LITERATURA INFANTOJUVENIL


O MEU PÉ DE LARANJA LIMA

A fruta que eu mais gosto é a banana. Gosto de laranja também, mas gosto mais da laranja lima que é menos ácida, pois tenho língua “erupnosa”, melhor dizendo, descobri há pouco tempo que para fins de estudos é denominada de fissurada. Essa língua eu herdei do meu pai que herdou da mãe dele. Acho que o leitor já deve estar imaginando que nossas línguas são assim denominadas pelas rachaduras, erupções que elas têm.

Evidentemente que não ando por aí com minha língua de fora. Porém, preciso confessar que em tempos de pandemia e com tanta resistência ao uso de máscara, sinto asco e tenho muita vontade de, atrás da minha máscara, apontar, como Einstein, minha língua para muitos, especificamente para aqueles que negam tantas evidências da COVID19.

Como uma conversa puxa outra...

Como uma lembrança também puxa outra...

Voltei ao passado quando em uma tarde abafada as crianças da Educação Infantil do Sesc Aeroporto em Londrina, brincavam alvoroçadas e da vidraça da porta da biblioteca chamavam meu nome e se escondiam, sumiam... chamavam meu nome e se escondiam... depois de várias idas e voltas, coloquei minha língua de fora em um gesto bem infantil, mas de repente, uma criança super/hiper atenta gritou:

- A Sueli tem a língua estragada! Foi um alvoroço! Obviamente que elas não sossegaram por muitos dias e eu tive que expor minha língua várias vezes naquela semana.  

Criança é um ser maravilhoso, nunca alguém classificou tão bem a minha língua. As crianças personagens de livros também são maravilhosas e eu teria muitas delas para apontar, mas hoje escolhi o Zezé do livro O meu pé de laranja lima.

Primeiro vale ressaltar que o título do livro de José Mauro de Vasconcelos, refere-se ao dia em que Zezé e sua família foram conhecer a casa onde iriam morar. Chegando lá, todos correram para escolher uma árvore e Zezé fica decepcionado com a minúscula “arvezinha” que sobrou para ele. Sua irmã Glória para consolá-lo disse:

- Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem um espinho, Ele tem tantas personalidade que a gente de longe já sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa.

- Mas eu queria um pé de árvore grandão.

- Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé de laranja. Assim ele vai crescer junto com você. Vocês dois vão se entender como se fossem dois irmãos. Você viu o galho? É verdade que o único que tem, mas parece até um cavalinho feito pra você montar. (VASCONCELOS, 1968, p.32).

Zezé conviveu boa parte da sua vida com o pé de laranja lima, para ele contou suas tristezas e alegrias. Destaco esse trecho, pois justifica o título do livro, mas o que eu gosto mesmo é do trecho a seguir. Logo que o Zezé mudou para aquela casa, a relação dele com a vizinhança foi bem tranquila. Ele se fez de santo para conquistar as pessoas. Aos poucos ele vai mostrando as garras de um menino bom, porém arteiro. Certo dia pegou

a meia preta de mulher. Enrolei ela num barbante e cortei a ponta do pé. Depois onde tinha sido o pé peguei uma linha bem comprida de papagaio e amarrei. De longe, puxando devagarinho parecia uma cobra e no escuro ela ia fazer sucesso. (VASCONCELOS, 1968, p.63)

Essa arte tão simples e marota é inesquecível. É tão inesquecível que uma noite quente, eu voltava do trabalho com o rosto suado e meus óculos enroscados na blusa não enxerguei o fio de naylon transparente esticado de uma árvore até o poste no quintal de uma casa.

Imediatamente uma meleca caiu no meu rosto, no ombro e no braço. Minha roupa clara ficou lambuzada. Primeiro pensei que fosse terra, mas ao secar o rosto, senti que havia um odor ruim e eu tive a certeza que havia caído em uma armadilha. Confirmei isso, quando ouvi risadas abafadas de crianças atrás do muro.

Você leitor, pode não acreditar, mas me lembrei do Zezé e fui para casa rindo sozinha com aquela surpreendente malandragem. O banho naquele dia foi mais demorado e com ele perdoei a malandragem de meninos reais, mas que poderiam ser personagens da ficção.

Quando eu contava esse fato, algumas pessoas perguntavam porque não fui na casa das crianças entregá-las para os seus pais.

Só tinha uma resposta: Isso é coisa de criança, inspiradas no Zezé!

VASCONCELOS, José Mauro de. Meu pé de laranja lima. 9.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1968.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.