TEXTOS DE FICÇÃO


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ATENÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ PERDENDO A MEMÓRIA

A tecnologia digital é ideal para guardar informações: compacidade, ganho de espaço, facilidade para pesquisa, comunicação à distância quase instantânea, sem custo e estritamente idêntica ao original. Não é de se estranhar que a memória da humanidade esteja se tornando cada vez mais digital no que concerne à informação administrativa, artística, médica e científica. Todavia, o espaço digital é um gigante com pés de barro: ele faz esquecer, com uma rapidez insuspeita, a informação assimilada pela maioria de nossos contemporâneos. Não há, ao que parece, uma razão fundamental para isto. Exceto a negligência de nossa sociedade para desenvolver tecnologia.

 

Cada um de nós conhece a evolução constante dos formatos de escrita e dos leitores digitais. A mudança constante dos padrões faz com que rapidamente fique impossível buscar o material necessário à leitura de um registro antigo. Um exemplo disto é o desaparecimento quase total do formato .DAT (Digital Audio Tape) que dominou a leitura do som musical durante anos.

 

Mas há ainda algo mais grave: os suportes sobre os quais é gravada a informação digital estão sendo constantemente corroídos por dentro pelo tempo; mesmo que se conserve todo o aparato necessário para sua leitura, a informação desaparece de forma inexorável. As bandas magnéticas envelhecem em uma dezena de anos e a única maneira para se conservar a informação é copiá-la para uma banda mais nova, ad infinitum. É isto o que têm feito as grandes bibliotecas para conservar seus dados. Entretanto, se a cópia é esquecida durante algum tempo, tudo estará perdido. Tendo em conta os custos de tal operação, estaríamos nós seguros, por exemplo, de que todas as informações científicas colhidas pela NASA estão bem guardadas, mesmo que muitas delas jamais tenham sido utilizadas, embora possam um dia ser consideradas preciosas?

 

Os discos rígidos funcionam por um princípio um tanto análogo ao das bandas magnéticas: se sua rapidez para acesso é inegável, em relação à longevidade eles não são melhores, todavia. Na verdade, em toda a sua história, a humanidade jamais utilizou técnicas tão instáveis para registrar seus dados.

 

Mas, e os CD graváveis, perguntaríamos? Já vimos, por acaso, algum anúncio no Le Monde Diplomatique sobre o tema - gravem em CD-R suas fotos para a eternidade? Seria uma publicidade mentirosa, já que na realidade muitos CD graváveis têm uma durabilidade de apenas alguns anos. Alguns mencionam uma média de cerca de cinco anos, com enormes flutuações: alguns CD se tornam ilegíveis em um ano ou dois, outros ultrapassam dez anos.

 

E onde fica a longevidade das fotos tradicionais impressas em papel? O caso dos DVD graváveis não é melhor. Quanto à nova geração de DVD de alta definição, nenhum dos grandes padrões conhecidos (HD-DVD e Blu-Ray) foi concebido especialmente para resistir ao tempo. Sob pressão comercial a única coisa que melhorou foi a densidade da informação; como sempre, a longevidade foi esquecida.

 

Entretanto, aí estão os fatos: todo um patrimônio digital abandonado à sua própria sorte, em cinco ou dez anos, corre o risco de ser definitivamente perdido. Por certo, é bastante louvável que se proceda à digitalização de documentos de qualquer natureza, mas de que adiantará se o resultado desse investimento corre o risco de desaparecer rapidamente?

 

O campo médico está preocupado. Quando os médicos guardam imagens de exames importantes, quando os dentistas realizam radiografias dentárias a fim de poder acompanhar a evolução de seus pacientes a longo prazo, eles sabem que essas fotos estão registradas em CD e que correm o risco de se tornarem ilegíveis em alguns anos. E quanto a nós que digitalizamos nossas lembranças de família, na esperança de transmiti-las às gerações futuras, temos ciência de que esse patrimônio familiar está se decompondo um pouco mais a cada ano? Podemos temer que ocorram, dentro de alguns anos, grandes dificuldades em vários segmentos da atividade humana se o problema não for encarado com vontade enquanto ainda há tempo. A humanidade está perdendo a memória.

 

Nada sob o ponto de vista técnico impede, todavia, que pensemos nos discos óticos digitais que possuem uma boa estabilidade. Podemos mesmo pensar no surgimento de um “padrão de longa duração” de suporte digital ótico, para o quais é fácil imaginar, não faltariam clientes públicos e privados. Basta apenas que esse padrão seja suficientemente acessível e tenha preços razoáveis, o que não tem sido o caso de algumas tentativas isoladas neste sentido (os discos UDO, por exemplo). Os raros CD-R “arquivo” apresentados ao mercado não eram objeto de controle independente. Não apenas esse padrão não existe mais, mas pior ainda: nada nos garante o que está em vias de surgir.

 

E como nós chegamos a tal grau de regressão, já que os pergaminhos medievais e as tabuletas cuneiformes dos assírios atravessaram dezenas de séculos? Nossa civilização de consumo não está preparada para lidar com este tipo de problema.

 

O que vendável para os fabricantes de suportes para registro – os gravadores e leitores – parece ter sido até aqui apenas a capacidade de estocagem de dados e a velocidade de registro. As forças de mercado consideram-se a si mesmas incapazes de desenvolver um suporte para registro que leve em conta a necessidade imperiosa de conservação da informação a longo prazo, comparável à dos documentos escritos em papel (alguns séculos). A única chance de haver progresso neste campo parece ser aquela na qual o poder público tome para si a iniciativa de estimular algum tipo de ação.

 

A questão não é particularmente difícil sob o aspecto técnico, quando comparada a outros desafios tecnológicos e sociais atuais. Os poucos laboratórios públicos que se interessam pelo tema se queixam do fato que este não é um assunto prioritário. Se quisermos que os poderes público e privado se associem enfim nesta questão, torna-se necessária uma tomada de consciência do grande público. Cada um de nós deve compreender a questão e não permitir que se espere dez ou vinte anos para que se constate que os testemunhos de uma geração desapareceram. Os próprios pesquisadores deveriam se preocupar, já que eles acumulam tanta informação cuja preservação é necessária, como, por exemplo, a relacionada aos grandes aceleradores de partículas cujo preço é muito alto e que ninguém pretende perder. Esperemos que o problema não seja posto sob o tapete por mais alguns longos anos.

 

Franck Laloë - diretor de pesquisas emérito do CNRS, departamento de física da Escola Normal Superior.

Autor: Franck Laloë
Fonte: Le Monde - Ponto de Vista - 26/01/2008

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.