HISTÓRIAS ESCRITAS


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O CASO DA ÁGUA COR DE ROSA

Duas gatas viviam com um casal que amava gatos (e gatas, claro). Uma delas era arisca, estava quase sempre escondida, enfiada em vãos dos móveis, atrás da máquina de lavar, em lugares os mais estranhos. A outra, ao contrário, gostava de pular no colo de todos os que visitavam a casa, passava se roçando nas pernas das pessoas, essas coisas que os gatos e gatas costumam fazer.

Muitas vezes, à noite, o tal casal (rimou) acordava com o barulho das duas gatas correndo uma atrás da outra pela casa inteira. Mas, o que eles iriam fazer, se elas gostavam de brincar assim?

Elas, as gatas, não faziam nenhuma sujeira. Tinham uma caixa de areia para as suas “necessidades” (coco e xixi, mesmo), tomavam banho se lambendo, quase não derrubavam nada etc. Eu disse quase não derrubavam, pois, às vezes, por acidente e sem querer, uma delas encostava em pratos, tigelas, esbarrava em vasos, garrafas e... plim, plim, plim, essas coisas viravam cacos no chão.

O casal que morava na casa junto com as gatas, trabalhava e elas ficavam sozinhas. Um dia, quando eles chegaram, a Cloé correu em volta deles (esqueci de dizer que uma, a que pulava no colo de todos, se chamava Cloé e a outra, a mais arisca, Dora) querendo carinho e a Dora, como sempre, ficou em algum canto, escondida. Quando foram trocar a água, perceberam uma cor estranha, um vermelho claro, talvez cor de rosa. O que teria acontecido?

Olharam a boca e o focinho da Cloé. Nada de anormal. Procuraram pela casa e encontraram a Dora atrás da cortina. Também não havia nada de diferente na boca e no focinho dela. A pergunta continuava: o que aconteceu? Poderia ter sido um grão da ração delas? Será que elas pisaram em alguma coisa e depois, na brincadeira de uma correr atrás da outra, molharam o pé na água da tigela?

Estranho, realmente estranho.

Isso foi motivo de conversa entre o casal naquela noite.

No dia seguinte, antes de sair de casa, o casal (casa, casal: isso pode virar um trava língua) olhou bem a água limpa que puseram para as gatas. Não viram nada de diferente na água. Mas, quando chegaram à noite, correram para olhar a água e, novamente, ela estava cor de rosa.

A mesma maratona do dia anterior, ou seja, olhar a boca e o focinho da Cloé, descobrir onde estava a Dora e também olhar sua boca e seu focinho e... nada.

Aquilo era um mistério. E dos grandes.

O casal resolveu investigar, sentindo-se um Sherlock Holmes ou os meninos do Prédio Azul. Pensaram em pegar um boné e uma lupa, mas reconheceram que isso era demais. Na mesa da sala eles se sentaram e começaram a pensar sobre o caso. Quais as possibilidades da água ficar cor de rosa? Colocaram no papel várias ideias, mas, no final, todas foram descartadas.

Nos dias que se seguiram a situação não se modificou: pela manhã a água limpa não tinha nada de cor de rosa, mas à noite, quando eles chegavam... eita, lá estava o colorido na água.

E o mistério continuava.

Depois de alguns dias, o casal já tinha desistido da ideia de ser detetive, mas continuava intrigado com a tal água cor de rosa.

Como faziam toda semana, resolveram dar um banho nas duas gatas. Elas detestavam. Até mesmo a Cloé, mais carinhosa, se escondia quando percebia que era dia e hora de banho. O casal conseguiu pegar as duas e leva-las para o quintal onde um segurava a gata e o outro esfregava com um sabonete e jogava água com mangueira.

E foi nesse momento que a humana (hoje as pessoas preferem dizer humana e humano que donos e donas de animais) viu a fita no pescoço da Dora. As duas tinham fitas: a da Cloé era azul e a da Dora era vermelha. Eram fitas novas e o casal não sabia que em contato com a água elas desbotavam. Olhando mais de perto, a humana viu uma ponta da fita já quase sem cor e deduziu que quando a Dora bebia água, a ponta da fita tocava a água e a coloria de cor de rosa.

As fitas das gatas foram tiradas e nunca mais a água que elas bebiam ficou cor de rosa.

Por ter solucionado o caso, o casal (Êpa! Caso, casal: isso pode virar, mais uma vez, um trava língua) ficou todo prosa. Na sala, o humano e a humana dançaram e as gatas – até mesmo a Dora saiu de seu esconderijo para ver o que estava acontecendo -, sem nada entender, olhavam e parece que pensavam: Esses dois são loucos?

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.