MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

A LEITURA: AÇÃO CONSCIENTE E AÇÃO INCONSCIENTE

A leitura é uma ação do ser humano que se realiza de maneira consciente. No entanto, nela está inclusa uma ação inconsciente.

 

Para ser mais exato, a leitura não é uma ação, mas um processo, uma vez que não começa, se esgota e termina em um momento. A leitura exige outras ações, como a criação ou exteriorização de ideias, concepções, valores, modos de ver e explicar o mundo de alguém que chamamos autor; o espaço em que é realizada a leitura; os mediadores (tanto os que possibilitam a efetivação do suporte físico, como os que viabilizam a relação entre o texto e o leitor); o momento em que ocorre e, lógico, o leitor.

 

O autor, quando exterioriza suas ideias, o faz a partir de todas as leituras e reflexões realizadas por ele até aquele momento. Além disso, ele expõe parte dessas ideias, aquelas que, para ele, estão mais elaboradas, que possuem uma estrutura, que têm coerência, que possibilitam um entendimento. As reflexões ainda em construção aguardam um outro momento, embora interfiram no que está sendo exteriorizado. No texto final - e neste caso estamos nos atendo ao suporte livro - não estarão apenas aquilo que ele, autor, pretendeu partilhar. Muito do seu inconsciente,  muitas de suas verdades estarão, mesmo contra seu desejo, presentes no texto final. Não há controle sobre isso. Quando escrevemos, nos expomos; abrimos o que somos. As entrelinhas contêm, parte das vezes de maneira clara, o que tentamos escamotear. É possível até que as entrelinhas exponham maneiras de pensar opostas às explicitadas no texto. A escolha de determinadas palavras, espaços maiores ou menores para explicar algum aspecto do que está sendo discutido, o vínculo com o pensamento de alguns autores, etc., fornecem formas de entendimento que estão além do texto. Buscar as entrelinhas, alcançar o texto escamoteado inconscientemente pelo autor, além, é claro, da procura pelo entendimento da intencionalidade desse autor, formam, entre outros, a leitura.

 

As editoras e livrarias estão, evidentemente, preocupadas com a leitura, uma vez que esta sustenta sua existência. Apesar disso, têm elas outros interesses, muitos motivados pela necessidade de sobrevivência. As vendas que lhes permitem cobrir despesas e mantê-las vivas, terminam por direcionar suas ações, não especificamente para o conteúdo dos materiais editados e comercializados, mas para a aceitação de determinados textos pelo público. Isso resulta, quando observamos os aspectos de veiculação e circulação de livros, em interferências na leitura.

 

O espaço em que se dá a leitura também é um ponto de influência na leitura. A casa do leitor; a biblioteca; a escola; o transporte, em especial o público; a livraria; o sofá; a cama; o bar; o restaurante; a fila do banco, enfim, os inúmeros locais em que é possível ler, de uma ou outra forma propiciam uma relação do leitor com o texto que pode alterar a recepção. Um local iluminado, bem ventilado, confortável, etc., pode resultar em uma simpatia, em um prazer que outro lugar não propiciaria.

 

O suporte - e vamos lidar apenas com o livro neste momento - exige maiores ou menores esforços para a apropriação do conteúdo de uma obra. Uma mancha de leitura ampla, com pouco espaço de margem; o tamanho da fonte pequena; o espaço entre as linhas muito curto; a qualidade da impressão; a cor do papel (muito ou pouco luminoso); a gramatura do papel; todos esses aspectos, em um livro, determinam esforços para a leitura.

 

Os mediadores também influenciam, e muito, no processo de leitura. Muitas das recordações que temos de leituras passadas, têm vínculos com mediadores. Os pais deitados ou acomodados ao lado da cama, lendo para seus filhos; os professores em sala de aula; fomentadores e animadores de leitura em espaços específicos ou públicos; os bibliotecários nas bibliotecas e nas escolas; em suma, todos os possíveis mediadores de leitura, interferem na relação dos leitores com os suportes de leitura.

 

Por último, e apenas porque estão, aparentemente, em uma das pontas do processo, o leitor. A leitura que realiza em um determinado momento não acontece isoladamente, como um recorte de tempo; ela está vinculada às verdades do leitor, às concepções, ideias, valores, modos de ver, entender e explicar o mundo. A leitura exige a presença de todo o leitor, de toda sua história de vida; ela pede que os interesses imediatos, frutos do conhecimento do leitor e do mundo, se apresentem; ela obriga o leitor a se transformar em co-autor.

 

É importante alertar para o fato de que o leitor não tem o poder de controlar as informações que recebe, muitas são apropriadas de maneira não consciente. Da mesma maneira, a aceitação de determinadas verdades, valores, concepções, etc., fazem parte do que podemos chamar de leitura inconsciente.

 

Cada um dos itens indicados como influenciadores da leitura merecem discussões específicas. Vamos desenvolvê-las nos próximos textos.

 


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.