TEXTOS DE FICÇÃO


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O HERDEIRO

 

Depois de escrever seu testamento, Franz Kafka entrou na biblioteca pública onde costumava consultar tratados de entomologia. Naquela tarde de 1920, tomou um exemplar de "De Rerum Natura" e pôs-se a folhear sem muita curiosidade. A lâmpada que pendia do teto piscou duas vezes e morreu. Durante o claro-escuro que vacilara sobre seus ombros, Kafka viu as páginas abertas diante dele estremecerem e sua mãos pousarem sobre elas, como a protegê-las. Em seguida, as sombras se apossaram do livro e de suas mãos. E, como não podia mais enxergar nem o exemplar que lia, nem suas mãos, Kafka passou a senti-las também, numa anulação combinatória de sentidos. Tomado de pânico, volveu os olhos ao redor, em busca de cumplicidade. Do outro lado da mesa, um homem deixava-se consumir pela leitura. Ignorado em seu drama, Kafka voltou a cabeça em direção a uma mulher três cadeiras adiante. Não conseguiu nada ali. Um menino que retorcia os dedos nervosamente era sua última esperança. Mas, como as demais, essa também fora uma esperança vã. Era como se a lâmpada nunca tivesse se apagado. Era como se não houvesse ninguém ali para percebê-lo. Tal qual a luminária morta, Kafka se tornara uma sombra nas sombras da biblioteca.

Incerto de sua imaterialidade, Kafka decide testá-la. Deixa "De Rerum Natura" tombar no chão, sem levantar com isso os olhos de ninguém. Depois, sobre à mesa e anda sobre ela. No percurso, nenhum repúdio por tamanha impertinência. Habituado já à invisibilidade, dedica-se ao prazer de espionar o que seus companheiros lêem. O homem afunda-se nas páginas de um livro intitulado "O Castelo". Ao buscar pelo nome do escritor, Kafka é tomado de um rastilho incendiário que lhe parte o cérebro ao meio. Exatamente como ele, o autor do livro chama-se Franz Kafka. Atordoado, cambaleia e procura apoio no espaldar da cadeira do menino nervoso, que lê uma edição in folio do "Carta ao Pai", esse sim um título seu, mas em formato totalmente desconhecido. Em desespero, Kafka avança para a mulher, que chega ao fim de "Narrativas do Espólio", igualmente assinadas por Franz Kafka. Resolvido a esclarecer tamanha farsa, Kafka dirige-se ao bibliotecário que, de costas, ouve suas quixas quanto ao disparate daquelas publicações. Quando o funcionário se volta, Kafka pode enfim ver-lhe o rosto. É Brod, o amigo dileto, a quem, no testamento, ordenara que destruísse todos os seus escritos. Kafka compreende que fora traído. Brod, de olhos baixos, responde que não conseguiria obedecer a um desejo daqueles. Nem mesmo em sonho.

Ao despertar, agitado, Kafka decidiu voltar para casa e rasgar o testamento, mas, preso nas sombras, não conseguiu abandonar a biblioteca.

(Adriana Lunardi é autora de "Vésperas" - editora Rocco)

Autor: Adriana Lunardi
Fonte: Folha de São Paulo - 16 de fevereiro de 2003 - Caderno Mais, p.10

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.