LITERATURA INFANTOJUVENIL


O MENINO JÓSIK E O AVÔ MICHAEL

Hoje não vou falar de literatura infantil, vou falar de um livro brasileiro para adultos. Creio que o idealizador e mantenedor desse site não fará oposição, pois primeiro foi ele quem me deu esse livro e, segundo, porque vou falar de dois personagens: Jósik um leitor em construção e seu avô Michael que é um mediador encantador.

O

MENINO

  que COMEU uma

BIBLIOTECA

Isso mesmo na capa está escrito desse jeito. Algumas palavras com letras maiúsculas e outras com letras minúsculas. Nela há também algumas cartas de tarô e, em uma sobreposição, na horizontal, arames farpados que insinuam a cerca de um campo nazista. Isso é tão verdade que minha irmã Silvinha ao ver esse livro na mesa da minha casa virou as costas para ele dizendo: - em plena pandemia não quero ler nada triste.

Porém, “quem vê cara, não vê coração”. Há sim muita tristeza nesse livro, mas a relação neto-avô transforma os momentos difíceis em oportunidades de prazer e alegria. Isso acontecia, em especial, quando os dois estavam na fantástica biblioteca de Michael que era composta de um acervo literário de dar inveja.

Jósik sempre se deslocava a pé de sua casa até a casa de seu avô para ler com ele diferentes livros. Isso se intensificou na medida em que os nazistas foram invadindo a cidade onde moravam (Terebin-Polônia); fato este que transformou a biblioteca no principal espaço para refúgio dos dois.

Evidentemente que devo parar por aqui para não revelar conteúdos da obra, mesmo porque meu objetivo não é estragar a leitura de ninguém, mas colocar em evidência as trocas literárias entre um leitor-mediador experiente (avô) e um leitor-iniciante (neto).

Para não perder a carga emocional e afetiva, vou fazer isso recortando alguns diálogos do capítulo 1 do livro. Prometo me controlar, prometo não incluir aqui informações que denunciam o desfecho da obra. Prometo!

Se vocês estiverem pensando que é um desrespeito indicar apenas o título e ignorar os demais dados do livro, digo que não, na verdade só quis criar um pouco de expectativa...

Preciso, como bibliotecária, informar que a autora é a gaúcha Leticia Wierzchowski e a editora é a Bertrand Brasil. Essa escritora estreou na literatura em 1998 e esse livro foi publicado em 2018. Seu livro de maior visibilidade é A casa das sete mulheres que foi adaptado pela Rede Globo de Televisão e veiculado em mais de 40 países (eu retirei estes dados da segunda orelha do livro)

Michael é um professor universitário aposentado que, como um bom literato, adorava livros. Os livros comprados ininterruptamente foram, aos poucos, ocupando todos os cômodos da casa.

Isso aumentou quando ele passou a morar sozinho e foi se desfazendo da mobília e abrindo mais espaço para novos livros. Na página 17 consta: Quando os livros estavam demais a ponto de interromper uma passagem, Michael desafogava a casa sem piedade, jogando à rua suas cadeiras, uma a uma, e depois o criado-mudo, e então mesa, o armário de louças e as taças do enxoval da finada esposa.

Sua filha Flora, mãe de Jósik, era extremamente contra as loucuras que seu pai fazia para abrir espaços para os livros. Na casa dela “[...] ninguém alimentava-se de rimas e era estritamente proibido suspirar pelo destino de qualquer personagem de faz de conta.” (p.19) Michael não se deixava afetar pelo o que ela dizia e repetia pensamentos como: “Os livros são as pessoas passadas a limpo!” (p.16) ou “Como dizia Kafka, um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado dentro de nós!” (p.16).

E foi nos momentos de angústia ao perceber o desaparecimento misterioso de familiares e amigos levados um a um para o campo de concentração nazista que Michael relembrava, para o neto dormir, trechos de diferentes obras:

“A vida é como um sonho”, dizia a voz do avô nos ouvidos de Jósik, “é o acordar que nos mata”. (aspas do autor)

O velho avô sussurrava Virginia Woof para o neto, e as palavras acalmavam o rapaz. (p.21)

Apesar da mãe de Jósik achar que conseguiria fazer seu filho ficar “imune ao feitiço das narrativas”,

Quando o menino ficou um pouco maior, Michael levou-o a sua casa atulhada de livros, onde Jósik desenvolveu seu gosto por se perder entre as páginas de figuras, gastando tardes inteiras a ouvir as aventuras que o avô narrava, sacudindo a cabeleira branca com aquela sua voz de barítono. Sim, o velho, apesar da magreza, tinha voz possante e era cheio de histórias como um peru de natal é recheado de farinha com miolos.

Acho que toda infância sempre teve um avô ou uma avó, como uma planta tem a sua raiz escondida sob a terra... (p.22)

Além de gostar de livros e literatura, Michael cultivava frutas e flores mesmo nos períodos de temperatura muito baixa. Isso deixava as mulheres indignadas por não conseguir fazer a mesma proeza. Ele convicto dizia:

“Minhas roseiras florescem no inverno porque leio para elas histórias dos trópicos. Não há nada de misterioso nisso! Se vocês lessem bons livros, iriam saber que a ficção invade a vida real para nossa grande benesse e alegria!” (p.25, aspas do autor)

Sem usar a palavra mediação fui demonstrando como Michael contribui na formação leitora do neto, especificamente a curiosidade e amor pela literatura. Fez isso com muita inteligência e acolhimento. Digo isso porque o avô esperava o neto na porta da casa e dizia: “Que livro vai querer hoje?” (p.26, aspas do autor) propiciando ao neto liberdade de escolha.

Michael sabia que precisava preparar Jósik para enfrentar a vida e a morte, então apresentou paulatinamente ao seu neto: Shakespeare, Conrad, Tolstói, Dumas entre outros nomes da literatura.

Fazia isso com muito otimismo, pois “Ele achava aquela infância – a infância de Jósik – tão mágica como as suas rosas de inverno. Queria cuidar do menino com muita ficção, a melhor ficção possível, pois era o único consolo à altura das vicissitudes da realidade.” (p.26)

Torço para que minha conversa tenha provocado o desejo de leitura dessa e outras obras para enfrentarmos o discurso construído, nos últimos anos, em base frágil e com a vil intenção de que não houve nazismo e é apenas uma invenção.

Quero deixar aqui algumas perguntas para professores e bibliotecários refletirem: você se considera um mediador de literatura? Tem realizado virtual ou presencialmente mediação de literatura? Você acredita, assim como Michael e Kafka que: um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado dentro de nós! Qual a importância disso em tempos de pandemia e pós-pandemia?

Para finalizar e para não falar que não falei de livros infantis, listo os títulos dos livros infantis dessa autora que localizei em uma pequena busca na web, são eles:

O Dragão de Wawel e outras lendas polonesas, 2005; Todas as coisas querem ser outras coisas, 2006; O menino paciente, 2007; Era uma vez um gato xadrez, 2008; Semente de gente, 2010; O menino e seu irmão, 2011; Dorme, menino, 2014; Come, menino, 2014; Brinca, menino, 2015 e Coração de mãe, 2015.

Lamento não poder comentá-los, mas não conheço essas obras. Envergonho-me, pois isso comprova que relaxei na minha meta em garimpar autores que estão além das livrarias e distribuidoras existentes na minha cidade.

Confesso que tenho saudade de catálogos impressos que mexia e remexia. Outro dia pedi o catálogo de uma editora e eles nem responderam a mensagem. Creio que pensaram que eu fosse uma alma penada voltando de um gélido túmulo! 

ACORDA Sueli e navegue MAIS PELA WEB!!!


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.