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AI! AI! BIBLIOTECÁRIO, ATENÇÃO!

- Máquinas pensam, emulam ou processam? 

- Depende da quantidade de voltagem na tomada. 

A piada é sem graça, concordo. Ainda mais contada por um bibliotecário como eu. Não provoca nenhum ponto de acesso de riso nos lábios do leitor. Entretanto, se for contada por informáticos, certamente o algoritmo provocará uma lógica risonha. Mas você pode ou não gostar, afinal é humano.

Máquinas, em verdade, não têm senso de humor, apesar da “artificial intelligence – AI”. Conforme a complexidade de lógica, precisam consumir energia, quanto mais energia, mais poder de processamento. Pensar, portanto, consome energia e não pensar, só letargia. Contar piadas para máquinas é letargia, além de não ter lógica alguma.

Entretanto, dizer que máquinas pensam é desmerecer o ser humano, assim ao se abordar o tema da inteligência artificial, não se pode esquecer que há muito de fantasia, outros tantos de ficção e de realidade imaginária. 

Máquinas como apresentada em filmes: “Exterminador do Futuro”, “Eu Robôt”, “Blade Runner”, ou “2001 uma Odisséia no Espaço”, dentre outros filmes clássicos, estão ainda longe de ocorrer, ao menos a médio prazo, para a sobrevivência dos empregos e da espécie humana e, em especial, de nós bibliotecários (para lembrar que o futuro só acontece amanhã).

Para quem costuma pescar news na web (não fake news), é comum deparar com textos sobre as tecnologias computacionais, AI, robôs etc., impregnados de presságios sobre o final dos tempos. Para nós, bibliotecários, é recomendável um banho com sal grosso, diante dos vaticínios da nossa extinção. Chega-se ao ponto de a qualquer momento se apelar às entidades internacionais dedicadas à preservação do meio ambiente, que olhem pela extinção dos bibliotecários. Esquecem, os “videntes”, que toda e qualquer profissão existente é e será afetada pelas inovações tecnológicas.

Há, também, textos que tratam do potencial da Inteligência Artificial como algo benéfico ao desenvolvimento humano, embora outros textos destaquem os benefícios do desenvolvimento econômico e industrial. Afinal, tudo no fundo se resume a uma questão financeira. 

Esta ênfase no potencial, é constatável em uma simples pesquisa no onipresente Google e revela as formas pelas quais tudo e todos estão sendo e serão afetados por estas inovações.

A percepção, nestes diversos cenários de certezas e incertezas sobre AI, é a de ser solução para todos os problemas conhecidos e desconhecidos pelo homem. O consenso, até entre bibliotecários, é que a inteligência artificial tem ganhado força desde que o campo da “aprendizagem de máquinas” começou a ser estudado, a partir da década de 1950.

De qualquer forma, pareado aos resultados gerado pelo Google, sobre como a AI irá reformular o mundo que conhecemos, há igualmente postagens salientando as implicações da extinção de empregos. Neste aspecto, será que podemos confiar na AI? Afinal, à medida que as habilidades desta ferramenta se expandem para atividades como: dirigir, ler radiografias, diagnosticar doenças e realizar trabalhos relacionados a área jurídica, milhões de empregos podem ser perdidos. Previsões recentes de especialistas, neste sentido, variaram de 6% até 2021 a 50% até 2035.

Cabe ressaltar o posicionamento de Elon Musk, CEO da Tesla, que solicitou a regulamentação da AI, até pela sua possível "ameaça existencial" da humanidade. Apesar da manifestação catastrófica, não se pode esquecer que seus carros autômatos ao eliminarem a função humana de dirigir, irão certamente causar desemprego também. 

Porém, a AI está no começo das possibilidades, e não há nada a ser feito ainda. Portanto, o que se tem são previsões, debates e questionamentos. Esses são o tipo de coisa que emerge, mesmo entre bibliotecários, ao tratar do tema e o seu reflexo na atividade humana. Bibliotecários questionam sobre o que existe de modismo ou propaganda? O que há de real ou especulação, nesse assunto? 

Observa-se uma tendência humana em buscar por respostas sobre o que não é plenamente conhecido. Respostas sobre tecnologia ainda em desenvolvimento. Respostas sobre como ela impactará o mundo do trabalho e, portanto, nossa vida. Sobre estes aspectos pode-se pensar como seria o impacto no caso do bibliotecário (lembrando que tudo que for escrito ou falado, tem muito de suposição).

Apesar da Inteligência artificial estar em evolução, já começa a fazer parte do processo produtivo. Nesta perspectiva, os bibliotecários, no mercado de trabalho, devem se preocupar? 

Abraçar ou não AI não é a questão fundamental, no momento. A segurança do emprego é uma perspectiva significativa, mas que vária ou irá variar de acordo com o tipo de organização no qual o bibliotecário trabalhe. E, talvez, a resposta não seja uma questão sindical, ou apenas isto.

Se a organização dispor de recursos para implementar soluções de AI, essa será capaz de assumir muitas tarefas realizadas pelo bibliotecário. Afinal trata-se de tecnologia da informação. 

Nessa situação, o profissional precisa estar atento as inovações que o afeta, buscar se adaptar a essas inovações e criar mais valor agregado para a atividade que realiza. Quem sabe, adotar um pensamento estratégico para sua atividade e desenvolver ou se dedicar a realizar funções superiores as quais a AI não é capaz de realizar. 

Considerar que AI é uma poderosa ferramenta tecnológica, mas é uma ferramenta. Ela pode executar pesquisas com retorno de resultados mais rápido do que o bibliotecário, o que é ótimo! O bibliotecário pode explorar e utilizar isso a seu favor, de forma a economizar tempo e se concentrar em coisas relevantes e estratégias para a organização e seus clientes. Conforme mencionado, gerar mais valor agregado ao que fazia antes da AI assumir algumas das suas tarefas.

Em uma organização de menor porte, a história pode ser diferente. Afinal, soluções personalizadas de AI são extremamente dispendiosas em recursos e, por vezes, fora do alcance de muitas instituições. Desta forma, é provável que a experiência de uso seja por meio de soluções fragmentadas, adquiridas de fornecedores, para melhorar funções específicas já existentes. Nesta circunstância, bibliotecários poderão se concentrar ainda mais na exploração da AI, do que os seus pares de organizações maiores, por duas razões:

  1. Os bibliotecários podem ser as únicas pessoas, nas pequenas e médias organizações, com alguma habilidade, compreensão e proposta de uso da AI no mundo das informações (não se refere à programação, mas aplicações);
  2. Os bibliotecários podem ser descartados pela insuficiência das suas habilidades, se ignorarem o potencial da AI para aperfeiçoar as suas funções.

Para estudiosos da área, uma possibilidade certa da AI ameaçar a segurança do emprego bibliotecário é ele se concentrar nas tarefas manuais ou meramente operacionais e repetitivas, enfatizando o "mais fazer" do que o "mais pensar".

O que poderia ser particularmente interessante aos bibliotecários, diante de um horizonte do mercado preconizado com a utilização de AI? No campo de estudos da inteligência artificial e tecnologias cognitivas, os desenvolvimentos mais excitantes estão baseados na exploração do “Processamento de Linguagem Natural” (PLN). Os computadores não conseguiram, até agora, entender essa forma de linguagem, e a codificação da mesma era um tipo de "protocolo" que permitia utilizar o potencial dos sistemas computacionais. 

Entretanto, nem todo mundo dispõe de tempo, recursos ou competências para se tornar um codificador. À medida que, avançam as pesquisas sobre PLN, viabiliza-se programar os procedimentos de análise e classificação do conteúdo, para posterior recuperação de forma mais humana. 

Um processo de busca baseado em linguagem natural avançada começaria com uma solicitação de pesquisa padrão. Exemplo, uma pergunta do tipo "Por que o Império Maia desapareceu?". Ao invés de olhar para uma coleção de palavras-chave e tentar encontrar termos correlatos, essa pesquisa (sob AI) entenderia que estamos procurando uma explicação detalhada (por quê?), sobre uma entidade específica (Império Maia) e informações relacionadas a um evento ou ação (colapso, desaparecimento e dissolução). 

Os mecanismos de busca não estão muito longe deste procedimento, até porque, alguns mais avançados, incluem termos relacionados e pesquisa de sinônimos. O próximo passo importante é desenvolver uma compreensão mais detalhada do material disponível. Os atuais mecanismos de busca, apesar da proximidade, requerem ainda a intervenção humana na visualização das páginas de resultados para encontrar o que é relevante, e mesmo realizar pesquisas em outros mecanismos para localizar os itens. Os mecanismos de busca que possam operar sob ontologias conceituais e entidades-relacionamentos, em vez de termos isolados, serão um passo importante na pesquisa de informações.

Portanto, a promissora tecnologia Natural Language Generation é a que se desenvolve para o mundo empresarial e corporativo. Algumas implementações experimentais, ainda limitadas desta tecnologia, têm sido realizada na produção de textos noticiosos e de resultados econômicos, mas há muito ainda para evoluir.

Empresas e governos têm problema comum no que se refere às suas informações que devem ser usadas para tomada de decisão. Não são lidas ou mesmo consultadas. Seja por restrições de tempo, dificuldades de acesso, ou por ser a maior parte da informação, irrelevante. Situação que demonstra a perda das ideias e de dados fundamentais, ambos necessários à melhoria da tomada de decisões.

Com a linguagem natural possibilitando uma compreensão dessas informações, relatórios ou documentos personalizados podem ser gerados. Imaginemos um feed do Twitter sobre eficiências de tratamentos de saúde para um médico ou informações sobre o mercado de trabalho para um recrutador. Tudo semelhante à forma natural com que um analista aproveita o tempo para escrever o relatório. Quando analisamos esse relatório personalizado, a informação irrelevante que foi excluída é tão importante quanto a informação relevante incluída.

Então como bibliotecários podem alavancar o uso da AI para atingir os nossos objetivos de negócios com a informação registrada? Talvez pensar sobre as tarefas repetitivas que poderia ser realizada pela máquina. E muitas das tarefas realizadas no processo de organização da informação são repetitivas.

Uma área na qual a AI pode ajudar os bibliotecários é a indexação e produção de resumos. Temos competências em linguagens documentárias. Ao olhar mais do que as palavras comumente usadas, mudar para técnicas de identificação das entidades, e usar as relações entre palavras, a aplicação de AI pode propiciar progressos no processo de resumir volumosa quantidades de conteúdo. Podemos imaginar que toda biblioteca, em breve, não terá apenas um site ou página no Facebook ou alguma mídia social, provavelmente, disporá de um assistente que irá coletar e fornecer informações sobre os serviços e produtos da biblioteca e responder as perguntas dos usuários. Ferramentas de descoberta consultando as bases e repositórios, só se forem sistemas especialistas, baseados em AI.

No mundo atual, saturado de dados, esse tipo de utilização da AI pode ajudar a despender menos tempo na determinação do que é relevante, para dedicar mais tempo na sua disponibilização. 

Neste sentido, bibliotecários podem responder à crescente demanda por informações; por exemplo: fornecerem relatórios personalizados e mais completos sobre as informações existentes (em menor tempo de resposta). Pensar e empreender novas e inovadas soluções informacionais. Assumir, quem sabe, uma postura de empreendedor. 

Para finalizar, convém ressaltar que pesquisadores da Yale University e Oxford's Future of Humanity Institute, no período de maio e junho de 2016, entrevistaram centenas de líderes da indústria e acadêmicos sobre as suas previsões para quando a IA atingisse alguns marcos. Em 2017, o estudo foi publicado, ressaltando que AI será capaz de executar qualquer tarefa igual ou melhor que os seres humanos até 2060, e ultrapassará todos os trabalhos humanos até 2136. Esses resultados são baseados nas respostas de 352 especialistas. Mas, como já mencionado, tem um pouco de verdade e muito de realidade imaginária. Entretanto, por via das dúvidas: AI! AI! Bibliotecário, atenção!


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.