CAFÉ COM PÓS


CONVIDADOS CAFÉ COM PÓS 2 – JULIANA CARDOSO DOS SANTOS: DIGA-ME COM QUEM VENTRES – GRAVIDEZ NA PÓS-GRADUAÇÃO

As pessoas muitas vezes não têm consciência do impacto do que nos dizem. Os pobres estudantes de pós, com suas inseguranças, medos, incertezas... Um simples comentário maldoso te tira a paz, a concentração, a motivação. O oposto, por sua vez, também é possível: um comentário de aceitação, compreensão, empatia, pode nos trazer a tranquilidade ou o combustível necessário para continuar.

Nós, mulheres, temos nesse trajeto de dedicação ao desenvolvimento de uma dissertação ou tese, algumas aflições bônus. Uma dessas aflições é o “perigo” de ser mãe. Eis aí uma grande aflição – é gente que acha lindo, é gente que acha loucura, é gente por todo lado para opinar, e pouca gente para lembrar que, infelizmente, isso dificilmente estará sobre nosso completo controle.

Planos e métodos contraceptivos falham, assim como a natureza humana se faz presente e, atrelada a estresse e muitos outros fatores sociais, físicos e culturais (todos conscientes ou não), a gravidez pode ocorrer.

Há também o problema (absurdo) de falta de liberdade de escolha. Ser ou não mãe devia ser uma escolha tranquila, mas vem carregada de “invasores”, que acreditam que seu exemplo ou opinião fala por todas. Tente convencer uma orgulhosa e feliz mãe de que nem toda mulher quer essa experiência... Parece algo incompreensível para alguns, como se o ser mulher obrigatoriamente carregasse esse aspecto como necessário, o famoso discurso machista de que se é mulher quando se tem um filho, e nem me delongo aqui nesse absurdo, que já me dói a mente só por repeti-lo. Se escolhe ser mãe, vem então a carga emocional de ter que lidar com todas as recomendações, relatos de frustrações, e questionamentos sobre a sua vida a partir daí. 

Me lembro de uma reunião de orientação onde o tema veio a discussão. Não sei qual era o contexto nem as palavras exatas de meu orientador, mas me lembro da sensação quando ele se manifestou de maneira tão calma e natural, dizendo de que a gravidez não era um problema, e que era possível lidar com isso na pós-graduação, caso necessário. Eu não estava grávida nem tinha a intenção de engravidar naquele momento, e embora sua posição não mudasse isso, me deu uma paz muito grande saber que ele me apoiaria, se eu precisasse. Infelizmente, ouvi (e ouço) nesses anos de pós-graduação muitos relatos diferentes, onde os comentários de orientadores e colegas contribuem para que esse assunto continue sendo um problema para nós mulheres, uma culpa, um fardo.

Bom, eu nunca tive filhos e, assim, passo a “caneca” para uma convidada muito especial, a aluna do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Unesp de Marília, Juliana Cardoso dos Santos, que nos contará um pouco sobre sua experiência sendo mãe de gêmeos durante o curso de seu doutorado:

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Gravidez e Pós-graduação: não combinam, mas ainda não me matou.

Preconceito, tabu

Estou grávida! Mas como assim, impossível, no meio do Doutorado? mas... e as disciplinas? e as atividades complementares? e o Doutorado sanduiche? e a seu(sua) orientador(a), e a carreira, marido, família? Desculpe, havia esquecido: parabéns pela sua gravidez. Serão gêmeos?! Que pena que vai ter que desistir do Doutorado...

O preconceito é um desafio a se conciliar quando os assuntos são Pós-graduação e Maternidade. Muitos nos julgam irresponsáveis, incapazes. Será? Gravidez não é uma doença e sim uma dádiva, porém pede dedicação exclusiva que se confronta com a dedicação exclusiva exigida pela Pós-graduação, temos até o hábito de dizer que quando entregamos a dissertação ou tese acabamos de parir um filho!

Muitas são as indagações e julgamentos alheios a sua vontade, projetos, desejos, expectativas. Planos são antecipados, alterados ou até desfeitos durante a jornada, e abrir mão de algumas coisas faz parte do processo. Não podemos nos comparar aos alunos que não estão neste “estado” e devemos ter consciência de que questões físicas, psíquicas, sociais, econômicas se alteram durante o processo que é cíclico cabendo a grávida/mãe e doutoranda duas opções: ou você se vitimiza – senta e chora, ou segue em frente e encara os desafios que são muitos.

Se me pedirem um conselho, sou enfática em dizer, NÃO, não fique grávida durante o processo de Pós-graduação, pois se ele é complexo, com a gravidez vai atingir um grau de complexidade ainda maior imposta pelo seu estado materno.

Muitas vezes a vontade é de desistir, literalmente, “chutar o balde” porque ser mãe de uma criança dá trabalho, mas se são duas, é enlouquecedor; principalmente se você não tiver mais vinte anos. Sim, a idade física também pesa neste processo, pois são noites mal dormidas, alimentação irregular, dores que você nunca imaginou que poderia existir, além da guerra que você travará com você mesma. Eu sou a minha maior algoz.

Crianças choram, a Pós-graduação exige leitura e concentração, crianças sentem cólicas, a Pós-graduação exige reflexão e construção de conceitos.

O processo da Pós é desgastante, pois seu foco e exigência estão nas publicações, participação em eventos, apresentações de trabalhos, grupos de pesquisa/estudo, construção da tese. Na maternidade tudo isso fica ainda mais complexo, pois em que tempo farei tudo isso se tenho que amamentar, dar banho, levar nas consultas de rotina etc.? 

Você se programa para escrever um parágrafo no sono dos bebês, mas um dorme e outro acorda, parece que não colaboram (bebês não devem colaborar mesmo!), e quando colaboram você está esgotada e desmaia junto. Você tinha uma independência de locomoção, horários, hábitos e agora é totalmente dependente das necessidades dos bebês.

Ao cursar a Pós concomitantemente com o exercício da maternidade é necessária uma reorganização, suas prioridades mudam, mas seu foco e comprometimento não. Você assumiu compromissos, pessoas confiaram em você e te deram uma oportunidade, que só uma minoria tem.

Pressão por produtividade, ausência de lazer, auto exigência, sofrimento psíquico pelo misto de medo e culpa, assédio e questionamento da sua capacidade, dificuldade de concentração fazem parte da rotina, mas cabe a você escolher se isso te incentiva ou desmotiva.

Cobranças e sensação de “podia e devia ter feito mais” são constantes, pois como conciliar a existência materna e acadêmica? Não posso estar presente em todos os momentos, mas não vou abrir mão nem de ser mãe e nem de finalizar a Pós.

Ou seja, não tenho respostas, tenho questionamentos. Estou sobrevivendo e tenho certeza que terei êxito e orgulho de finalizar o processo da Pós e continuar sendo mãe.

Filhos não são nossos, mas dependem de nós e na minha opinião aprendem com exemplos, por isso, posso tropeçar, cair, esmorecer, esbravejar que não darei conta, pois é humanamente impossível, porém não vou desistir.

Juliana Cardoso dos Santos – 17.02.2018.


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HELOÁ OLIVEIRA-DELMASSA

Doutoranda em Ciência da Informação na Unesp - Marília, Mestra em Ciência da Informação pela Unesp - Marília e Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual de Londrina.