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MENTALIDADE DIGITAL PARA SERVIÇOS BIBLIOTECÁRIOS: ALGUMAS DIVAGAÇÕES

Décadas atrás, o sucesso para adentrar no mercado de trabalho era possuir um diploma, mas não um diploma qualquer; tinha que ser um diploma de datilografia.

Requisito essencial para ocupar funções, ainda que gerais, em qualquer escritório, departamento de empresa ou repartição pública. Recordo-me que em Campinas, SP, existiam várias escolas de datilografia, e as indicadas eram as patrocinadas pela marca “Olivetti”. Possuo até hoje meu diploma de datilógrafo, obtido em um curso então localizado em prédio existente na Av. Francisco Glicério, ao lado do Largo da Catedral (ou Praça José Bonifácio).

À época (década de 1970), reinava uma mentalidade eletroeletrônica, em um mundo físico e extremamente analógico. Para um bibliotecário do período, o diploma de datilografia era muito útil. Catálogos eram impressos e os processos de disseminação seletiva da informação realizados em máquina de escrever.

Porém, com os anos chegaram os microcomputadores, as impressoras, os softwares de editoração, a internet – e da noite para o dia as escolas de datilografia sumiram do mapa, como também sumiram os catálogos em ficha e o prazer de exibir o diploma de datilografia. A mentalidade também mudou ou segue em mudança.

Na atualidade, neste cenário de pandemia, evidencia-se um mundo altamente interconectado, mas ainda sem alcançar o seu potencial máximo. Há uma variedade de inovações e saberes tecnológicos disponíveis, ao mesmo tempo em que se convive com uma lacuna geracional no domínio de competências e de aproveitamento desta variedade.

Embora o ambiente digital se envolva na vida cotidiana das pessoas, em um processo contínuo; há os que se sentem confortáveis no uso de recursos tecnológicos e, assim, detêm uma maior vantagem em relação aos que se sentem pouco ou nada confortáveis.

Estudos destacam a necessidade de se desenvolver uma mentalidade “digital” (ou mindset digital), para minimizar as lacunas de domínio e uso tecnológico. Para tentar compreender o significado de mentalidade digital, é preciso compreender que o “digital” se refere tanto às pessoas como as tecnologias, em uma integração de ambos visando resultados em benefício humano.

O ativo da mentalidade digital favorece a capacidade humana de explorar o poder do digital para transformar todas as formas de interação e ações que impulsionem o mundo evolutivamente.

Assim, para o bom desempenho humano no cenário atual, importa adotar a 'mentalidade digital', com capacidade de incorporar a tecnologia nas atribuições realizadas e disto extrair algum valor.

A mentalidade digital é um conjunto de atitudes e comportamentos que possibilitem às pessoas e organizações determinar as possibilidades tecnológicas. As mídias sociais, big data, mobilidade, nuvem, IA e a robótica são algumas das forças digitais que, atualmente, perturbam e desconstroem o mundo analógico.

É preciso aprender a lidar com a transformação digital e com este mundo de informação que requer não só competências no uso de dispositivos, mas uma adaptação do pensamento. Uma reconfiguração da mentalidade diante da nova realidade digital.

No contexto da transformação digital, a mentalidade que proporciona crescimento e qualidade de vida profissional da equipe da biblioteca, entende o que é uma tecnologia e percebe com ela impacta a sua área e o seu trabalho.

A mentalidade digital é um conceito mais amplo que a transformação digital. Como mencionado, a “mentalidade” tem foco nas pessoas que devem criar e usar a tecnologia. Ademais, a transformação digital não terá efeito sobre quem não entende o contexto da atual cultura digital.

Sobre a transformação digital, ela é um conceito que tudo modifica: as empresas, os modelos de comunicação, canais de comércio, as relações humanas, a formação profissional, o mercado financeiro, entre outros.

Como as organizações, em geral, as bibliotecas que visam a prosperidade de seus serviços, neste cenário, devem ser capazes de criar e implementar uma estratégia para os seus modelos de negócios que atendam às mudanças causadas por essas forças tecnológicas emanadas da transformação digital.

Da mesma forma, que a entidade coletiva é um conjunto articulado de pessoas em busca de sucesso em suas atividades; ao se transformar em uma entidade digital, com mentalidade digital, torna-se ativo importante. Essa mentalidade pode ser caracterizada pela capacidade de:

  • Entender o poder da tecnologia para desempenho de equipes e processos.
  • Ajustar produtos e serviços a todas as formas de interação e ação.
  • Perceber o impacto da interconexão para as atividades bibliotecárias.
  • Enfrentar as mudanças e interrupções com equanimidade e resiliência.

Saliente-se que ser detentor de conhecimento digital não é o mesmo que desenvolver uma mentalidade digital. Ser digitalmente experiente mostra a capacidade de usar tecnologias específicas e contribui para o desenvolvimento da mentalidade digital de forma integrada. Na era digital, entretanto, uma mentalidade digital é o relevante por envolver um foco humano.

A importância da mentalidade digital se reflete na melhoria da produtividade; pois as pessoas por serem naturalmente ágeis, possuem uma capacidade de reagir às mudanças, que, na Era Digital, acontecem em alta velocidade.

Eis um aspecto decisivo para se conseguir uma adaptação dos modelos de negócios aos acontecimentos, até de forma antecipada.

O conceito de mentalidade digital é também importante para os gestores de biblioteca, que têm o papel fundamental de inspirar os demais colaboradores. Além disso, precisam estar atentos aos prognósticos de futuro alinhado com as mudanças da tecnologia, como meio de gerar um sentimento de resiliência e segurança coletiva, no ambiente da biblioteca.

Na medida que a biblioteca, os seus serviços e produtos se tornem referência para outras, em especial, no que envolve a transformação digital, isso é indicativo de que as decisões tomadas estão no rumo correto.

Neste contexto, bibliotecas têm em sua rotina ações de estímulo à criatividade e práticas que deixem a percepção das suas ações inovadoras mais fáceis. As soluções aplicadas em seus serviços e produtos consideram a visão de seu público.

Em consequência, no caso do setor de tratamento técnico, os bibliotecários passam a se preocuparem em entender como a tecnologia e as mudanças de seus processos catalográficos podem atender as necessidades de seus usuários.

A transformação digital abrange a confluência das várias mídias, dos dispositivos (servidores, smartphones, tablets, notebooks etc.), e as formas diferentes de comunicar e fazer uso de cada um deles.

Para as bibliotecas o desafio, nesta era digital, está em dispor a informação necessária para o usuário certo, conforme preconiza as leis da Biblioteconomia de Ranganathan.

Para alcançar tal propósito, com a combinação dos vários recursos tecnológicos e pessoas envolvidas, a alternativa é o de desenvolver uma mentalidade digital. E isso não decreta o fim da mentalidade analógica, mas, ao contrário, dar-lhe novo sentido.

No âmbito do setor de tratamento técnico, os materiais impressos ou físicos, sob planejamento bibliográfico, podem disseminar-se por canais digitais e/ou migrar para formatos digitais, integrados por representações descritivas em estruturas de metadados que vinculam os dados de materiais híbridos em mídias ou dispositivos de consulta e acesso à informação.

Alerta-se que o apego às práticas e processos tradicionais, como resistência aos novos procedimentos de inovação pode causar a insolvência de organizações, como as bibliotecas.

No contexto atual, antigos métodos e competências não têm sobrevivência em um futuro cada vez mais presente e de exigência no uso intenso de tecnologias digitais, capacidade de adaptação, engajamento profissional na busca de conhecimentos diversificados.

Ressalte-se aqui, a analogia com a teoria da evolução, formulada por Charles Darwin, ao sustentar que as espécies evoluem e mudam ao longo dos séculos, pressionadas pela necessidade de sobrevivência.

As mudanças evolutivas, nos permite supor, que são processos adaptativos e indicando que as espécies se adaptam em decorrência da pressão da seleção natural que sofrem.

Neste contexto, os serviços bibliotecários entorno da pressão seletiva, ocasionada pelo ambiente digital, necessitam de adaptação e ajustes contínuos, para não perecerem.

Indicações de leituras:

Mentalidade digital: o que é e como criar. Control+F5, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3m8uEWC

la Torre, R. S. de. 5 princípios para construir uma mentalidade digital. Computerworld, 11/09/2018. Disponível em: https://bit.ly/34dgNbi

A mentalidade digital no ambiente corporativo. Fellipelli, 12/10/2018. Disponível em: https://bit.ly/3kgnwql

Kamath, S. What is a digital mindset and why is it important? Knolskape, 23/01/2019. Disponível em: https://bit.ly/35ivUiN

Ikamaan, F. Por que o Mindset digital é tão importante para empresas? FolhaPE, 19/03/2019. Disponível em: https://bit.ly/35fy1nz

Berenstein, M. Mentalidad digital. Empreendedores News, 13/01/2016. Disponível em: https://bit.ly/3o6slFj  


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.