LITERATURA INFANTOJUVENIL


A COMPETIÇÃO VIROU UM VÍCIO

Com Ana Paula Pereira

Na coluna de agosto 2003 escrevi um texto intitulado A criança e a leitura das imagens. Tem um texto da minha irmã Solange intitulado Livro de narrativa visual: a quem é endereçado? na minha coluna em janeiro de 2017. Desde a década de 1980 eu já anunciava que sou fã e colecionadora de livros sem palavras (também chamados de “livro de imagem” “sem texto”, ou “narrativa visual”).

Esses não foram os únicos momentos que estive envolvida com estes livros e quero contar: Em 1988, no tempo em que era bibliotecária do Sesc/Londrina idealizei um livro gigante de madeira com as dimensões de 1,80m de altura e 1,20m de largura com o objetivo de reproduzir o livro de imagem Ida e Volta que é o primeiro livro desse gênero publicado no Brasil em 1976. A obra é de Juarez Machado e a reprodução foi autorizada pela sua editora. Esta obra “agigantada” ficou exposta em vários espaços de Londrina e região.

 

 

Rica experiência, um grupo de voluntários ampliou e pintou página por página que depois de montado em zig-zag permitia ao público andar entre as páginas como se as estivesse folheando. Para isso era necessário seguir as pegadas de um personagem misterioso.

Alguns anos depois a mesma estrutura de madeira foi utilizada para a reprodução autorizada do Glub glub glug no clube de Rogério Borges em 1988. Esse livro faz parte da Coleção Bons Tempos que está esgotada, mas que generosamente o autor cedeu à Rede Mediar (grupo de bibliotecários brasileiros) para digitalização e acesso público e gratuito que ocorrerá em breve (essa é uma outra história que depois eu conto!)

 

 

Rica experiência, foi divertido ver as pessoas circulando entre as páginas em zig-zag querendo saber quem era o monstro verde da piscina que estava, desde as primeiras páginas, assombrando um pálido menino.

Nessa altura da vida eu e minhas irmãs Silvia, Solange e Dirce (todas professoras) já estávamos contaminadas pelo livro sem palavras. Fui comprando e ganhando novos títulos, hoje tenho um espaço especial para eles na minha biblioteca. Preciso dizer que a minha coleção nos últimos 3 anos “engordou demasiadamente” por causa de uma ex-aluna (hoje bibliotecária). Estou falando da minha amiga Ana Paula Pereira.

Eu já conhecia a Ana há muitos anos, mas essa parceria de que vou tratar aqui começou quando ela estava escolhendo o tema para o Trabalho de Conclusão de Curso, famoso TCC e, em uma conversa, contei para ela uma experiência que tive com alunos surdos do curso de Pedagogia de uma faculdade particular em Londrina.

Contei que na disciplina de Metodologia de Pesquisa eles precisavam realizar uma atividade valendo nota e, tendo eu inúmeras dificuldades de comunicação, pela minha incapacidade de usar libras, sugeri uma mediação no Instituto de Surdos, emprestei livros e dei total liberdade. O resultado foi que os alunos narraram livros sem palavras em libras.

Rica experiência, os futuros pedagogos além de narrar em libras, deixaram as crianças manusear os livros, elas, por sua vez, se divertiram e fizeram o mesmo com seus colegas de turma.

Mas parece que o contágio não parou por aí... a Ana Paula foi bolsista CNPq e neste período fez um estudo sobre Mediação com livros de imagem abordando o uso de tais narrativas pelas professoras do Projeto Palavras Andantes de Londrina. Também realizou seu TCC no curso de Biblioteconomia da UEL cujo título é O mediador e a mediação de literatura para crianças surdas. Nesta pesquisa buscou analisar o modo como os professores podem se apropriar dos livros sem texto para incentivar e despertar o prazer pela leitura e literatura com as crianças surdas.

Rica experiência, seu discurso convence o leitor das maravilhas dos livros sem texto, mas ela vai além, entrega ao leitor uma listagem com 344 livros de autores nacionais e estrangeiros que foram publicados em terras brasileiras. Essa listagem é atualizada constantemente (hoje conta com 372 obras).

Sabem de que maneira?

Mesmo sem a intenção, nossa paixão por livros infantis sem texto virou competição (qual das duas terá a coleção maior). E a competição virou vício. Vício e competição no sentido positivo, pois uma compra um livro, e se tiver mais de um exemplar uma lembra da outra. Numa organização mais ou menos assim, estou podendo, dou de presente; não estou podendo, passo a conta!!!

Nossa tarefa é bem dividida, ela liga as antenas para o lado dos sebos e livrarias na internet e eu, para o lado das editoras brasileiras em busca de lançamentos.

Gostaria de passar a palavra para Ana Paula:

Quando decidimos pesquisar sobre os livros sem texto ou de imagem não sabia de fato do que se tratava. Aceitei sem conhecê-los, pois não lembro de ter contato com algum na infância. Neste momento de pôr a mão na massa e começar a escrever o referencial teórico busquei alguns livros sobre o assunto, mas minha orientadora, a professora Sueli, aproveitando que a UEL estava em greve, me levou uma bolsa cheia de livros para que eu pudesse ter contato e me apropriar do meu objeto de pesquisa. Voltei para casa um tanto assustada e pensei: “Será que consigo ler tudo isso?” Escolhi um do Rogério Borges e lembro que fiquei perplexa e de boca aberta. Foi paixão à primeira vista! A cada livro lido percebi que alguns nos levam ao riso outros às lágrimas, numa sensação inexplicável que depende de como aquela narrativa te toca. Minha mãe curiosa que é, pediu para ver pelo menos um e eu com medo de danificar os livros da professora, afinal eram obras de arte em nossas mãos, pedi que olhasse com atenção e cuidado. Depois de um tempo notei pelas suas reações, que ela os estava interpretando, para minha surpresa de forma mais atenta do que eu em certos momentos, principalmente para certos detalhes que fazem toda diferença. Eu na minha ânsia de chegar ao final da história, e ela com mais calma, procurando entender a alma do autor. Lembro que num primeiro momento na leitura do livro “Cena de rua” da Angela Lago encontrei dificuldade e resolvi conversar com minha mãe a respeito do livro; sua interpretação sobre a personagem em situação de vulnerabilidade me comoveu e desde então, sempre que fico em dúvida peço a ajuda dela. Lemos e conversamos, pois têm alguns livros que são mais densos (no sentido de fugir do óbvio), de sugerir, de questionar ao invés de responder. Minha mãe parece criança rindo com os livros da Eva Furnari como a obra “Catarina e Josefina” que falta na nossa coleção. De fato, a leitura do livro sem texto é contagiante, uma paixão em família: Digo que “família que lê unida, permanece unida”. Hoje ela me ajuda a escolher títulos, encontra sozinha livros sem texto no sebo e me presenteia com eles. Digo que ela morre de ciúme da nossa coleção como se fossem seus netos. Ao conhecer um menino que quer ser escritor quando crescer, ela pediu para que eu comprasse um livro sem texto para presenteá-lo. Assistindo recentemente a versão do Sitio do Pica Pau Amarelo, nos maravilhamos com a abertura que é toda em ilustração e minha mãe comentou: “olha, parece livro sem texto!” Coincidência ou não descobri que o diretor de arte desta versão é Rui de Oliveira, o autor de livros sem texto. Percebo que o olhar dela mudou, uma cena na rua, um acontecimento, algo curioso que ela percebe comenta que “isso dava um livro sem texto”. Essa semana indicou o livro “Vida moderna” da escritora Semíramis Paterno para sua amiga psicóloga trabalhar os sentimentos das crianças.

Com essa rica experiência, inspirada na professora Sueli, pude realizar a contação de histórias em libras na disciplina de Libras na graduação, usando o livro sem texto “Pela porta do coração” da Regina Rennó.

Em busca de livros e em razão da coleta de dados para nossos estudos as aventuras de Ana e Sueli não foram poucas. Íamos juntas nos sebos e livrarias em busca do elo perdido, ou melhor dizendo, de livros sem texto e eu morria de inveja (no bom sentido) da professora Sueli comprando livros tanto para meu aprendizado para o TCC quanto para listagem da bolsa de Iniciação Científica. Assim já planejava que quando pudesse iria fazer uma coleção também. Comecei encontrando uns mais acessíveis no sebo e depois descobri algumas promoções nos sites de livrarias comprando alguns títulos que conheci através da professora. Atualmente procuro diversificar para que nossas coleções se completem de alguma forma, seja com livros nacionais ou internacionais. Apesar de que os autores brasileiros merecem o nosso prestígio, já que seus trabalhos estão em um nível acima dos estrangeiros tendo em vista que são mais instigantes e curiosos. A listagem elaborada na época da graduação talvez estaria maior se no meio do caminho não tivesse um Mestrado. Finalizo defendendo que livros sem texto não são livros apenas para filhos de arquitetos, mas para filhos de professores, bibliotecários, de “limpadoras” (como minha mãe gosta de ser chamada), seja para crianças surdas, ouvintes, adultos, idosos, para todas as gentes. Se procurarmos bem podemos encontrar bons preços e excelentes obras que não podem faltar nas bibliotecas.

Sugestões de leitura:

BORGES, Rogério. Glub glub no clube. Porto Alegre: Kuarup, 1988.

BORTOLIN, Solange. Livro de narrativa visual: a quem é endereçado? Disponível em: https://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1031

BORTOLIN, Sueli. A criança e a leitura das imagens. Disponível em: https://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=118

COSTA, Aline Cristina Chanan; PEREIRA, Ana Paula; BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos. O livro de imagem e a mediação na escola. In: SEMINÁRIO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (SECIN), 7., 2017. Londrina. Anais [...] Londrina: PPGCI/UEL, 2017. p. 549-561. Disponível em: http://www.uel.br/eventos/cinf/index.php/secin2017/secin2107/paper/viewFile/445/296

FURNARI, Eva. Catarina e Josefina. Belo Horizonte: Formato Editorial, 1990.

LAGO, Angela. Cena de rua. Belo Horizonte: RHJ, 1994.

MACHADO, Juarez. Ida e volta. 5.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1987.

PEREIRA, Ana Paula. O mediador e a mediação da literatura para criança surda. 2016. 81 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biblioteconomia) – Universidade Estadual de Londrina. Londrina, 2016.

PEREIRA, Ana Paula; ALCARÁ, Adriana Rosecler. A dimensão estética da competência em informação e a leitura do livro de imagem. Incid: Revista de Documentação e Ciência da Informação, Ribeirão Preto, v. 10, n. 1, p. 130-146, mar./ago. 2019. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/151961/153407

PEREIRA, Ana Paula; BORTOLIN, Sueli. A mediação do livro de imagem no projeto Palavras Andantes em Londrina. In: SEMINÁRIO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (SECIN), 6., 2016. Londrina. Anais [...] Londrina: PPGCI/UEL, 2016. p. 95-110. Disponível em: http://www.uel.br/eventos/cinf/index.php/secin2016/secin2016/paper/viewFile/235/131

PEREIRA, Ana Paula; BORTOLIN, Sueli. O mediador e a mediação de literatura para crianças surdas. Biblioteca Escolar Em Revista, Ribeirão Preto, v. 5, n. 1, p. 83-104, 2016. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/berev/article/view/112384/116790

PEREIRA, Ana Paula; MIRANDA, Ana Maria Mendes; ALCARÁ, Adriana Rosecler.  Mediação com livros de imagem e a dimensão estética da competência em informação: contribuições para a educação ambiental. In: Perspectiva em mediação na Ciência da Informação. São Paulo: Editora ABECIN, [202?]. (aguardando publicação).

RENNÓ, Regina Coeli. Pela porta do coração. São Paulo: FTD, 1996


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.