MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

DA SENSUALIDADE DA LEITURA

Dependendo do que escrevo, muitos pensam: “Esse cara é um louco”. É verdade, mas prefiro me autodenominar de maluco, “maluco beleza”, ou seja, não tenho aquela velha opinião formada sobre tudo. Como eu (e tantos outros) a Biblioteconomia também deve ser “um maluco beleza”, deve se despojar das velhas opiniões e se aventurar por novas trilhas, e mergulhar em novos oceanos.

 

Há um tempo atrás, um livro gerado no âmbito acadêmico teve sua edição financiada por uma editora de revistas e vídeos pornográficos.

 

Independentemente de quem o editou, lembro que comprei o tal livro. Como não recordo nem mesmo de seu título (e um breve browsing por minhas estantes não me ajudou a localizá-lo e relembrá-lo) é certo que ele me “disse” pouco ou quase nada. Pensando bem, nem mesmo sei se o li.

 

Pensando melhor, talvez o fato do livro ter sido publicado sob o patrocínio de uma editora pornográfica tenha, mesmo que um pouco, contribuído para a troca entre parte dos meus parcos recursos e um punhado de páginas manchadas de letras e símbolos.

 

Uma certa amiga me disse que, lendo, era tal seu envolvimento, tão grande seu êxtase, tão inebriada ficava ela que esse momento poderia ser comparado a um orgasmo. E prolongado (talvez múltiplo). Como essa amiga, muitas pessoas, com certeza, envolvem-se, relacionam-se com a leitura dessa mesma maneira. Talvez existam alguns que vão mais longe: apaixonam-se pelo livro enquanto objeto, enquanto forma ou veem-se, narcisisticamente, refletidos no livro. Acariciam capa e lombada (epa!); abrem lentamente suas páginas; aspiram, inebriados, o perfume que o livro exala. Há uma tal sensualidade nisso que é impossível deixar de reconhecê-la.

 

Além do óbvio fetiche, do claro erotismo que sua, transpira e transparece dessa situação, talvez exista, embora ainda velado, um novo tipo de sexo: o leitural.

 

Importa pouco o conteúdo. Um livro de ficção nos leva, oniricamente, por situações e momentos que, provavelmente, nunca vivenciaríamos. A revista que a tal editora publica, traz fotos (melhoradas, retocadas) de mulheres e homens (estes em menor quantidade) que, de acordo com as preferências pessoais, estão longe do alcance dos comuns dos mortais, povoando apenas seus imaginários e satisfazendo uma pequena parte de suas curiosidades. Os livros também oferecem palavras (com seus significados desnudos, mas retocados, alterados com fotoshop, em posições adequadas ou inadequadas entre outras palavras parceiras) para o prazer do leitor. Em uma rápida busca na literatura sobre leitura, encontramos o entendimento dela como hábito, mas em grande medida, e hoje cada vez com mais intensidade, também com o entendimento de gosto e prazer. As letras têm fontes elaboradas para que as pessoas se relacionem melhor com elas, sintam-se mais à vontade com a leitura, enquanto estão prazerosamente deitados – alguns languidamente deitados. A cor preta da tinta pode se perder em vários tons de cinza.

 

A leitura pode ser solitária, mas é agradável quando feita a dois, três, até em saraus (sarau, oba!).

 

Os textos técnicos, por sua vez, também trazem a busca frenética, ansiosa e inalcançável do conhecimento, pois é ele, conhecimento, infinito e, portanto, a exemplo das mulheres e homens fotografados e expostos nas revistas, inatingível. O desconhecido, através dos livros, vai sendo desvelado, despido, desnudado; faz-se nú ante nossos olhos. Não o apalpamos nem bolinamos, mas o sentimos. Como no sexo, a busca do conhecimento depende do externo, mas o resultado é único, individual, solitário (não confundir com sexo solitário que é outra coisa).

 

Livro e libido começam com a mesma sílaba e apesar de diferentes, terminam com a mesma letra.

 

Há, sim, algo de sensual, de erótico, talvez até de pornográfico, tanto na leitura como na busca do conhecimento. O leitor quer ter o conhecimento em si, dentro dele; o autor quer se ter nos outros. Como autor, quero me ter nos outros (desculpe, não resisti).

 

Em tempos de propostas ridículas como a “escola sem partido”, talvez a concepção que prevaleça nesses espaços seja a de uma leitura assexuada, de orgasmos fingidos para conseguir uma boa nota, de textos cobertos com tarjas pretas para esconder suas “partes pudendas” – e livros as têm, isso é certo.

 

Freud explica (ou, quem sabe, Lacan).


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.