MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

BIBLIOTECÁRIO: PROFISSIONAL VOLTADO PARA SEU PRÓPRIO QUINTAL, PARA SEU PRÓPRIO UMBIGO

No dia 12 de março, que neste ano foi uma segunda feira, comemoramos o dia do Bibliotecário. Todos os anos várias são as atividades programadas por associações, entidades e bibliotecas por todo o Brasil. Agora, 2018, não foi diferente, ou seja, inúmeras atividades, vários eventos foram realizados.

Uma constatação: a maioria das temáticas escolhidas diziam respeito ao próprio fazer do bibliotecário.

Participei como diretor de várias entidades da área. Sempre que pude, fiz parte como membro associado delas, mesmo que não atuando formalmente na diretoria. A exemplo do que ocorre hoje, as entidades de que participava também organizavam eventos comemorativos, sobretudo no dia do Bibliotecário. Nessas e em outras oportunidades, quando o tema escolhido se referia ao fazer do profissional ou a segmentos desse fazer, o número de participantes era, digamos, razoável, mas certamente maior do que nos eventos em que o tema tinha como norte algo vinculado ao profissional ou quanto a sua relação com a sociedade.

Eventos em que se abordava o salário, condições de trabalho, mercado de trabalho etc., sempre atraiam um pequeno número de participantes. O mesmo ocorria quando discutíamos nossa responsabilidade profissional perante a sociedade e aos nossos usuários. A quantidade de participantes também era pequena. Em outros momentos em que o tema estava voltado para posições da classe bibliotecária ante ações do governo relativas à nossa matéria prima e aos nossos – e de toda a sociedade – interesses profissionais, a sala em que o evento ocorria ficava praticamente vazia.

O que expus acima traduz uma situação vivida, em especial, no final dos anos 1980 e durante os anos 1990. Hoje, infelizmente, parece que nada foi alterado.

O bibliotecário vive em seu próprio mundo, voltado para seu próprio quintal, seu próprio umbigo.

Muitos dizem: a sociedade não nos conhece, não sabe o que podemos fazer, quais são os nossos fazeres.

De fato, a sociedade não sabe e nem saberá, da mesma forma que os bibliotecários nada sabem, nem saberão, a seguir assim, sobre a sociedade.

Voltar-se para si mesmo, esquecendo-se do que ocorre em volta, da vida em seu entorno, é característica dos conservadores que, por sua vez, é característica dos bibliotecários. Só para deixar mais claro: estou dizendo que os bibliotecários são conservadores e estão voltados para si mesmos, para seus próprios problemas. Nem todos, claro, mas um número que considero excessivamente grande.

Historicamente, tudo o que ocorreu nas áreas política, econômica, social, cultural, educacional etc., relacionadas com os interesses de trabalho do bibliotecário, como a informação, a leitura, o livro, entre outras, foram, com raras exceções, de pouca preocupação dos profissionais que atuam nessa área. Na ditadura militar, naqueles terríveis vinte e cinco anos – que parece não terem terminado – o bibliotecário ficou quieto, amuado, cabisbaixo, não se posicionou contra a censura política, social, educacional, artística; não se posicionou contra a prioridade na partilha de verbas para as bibliotecas especializadas; não ficou contrário a políticas públicas que relegavam, ou melhor, esqueciam sumariamente as bibliotecas públicas e escolares; não se fez presente nos movimentos que lutavam contra o controle do trabalho pedagógico das escolas, dos professores, das bibliotecas e dos próprios bibliotecários, uma vez que não só suas ações eram tolhidas como a construção do acervo passava por crivo rigoroso dos órgãos censores. 

Em muitos casos, a programação dos eventos comemorativos do Dia do Bibliotecário deixa clara a posição de isolamento do profissional ante a sociedade. Os temas voltam-se para as ações que o bibliotecário desenvolve nos seus espaços de atuação e de trabalho.

Só para reforçar uma ideia que defendo há tempos: o bibliotecário não é um sacerdote do saber; o bibliotecário é um trabalhador assalariado e como tal não deve se considerar acima das intempéries mundanas; além dos problemas de sobrevivência. O bibliotecário, como trabalhador que é, deve lutar por melhores salários, melhores condições de trabalho, por uma aposentadoria que lhe permita uma vida digna.

Pensar dessa forma não significa defender um egoísmo tolo, significa, ao contrário, defender sua condição de cidadão, sim, mas defender também a condição de cidadão de todos que pertencem ou não à comunidade atendida por uma biblioteca. Ser cidadão implica, necessariamente, em que o outro também seja cidadão. É uma impossibilidade ser cidadão sozinho.

Nossa condição de profissional pressupõe uma responsabilidade social em relação ao nosso trabalho. A sociedade nos possibilitou o acesso a uma universidade e a uma profissão qualificada que, ao menos em tese, nos propicia um salário melhor. Devemos um retorno a ela na forma da consciência de nossa responsabilidade como profissionais e de ações e posturas éticas.

Muitas vezes, no entanto, nossa preocupação está voltada apenas a nossos interesses. A biblioteca escolar, por exemplo, é vista por boa parte dos profissionais, apenas como espaço de trabalho. Lutam desesperadamente pelo mercado de trabalho e não pela biblioteca escolar. Os bibliotecários devem pensar a biblioteca escolar como um espaço de aprendizagem, como um equipamento informacional, como a oportunidade de aplicação de seus conhecimentos, de suas habilidades, de suas competências, como o momento de concretizar suas responsabilidades sociais, antes de um segmento do mercado de trabalho tão somente.

No caso da biblioteca pública, o bibliotecário deve pensa-la como um espaço de resistência informacional, lugar em que se oferece o contraponto das informações comerciais, oriundas das grandes mídias, dos grandes conglomerados midiáticos. Biblioteca pública não é apenas um espaço de trabalho do bibliotecário, nem mesmo um local bonito, aconchegante, mas que reproduz as informações de interesse dos que não querem mudanças na situação atual. A biblioteca pública é um espaço, repito, de resistência informacional.

Vamos nos libertar das coisas que nos prendem. Vamos utilizar técnicas, mas não como fim último de nossos fazeres, não como nosso principal objeto, objetivo de nossa profissão, de nossa área. O grito deve ser por liberdade. A Biblioteconomia é transformadora, assim como o é o bibliotecário e a biblioteca. Não vamos nos prender a um conservadorismo egoísta, voltado para nossas próprias ações, nossos próprios, mesquinhos, interesses. Chega de disseminar e preservar unicamente o que é fruto dos interesses de uma minoria. A bandeira que se empunha deve ser aquela que está voltada para os pobres de informação – que também são pobres de alimentos, de saúde, de educação, de empregos, de saneamento básico, de moradia...


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.