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BLOCKCHAIN E AS TRANSAÇÕES DE BIBLIOTECA

No âmbito do comércio eletrônico e das transações financeiras em ambiente digital, impactadas pela moeda virtual bitcoin (ativo digital e sistema de pagamento público), desponta o blockchain. Trata-se de um sistema para armazenamento e fluxo de dados que registra o processo de transação ou intercâmbio, com a inclusão de marcações ou assinatura digital que garanta autenticidade e integridade das informações.

No momento em que cresce, nos serviços bibliotecários, os procedimentos transacionais com os usuários, em ambiente digital, também emergem questões relacionadas como a segurança dos dados transacionados, bem como a privacidade dos próprios usuários, e que passam a ser preocupação dos gestores bibliotecários.

Até mesmo o modelo ou modelos de negócio utilizados na comercialização de e-books, é um exemplo de transação que pode ser financeira ou de acesso ao recurso, entre a biblioteca e os editores ou agregadores; e entre a biblioteca e os seus usuários. Procedimentos que requerem adoção de algum grau de segurança nas transações realizadas.

Segundo especialistas no assunto, os sistemas de trocas comerciais envolvem a transferência de ativos tangíveis e intangíveis. São transações que sob determinadas condições denominam-se de contratos. À medida que as redes de negócios se sofisticaram, passou a ser necessário que se anotassem essas transações de forma eficiente e segura.

As agências financeiras e aquelas aderentes ao bitcoin concordam que o blockchain é uma das descobertas mais importantes, na atualidade. A capacidade de armazenar e inserir marcas, em todos os tipos de dados, de uma forma que não se possa apagar, alterar e editar é mais útil do que se imagina.

Nos acostumamos à forma com a qual os dados de computador podem ser copiados, editados, censurados e apagados, dependendo de suas configurações de permissão. O blockchain muda drasticamente esses conceitos, possibilitando a criação dos primeiros ativos digitais. Uma mudança fundamental na forma em que os dados funcionam e que parece estranha e de difícil compreensão para a maioria das pessoas.

Em 2008, com o advento da moeda virtual, surge o blockchain como um conceito inovador, com arquitetura baseada em base de dados distribuída, peer-to-peer, que só aceita operações append (inserção no final) de blocos de informações criptografadas de transações, sendo que cada bloco contém também um hash (operação sobre um conjunto de dados que retorna um valor conciso) do bloco de informações. Cada operação de append só é confirmada após o consenso entre os nós participantes (computadores conectados em rede) do processo transacional estabelecido e que formam uma cadeia de blocos de informação. Todo o sistema é, portanto, interligado o que torna praticamente impossível excluir ou alterar uma informação.

Certamente, não se poderia prever que o surgimento da Internet comercial, em meados dos anos de 1990, iria favorecer tecnologias como, por exemplo, a do smartphone, que nos possibilita praticamente tudo em termos de comunicação e acesso a informação.

Assim, se o blockchain rastreia a atividade do bitcoin, também pode rastrear outros tipos de dados, como dados bibliográficos. Desta maneira a biblioteca poderia criar uma rede de informação confiável, na qual os seus usuários poderiam compartilhar informações livremente, sendo que apenas eles teriam acesso, e as informações registradas ou outras não poderiam ser alteradas.

O blockchain reúne características que valorizam sua importância como privacidade, inviolabilidade, irrefutabilidade e auditabilidade de qualquer transação, além do benefício inerente de prover um único ledger (identificador da transação) acessível a todos os participantes no processo de transação. Características significativas aos serviços bibliotecários em meio digital.

As propriedades tipicamente encontradas nas novas versões deste recurso incluem níveis de permissão (para uso em redes fechadas ou intranet) e contratos inteligentes (programas associando transações que deflagram, automaticamente, ações quando determinadas condições são satisfeitas, como, por exemplo, transferência de dinheiro contra recebimento de mercadoria).

Em realidade o recurso insere-se em vários projetos em andamento, apesar da existência de poucos sistemas com essa tecnologia implementada, além do bitcoin. Um exemplo, nesse sentido, foi o anúncio da Linux Foundation do projeto Open Source de Blockchain, em dezembro de 2015, chamado Hyperledger. Neste projeto, a IBM foi uma das signatárias entre 40 outras empresas participantes.

A maneira como os negócios se realizam tende a mudar. Assiste-se um novo tipo de plataforma que deve substituir todas as formas conhecidas de intercâmbio de valores. Além dos serviços financeiros, o blockchain começa a ser aplicado nas áreas de mídia e telecomunicações. Para as empresas de mídia, em particular, a tecnologia apresenta novos métodos de cobrança dos clientes, por conteúdo, bem como começam a explorar o potencial do recurso para a gestão dos direitos digitais. Empresas de turismo (viagens e hotelaria) também começam a adotar o blockchain para simplificar a quitação de contas e apoiar programas de fidelidade.

Ademais, no uso do blockchain, percebeu-se que o recurso poderia revolucionar processos industriais, além do funcionamento de um sistema de custódia, cadeias de suprimentos, serviços de cartórios e processos eleitorais.

Com certeza, há um longo caminho a percorrer no uso e exploração desta tecnologia. No caso da aplicação, em bibliotecas, existem ainda um conjunto de tecnologias que precisam amadurecer; além das dificuldades que as bibliotecas enfrentariam para integrar o blockchain aos seus atuais sistemas de gestão, aliada a ausência de uma regulação que entenda e absorva o poder disruptivo desta tecnologia. O recurso não é e nem será a única solução de segurança na transação de informações para as bibliotecas, é apenas mais uma alternativa que pode ser explorada.

Neste contexto, relaciona-se algumas empresas e aplicativos que inovam na utilização do blockchain fora do contexto da aplicação financeira:

Ascribe (área das Artes): permite aos artistas reivindicar a propriedade intelectual de suas criações, e emitir impressões numeradas de edição limitada de todo tipo de obra de arte comercializada em formato digital com o blockchain. Inclui um modelo de negócio para compra e venda de arte eliminando a necessidade de caução.

BitProof (área jurídica): aplicativo para marcação de data/hora nos documentos e que tornam os cartórios obsoletos. Embora existam versões gratuitas: Blocksign e o OriginStamp; o BitProof oferece mais serviços, como proteção da propriedade intelectual. Uma aplicação recente do recurso é a desenvolvida pela Holberton School de São Francisco, EUA, para colocar seus certificados acadêmicos sob o blockchain.

UProov (área Jurídica e Mídia): recurso orientado para o registro e comprovação da autenticidade de fotos e vídeos. O aplicativo gera uma chave com marcação de data/hora, e qualquer alteração num pixel da imagem, para a chave não corresponder.

Colu (área de desenvolvimento): uma empresa que permite a outras empresas emitirem ativos digitais; e a variedade de ativos que eles podem “codificar” é variado. Embora a Counterparty já permita a emissão e a negociação de códigos simples entre donos de bitecon, os códigos Colu podem ser efetuados de todas as formas e tamanhos. Desenvolvedores com pouco ou nenhum conhecimento sobre Bitcoin podem emitir e gerenciar ativos digitais para várias utilizações, desde o setor financeiro (participações, títulos, ações), registros (certificados, direitos autorais, documentos) e até propriedade (ingresso de eventos, vouchers e cartões de presente).

Warranteer (área de Varejo, Seguros): utiliza a plataforma Colu para fornecer garantias de seus produtos, mantendo atualização e facilidade de transferência; e as garantias eletrônicas na era digital.

Everledger (área de Seguros e Diamantes): realiza acompanhamento do fluxo do comércio de diamantes, desde a extração até o consumidor final. O processo resolve alguns problemas inerentes ao ramo de seguros como geração de economia de mais de 300 milhões de libras por ano para as seguradoras com a detecção de fraudes de seguro.

Filament (área da Internet das Coisas – IoT): faz uso de dispositivos de hardware para colocar todos os tipos de eletrônicos, especialmente equipamentos, no blockchain, criando uma Internet das Coisas para uma área local.

Genecoin (área de medicina, genealogia): permite realizar backup do próprio DNA ao colocar uma cópia do genoma no blockchain. Apesar das conotações de ficção científica, há aplicações médicas para manter o próprio perfil de DNA acessível.

Provenance (área de Varejo): registra os detalhes dos acontecimentos na cadeia de suprimento de varejo mundial via blockchain; e torna essas informações pesquisáveis em tempo real para os consumidores. Exemplo, escanear o código QR de um atum, no supermercado, e saber onde o peixe foi pescado, quem o certificou, onde foi enlatado etc.

Wave (área de Importação/Exportação): empresa orientada para a cadeia de fornecimento mundial e, especificamente, para o problema com documentos de importação conhecidos como “conhecimentos de embarque”. Conectam todos os membros de uma cadeia de fornecimento ao blockchain, o qual possibilita uma troca direta de documentos, solucionando o maior problema do setor de remessas.

IBREA (área Imobiliária): a Associação Imobiliária Internacional do Bitcoin (em inglês, IBREA) não é uma empresa, mas um grupo de ativismo que busca educar e promover os usos imobiliários do blockchain e do bitcoin. Intenta modernizar o ramo imobiliário com a realização de pagamentos, cauções e escriturações no blockchain.

Fontes:

https://goo.gl/BQfC6g

www.bitcoinnews.com.br

https://goo.gl/aW3sve


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.