LITERATURA INFANTOJUVENIL


BIBLIOTECÁRIA DE AUSCHWITZ E FUMAÇA

Esta coluna é destinada a literatura infantojuvenil, no entanto, não tenho como falar do livro Fumaça de autoria de Antón Fortes, sem comentar primeiro a obra para adultos que li nesse final de semana.

Há meses comprei o livro A bibliotecária de Auschwitz escrita por Antonio G. Iturbe. Livro que se origina na entrevista de Dita Dorachova quando narra as suas vivências no campo mais cruel de concentração nazista. Nele, uma garota recebe a incumbência de manter, no bloco 31, uma biblioteca clandestina. Clandestina, pois nesse local era autorizado apenas atividades recreativas para que os pais ficassem tranquilos para cumprir as suas obrigações. 

Para o professor Fred Hirsch ninguém sabia quanto tempo as crianças ficariam ali, então não poderia desperdiçar o tempo. A ordem dada pelos nazistas era só manter as crianças ocupadas sem ensiná-las, no entanto, mesmo correndo perigo de vida, ele idealiza a biblioteca clandestina e convida a menina Dita para cumprir a função de bibliotecária. 

Tentando convencê-la o professor diz para ela “- para conduzir a biblioteca, é preciso alguém valente...” Apesar do medo, ela aceita imediatamente o desafio. 

Mas para que uma biblioteca?

[...] alguns pensarão que se trata de um ato inútil num campo de extermínio, pois existem outras preocupações mais urgentes – afinal, livros não curam doenças nem podem ser utilizados como armas para render um exército de carrascos; não enchem barriga nem matam a sede. De fato, a cultura não é necessária para a sobrevivência do homem; apenas o pão e a água. Com pão para comer e água para beber, o homem sobrevive, mas só com isso a humanidade inteira morre. Se o homem não se emociona com a beleza, se não fecha os olhos e põe em funcionamento os mecanismos da imaginação, se não é capaz de fazer perguntas e vislumbrar os limites de sua ignorância, é homem ou mulher, mas não é pessoa. Nada o distingue de um salmão, de uma zebra ou de um boi-almiscarado. (ITURBE, 2014, p.354)

No bloco 31, também em segredo, havia alguns livros vivos, isto é, adultos que tinham livros na memória (idêntico ao livro Fahrenheit 451) e que os narravam para as crianças. Mas e os livros impressos? Como caminhar com os livros sem o perigo de ser pega e exterminada? A menina estrategista, pede a uma prisioneira, amiga de sua mãe para costurar bolsos em seu vestido e ali camuflar os livros. Dessa forma ela conseguiu cumprir sua tarefa com muita valentia.

Muitas outras obras foram publicadas para adultos nessa temática e os mediadores de leitura precisam lê-las visando ampliar o seu repertório. As que eu li foram: O menino do pijama listrado (John Boyne), A menina que roubava livros (Markus Zuzak) e O diário de Anne Frank (Anne Frank). Mas sem dúvida a mais impactante foi A bibliotecária de Auschwitz. 

E o livro Fumaça? Não vou abordar a capa que fala por si:

 

 

Me lembrei dos meus sobrinhos mais novos - Pedro e Tiago - na época com 15 e 11 anos respectivamente, que perguntaram, ao verem a mãe sair para o trabalho com este livro na mão, se ela iria lê-lo para as crianças. Receberam como resposta um “sim” e ficaram um tanto impactados.

Pensando nisso transcrevo da quarta capa do livro o seguinte comentário: “As situações vividas pelo personagem deste livro acontecem durante a Segunda Guerra Mundial: um dos capítulos mais tristes da nossa história, mas que precisa ser contado. Para não ser esquecido e sobretudo repetido!”

Também penso assim. Esconder verdades humanas (ops, nesse caso desumanas!) não permite o amadurecimento emocional das crianças. Minha defesa é pela pluralidade literária para que as crianças compreendam o mundo ao seu redor, mas poupá-las dizendo que não existe ou que não houve essa barbárie é hipocrisia. Infelizmente há nos últimos anos no Brasil um movimento semelhante no discurso de algumas autoridades de que aqui não houve ditadura militar.

A obra Fumaça foi selecionada para o catálogo White Ravens 2009 – Biblioteca Internacional da Infância e da Juventude de Munique, Alemanha. No Brasil foi publicado pela Editora Positivo e traduzida do galego pelo professor, linguista Marcos Bagno e autor de vários livros.

A ilustração é triste e foi realizada por Joanna Concejo numa delicadeza e força fenomenal. As palavras de Antón Fortes eu já havia lido nos livros de adultos e também estão aqui: batatas cruas, diarreia, chaminé, bolha, curativo, alambrado, vagões, fila, contagem, fuzil, fumaça, fome, sede... 

Leio e releio para nunca mais esquecer e quero que isso NUNCA mais aconteça. Os trechos a seguir alfinetam minha cabeça e minha emoção: 

“A roupa de mamãe fica grande nela [...]” “Ela não voltou a ver papai...” “Espero que mamãe não se preocupe quando não me encontrar em casa ao voltar do trabalho e que mais tarde não brigue comigo.”

Fumaça fez parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE 2014) e espero que não seja retirado das bibliotecas nessa onda de censura que sofre o livro infantil no Brasil. Bibliotecários e professores me ajudem a defender essa e outras obras!!! Se Antonio Candido ainda estivesse entre nós diria que o leitor tem Direito à literatura!! 

Sugestões de leitura:

BOYNES, John. O menino do pijama listrado. São Paulo: Cia das Letras, 2014.

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. São Paulo: Melhoramentos, 1953.

FORTES, Antón. Fumaça. Curitiba: Positivo, 2011.

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2017.

ITURBE, Antonio G. A bibliotecária de Auschwitz: um romance baseado numa história real. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2014.

ZUSAK, Markus. A menina que roubava livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.