TEXTOS DE FICÇÃO


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O ÚLTIMO A SABER

 

Sexta-feira à noite, tomando drinques na biblioteca pública, Eve e Natalie reuniram coragem para deixar a esposa delas. Eve sentia-se muito mal por causa disto.

- Não é que eu não a ame - disse, pela quinta vez desde meia-noite.

- Claro que não! - fez coro Natalie, com sua voz de prima-dona. - Eu também a amo.

- Só que ela não entende...

- Nem mesmo tenta. Dois anos de casamento e desistiu. Quer mais uma bebida?

Natalie acenou teatralmente e Nick, o bibliotecário, levou sem pressa uma garrafa para o canto do balcão onde elas estavam.

- Você é casado, não é, Nick?

- Há nove anos - disse o rapaz, enquanto enchia os copos. - Desde que a Direção da Biblioteca obteve urna licença para a venda de bebidas para ajudar no orçamento, ganhei um bom aumento.

- Sua esposa está satisfeita? Quero dizer, ele não fala em deixar o sindicato e conseguir um emprego fora?

Eve revirou os olhos. Assim que Natalie começava a beber era capaz de perguntar qualquer coisa a qualquer pessoa. Era muito constrangedor. Mas Nick apenas sorriu e puxou um bloco de pedidos do avental. O papel luminoso tinha um brilho esverdeado que contrastava com o balcão de pau-rosa. Era uma biblioteca de classe; não havia necessidade de aumentar a luz para poder tornar notas.

- Talvez as senhoras queiram fazer um pouco de pesquisa.

A voz de Nick era acolhedora.

- Há um novo texto sobre dinâmica triáloga...

Não adiantou. Elas não queriam textos, queriam ação.

- Ação! - Natalie levantou o copo, admirando as gotas de âmbar que pulavam por sobre a borda na manga extravagantemente pregueada. - À ação, ao âmbar e ao divórcio!

- Divórcio?

Nick estava de volta com urna pilha de discos auto-explicativos e a conta. Cofiou os bigodes nervosamente.

- Vamos parar por aqui, está bem? Alguns dos fregueses habituais são do sindicato e não quero confusão.

Eve olhou por sobre o ombro para a sala de leitura obscurecida, cheia de música, fumaça e atraentes esculturas antigas de neon. Um grupo misto de esposas numa mesa próxima olhava irritado para os pratos de sushi de Natalie. O Sindicato das Esposas não tinha mais necessidade de confrontação, não com o Congresso do lado delas. Os maridos que puderam escutar apenas reprimiram o riso e voltaram para seus drinques, enxaguando a semana de trabalho com suco de jângal.

Ou talvez se recompondo para irem para casa. Talvez os mais felizes já estivessem em casa a essa hora, ou nas filiais da biblioteca que eram pizzarias e atendiam famílias. Ou se divertindo com seus amantes. Eve suspirou, lembrando-se de Andy, que tinha ficado alto com espresso contrabandeado no último Ano-Novo e dera urna cantada em Maureen. Flertar com a esposa de Eve em sua própria quadra de squash! Imagina-se que se possa confiar num colega contador, mas não...

- Nós já ternos muitos problemas, Nick - suspirou, examinando a conta. - Mas suponho que você ouça isto o tempo todo.

- Não das minhas duas clientes favoritas.

Enquanto se curvava sob o bar para aumentar o volume do ruído branco que assegurava a privacidade delas, Eve olhou além dele para o espelho adornado de dourado postado acima do arcaico catálogo de cartões. Mesmo num reflexo não muito bem definido, Natalie era devastadora, a imagem da atriz desempregada, usando seus quase metro e meio de cabelos platinados por hormônios como um cachecol com as pontas pendentes sobre um leve vestido de crepe, muito parisiense. A própria Eve parecia pequena e sem atrativos na sua indumentária de contadora, embora o permanente eletrostático estivesse se mantendo bem. Cada fio azul-violeta gentilmente repelia o outro, de modo que toda a massa ficava à deriva em volta da cabeça como uma alga marinha. Maureen não havia nem mesmo reparado no permanente, tal o ponto a que as coisas tinham chegado.

- Em que ponto as coisas chegaram? - perguntou Nick, endireitando o corpo; mas Natalie o interrompeu, subitamente emotiva.

- Nossa esposa não nos compreende! - declamou, representando para a esquerda do palco. - Diz que ficamos muito pouco em casa, mas de quem é a culpa? Mal se pode dizer que temos uma casa! Os bonsais estão morrendo, nunca mais nem mesmo vimos massa feita em casa, largou a construção do cravo pela metade. Pedaços em todo o lugar! Não é capaz de se vestir um pouco melhor quando um amante vai nos visitar, nem mesmo quando o próprio amante dela vai. Diz que está deprimida.

- Ela está deprimida - insistiu Eve, por justiça e nostalgia. Ela sentia falta dos banquetes de tortellini, durante os bons tempos em que elas tinham encontros. Não é culpa de Maureen, realmente. Mas Natalie e eu trabalhamos muito, somos muito boas provedoras... bem, Nat está desempregada no momento, mas ainda assim...

- Não precisa entrar em detalhes - disse Natalie, secamente. - Nick sabe que somos boas provedoras, ele viu nosso nível de crédito. O importante é que Maureen não está honrando o espírito do contrato e nós nos decidimos pelo divórcio.

Eve perturbou-se com a palavra. Divórcio significava fofoca, escândalo, honorários para o arbitrador estatal. Maureen ficaria muito sentida independentemente do que ela dissesse agora. Embora ela houvesse falado muito ultimamente: Hoje mesmo no café da manhã havia chamado Eve de bobona por não ter ainda se tornado sócia da firma e censurado Natalie por se recusar a fazer comerciais. Eve mexeu-se com raiva na banqueta do bar. Elas podiam pagar um arbitrador, se chegasse a este ponto, e a carreira de Natalie sobreviveria a um pouco de fofoca.

- Que mais podemos fazer? - estava dizendo Natalie.

- Vocês podem seguir meu conselho.

Nick pegou uma banqueta para ele mesmo, para que os outros bibliotecários soubessem que ele estava em conferência. Ele deixou seu bloco com a face para baixo no balcão entre as bebidas e desenhou uma figura familiar no verso.

- O casamento é um triângulo - disse. - É forte e é estável. Empurre um lado e os outros dois o seguram. Funciona assim em domos geodésicos e funciona também na sociedade. Triângulos fazem lares fortes e estáveis.

O velho sermão soava novo na voz grave e tranqüilizadora de Nick. Enquanto ele prosseguia, Eve sentiu lágrimas novamente vindo-lhe aos olhos. Talvez devessem isto a elas mesmas e à sociedade: salvar o casamento e ajudar Maureen a superar a fase difícil. Ela mesma poderia se empenhar com mais afinco em conseguir uma promoção e Natalie certamente conseguiria algo grande cedo ou tarde. Então poderiam candidatar-se a ter crianças. Elas podiam fazê-lo. Podiam ser fortes e estáveis. Pôs o braço em volta dos dois ombros de Natalie.

- Lixo! - rosnou Natalie. - Compactado e tratado, mas ainda lixo!

Levantou-se, esvaziou o copo de Eve, afastou-se do bar. As pessoas olhavam fixamente para elas.

- E o indivíduo, e a busca da felicidade? - disse, desafiando Nick.

- Eve e eu nos amamos e queremos um lar, nós damos o que temos de melhor. Mas nós casamos muito cedo! Não somos as pessoas certas para Maureen e todo mundo sabe disto! Então deveríamos ficar juntas e vivermos miseravelmente pelo resto de nossas vidas? É esse o preço da estabilidade? - A voz tremia e ela ficou de perfil para eles.

- Talvez não entenda o preço do divórcio, moça!

Era o líder sindical na mesa de sushí, uma esposa de boa aparência, esguio e vestido de couro que havia continuado na mesa sozinho depois que os outros homens e mulheres haviam saído. Ele se dirigiu a Eve.

- Você e sua parceira deveriam pensar duas vezes antes de tentarem o divórcio. O Bureau Nacional de Relações Maritais acaba de julgar um caso semelhante em PhiIly. Pequenos atritos não são justificativa. Quebra de contrato evidente ou então nada feito. Além disto, aumentaram de novo as taxas de arbitramento.

Natalie recompôs-se em grande estilo.

- Agora que você já deu seu conselho sem ser requisitado, por que não volta a ser educado e termina o peixe?

Ele se levantou da mesa, apoiando os punhos na mesa, e inclinou-se na direção dela.

- Agora que você já se fez de idiota em público - disse, lentamente - por que não vai embora para casa e vive de acordo com seu contrato?

Natalie dirigiu-se a ele. Eve derrubou uma banqueta tentando impedir-lhe a passagem, todos se levantaram, houve gritaria e o som cortante de um tapa. Eve alcançou Natalie bem na hora em que Nick arremeteu-se através da multidão e confrontou a esposa.

- Dê o fora, moço.

- Tomando partido das destruidoras de lares? - O homem tocou a face no lugar onde as unhas de Natalie o haviam arranhado. - É melhor cuidar da sua licença.

- Fora!

Nick esperou que saísse e voltou-se para Natalie. O cabelo dela havia se soltado e estava soluçando, belíssima. Nick suspirou.

- Por aquele corredor, senhoras.

Enquanto passavam pelos curiosos, alguém aplaudiu, mas Eve não olhou em volta. Estava tremendo de excitação com as novas possibilidades. Sua vida estava mudando agora, esta noite. Estavam a ponto de cruzar uma fronteira, mas de quê?

Nick acomodou-as no seu pequeno escritório, trancou a porta e traçou algumas linhas sobre a tela da mesa com um dedo grosso. Natalie ainda enxugava os olhos quando a tela cintilou.

- Bem que eu achava - murmurou Nick. Apagou a tela e voltou-se para elas. - Ainda existe uma cláusula de imaturidade neste estado. Vocês podem pedir a anulação. Que idade vocês têm?

- Vinte e quatro - disse Eve. - Como descobriu tão rápido?

- É para isso que Deus criou o sistema de indexação por computador, doçura. Natalie?

Natalie limpou a garganta.

- Legalmente, trinta e um.

- O quê? - exclamou Eve. - Pensei que fosse da minha idade!

- Bem, para a minha carreira, eu sou. Desculpe, Evie. Qual é a cláusula, Nick? Nós estamos qualificadas?

- Eve, sim, por pouco. A cláusula permite a anulação com base em instabilidade emocional. Não é muito usada por causa das penalidades e é bem mais fácil ter sucesso se a esposa é quem inicia o processo. Alguma chance disso?

- Claro que não há nenhuma chance disso - disse Natalie. - Ela é louca por nós! Teremos de explicar que isto é para o seu próprio bem. E as penalidades?

- Novo casamento proibido por três anos - disse Nick, em tom neutro. - E vocês terão de manter a casa para demonstrar a seriedade das suas intenções. Maureen estaria livre para casar de novo ou viver numa casa de solteiros, mas vocês duas teriam que permanecer juntas.

- Claro que queremos permanecer juntas! - protestou Natalie, tocando na mão de Eve. - Mas nenhuma esposa por três anos? Quem vai cozinhar, planejar tudo, nos animar e...

- E fazer da casa um lar? - perguntou Nick, gentilmente. - Terão de fazê-lo vocês mesmas.

- Mas nós duas trabalhamos fora! É impossível!

- Talvez.

Nick virou-se para a mesa ao ouvir o chamado do intercomunicador.

- Mas parece ser a melhor possibilidade.

Apertou um botão e uma voz de mulher disse:

- Estamos com pouca gente, Nick, como você deve saber...

- Estou indo.

Sorriu para elas.

- Minha chefe. Por que não vão para casa agora, e discutem o assunto amanhã pela manhã? As coisas ficam mais claras quando o sol aparece.

Ele as deixou olhando uma para a outra.

- Não vejo como - disse Eve.

Levantou-se, endireitou os ombros e começou novamente.

- Nós poderíamos tentar, Nat. Você está certa, o preço da estabilidade é muito alto para nós. Eu amo Maureen, mas não está dando certo. Temos de mudar as coisas agora enquanto ainda podemos.

- Mas sem esposa - lamentou Natalie. - Sabe como fico temperamental quando estou em testes para um novo trabalho. Quem irá tomar conta de mim?

- Eu irei. E você tomará conta de mim. Venha, vamos para casa.

Acenaram para Nick ao saírem. O rapaz estava preparando martínis para um casal de genealogistas, mas parou um instante para fazer-lhes um sinal com o polegar indicando que estava tudo bem. Elas estavam quase do lado de fora quando uma mulher corpulenta coberta de peles bloqueou-lhes a passagem.

- Querida! - trombeteou a mulher, envolvendo Natalie num abraço de vison. - Querida! Você foi perfeita!

Natalie recuperou-se quase instantaneamente.

- Eve, esta é Martina Quinn, a produtora de holovisão. Eu, bem, não sabia que me conhecia.

- Eu a vi naquela pequena peça no último outono, minha cara, você estava péssima. Desde os seis anos de idade que você não é mais ingênua. Mas esta noite! Você foi perfeita. Diga-me, você virá fazer um teste comigo?

- Claro! - Natalie jogou o cabelo para trás e corou. - Sem dúvida. Qual papel?

- A PI no meu novo seriado, querida. Você não sabia que eu estava escolhendo os artistas?

- PI? - repetiu Eve. Sua cabeça doía, ela queria respirar ar fresco e dormir. Passava das quatro.

- Piranha intrigante - explicou Natalie reverentemente. - Você sabe, aquela mulher que está sempre armando intrigas e movimentando o enredo. Martina, você realmente acha...

- Você tem presença, querida. Você me liga amanhã?

- Certamente, obrigada. Muito obrigada!

Apertaram-se as mãos, as peles foram embora, Eve puxou Natalie para a rua e chamou um jinriquixá. Natalie subiu e mergulhou num monólogo que não cessou até que deixaram os desfiladeiros do centro da cidade e se dirigiram para os domos nas cercanias de onde moravam no lado leste.

- Que sorte ela me ver esta noite, e justamente com a roupa apropriada...

Eve prendeu um lenço sobre o cabelo e observou os puxadores de jinriquixá suando e sorrindo um para o outro.

- Presença - murmurou Natalie. - Ela disse que eu tenho presença...

Eve imaginava: se poderia ser uma puxadora de jinriquixá. Há anos que não fazia a maratona, mas ainda gostava de um trabalho de fundo.

- Eu poderia mudar o meu cabelo, mas acho que já é suficientemente original sem ser exibido...

Quem quer que houvesse primeiro pensado em combinar o vício da euforia da corrida com o espírito do capitalismo e o declínio do transporte público tinha sido um gênio. Uma corredora solteira, aquela seria a vida.

- Eu terei dias de trabalho longos, mas você pode fazer o trabalho das compras e da cozinha, não é, Evie? Vou precisar de auxílio com o meu guarda-roupa.. .

Uma corredora solitária, pensou Eve, ou uma contadora casada, com uma esposa maravilhosa e sensata para conversar quando o marido atriz estivesse alucinada e exaltando-se a si mesma. E era tão fácil conversar com Maureen. Ela tinha estado um tanto irritada ultimamente, mas quem não estaria com seus maridos fora a metade da noite? Eve pretendia de qualquer forma passar mais tempo em casa.

- Você tratará com os advogados, não é, Evie? Você é tão boa com papéis e coisas...

- Natalie!

- O quê?

- Vamos a pé o resto do caminho.

Eve pagou a corrida enquanto Natalie retirou o salto alto dos sapatos e reclamou.

- Isto só vai nos atrasar. Meu Deus, já é quase de manhã!

Estava amanhecendo. As luzes da rua se apagaram enquanto elas subiam a colina na direção de casa. Um vento morno agitava levemente os salgueiros. Eve olhou para eles enquanto explicava a Natalie que a anulação estava fora de questão.

- Mas você mesma disse que o casamento não estava funcionando! - O cabelo de Natalie curvava-se ao vento.

- Nós não estamos fazendo com que funcione. Vamos tentar com mais afinco, nós três.

- Talvez você esteja certa. - Natalie já se parecia com uma grande estrela, procurando manter-se à altura da situação. - Tenho andado tão preocupada com a minha carreira que mal tenho podido pensar. Mas agora Maureen se sentirá orgulhosa de mim e nós três nos divertiremos muito...

Marcharam adiante de braço dado, companheiras de ressaca. Ela se sentirá orgulhosa, Eve pensou. É uma boa esposa e tomaremos conta dela muito melhor de agora em diante.

Tinham chegado à cerca de lilases de Maureen antes que Eve se desse conta de que algo estava errado. Todas as janelas do domo principal estavam abertas, mas nenhuma luz estava acesa. Alguém havia deixado o chafariz ligado. Havia um bilhete pregado na porta da frente.

Natalie deteve-se subitamente.

- Ela não iria...

Eve empurrou-a e correu aos tropeções para a porta, mas parou no portal com as mãos abaixadas. O bilhete agitava-se com o último sopro do vento da noite mas ela não tinha forças para segurá-lo e ler o que estava escrito.

Autor: Deborah Wessell (tradução de Paulo Rangel Rios)
Fonte: WESSEL, Deborah. O último a saber. Isaac Asimov Magazine, Rio de Janeiro, n.4, p. 54-62.

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.