bandas que ele gostava, mas sempre pensando em quem tinha tocado a campainha. A pessoa voltaria mais tarde? E se fosse no horário em que ele estava em aula?

Ele ficou com a pulga atrás da orelha. E nós também.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.