LITERATURA INFANTOJUVENIL


A VERDADEIRA HISTÓRIA DO LIVRO MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA

Muitos livros de literatura infantojuvenil publicados no Brasil provocam sentimentos opostos, por exemplo, em alguns leitores despertam amor e em outros leitores rejeição. Um deles é Menina Bonita do Laço de Fita. Cada vez que me perguntam sobre ele, eu digo - gosto demais e conto que já vi crianças de todas as cores narrando na Universidade Estadual de Londrina, com muita alegria essa história e que percebi que eles gostavam muito também.

Na impossibilidade de entrevistar Ana Maria Machado para a Coluna, optei em dar voz a essa magnífica escritora por meio de seu livro lido e relido por mim. Nele a autora diz:

Este livro, para mim, é uma história que surgiu a partir de uma brincadeira que eu fazia com minha filha recém-nascida de meu segundo casamento. Seu pai, de ascendência italiana, tem a pele muito mais clara do que a minha e a de meu primeiro marido. Portanto, meus filhos mais velhos, Rodrigo e Pedro, são mais morenos que Luísa. Quando ela nasceu, ganhou um coelhinho branco de pelúcia, Até uns dez meses de idade, Luísa quase não tinha cabelo e eu costumava pôr um lacinho de fita na cabeça dela quando íamos passear, para ficar com cara de menina. Como era muito clarinha, eu brincava com ela, provocando risadas com o coelhinho que fazia cócegas de leve na barriga, e perguntava (eu fazia uma voz engraçada): “Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo pra ser tão bonitinha?” E com outra voz, enquanto ela estava rindo, eu e seus irmãos íamos respondendo o que nos dava na telha: é porque caí no leite, porque comi arroz demais, porque meu irmão passou pasta de dentes em mim, porque me jogaram muito talco, porque me pintei com giz etc. No fim, outra voz, mais grossa, dizia algo do tipo: “Não, nada disso, foi uma avó italiana que deu carne e osso para ela...” Os irmãos riam muito, ela ria, era divertido. Um dia, ouvindo isso, o pai dela (que é músico) disse que tínhamos quase pronta uma canção com essa brincadeira, ou uma história, e que eu devia escrever. Gostei da idéia, mas achei que o tema de uma menina linda e loura, ou da Branca de Neve, já estava gasto demais. E nem tem nada a ver com a realidade do Brasil. Então a transformei numa pretinha, e fiz as mudanças necessárias: a tinta preta, as jabuticabas, o café, o feijão preto etc. (p.65)

Na continuidade Ana Maria Machado conta que este livro provocou diferentes reações mundo a fora:

- Em países da América Latina recebeu prêmios na Venezuela, Colômbia e Argentina. (p.66)

- Na Suécia foi recomendado “[...] com exemplo de convívio multicultural e pluriétnico.” (p.66)

- Na Dinamarca um militante da causa negra considerou que ele poderia levar as pessoas negras a acreditarem “[...] que é possível que negros e brancos vivam em paz como bons vizinhos [...]” e, em consequência disso, poderiam se acomodar e não lutar pelos seus direitos. (p.66)

- Nos EUA uma professora branca e loura afirmou que era ofensivo para os negros, visto que, “[...] o coelho é um símbolo de promiscuidade sexual [...]“. Nessa ocasião uma professora negra, contou que: “[...] seus alunos tinham lido o livro e ficaram encantados, adoraram se reconhecer como bonitos e donos de um padrão invejável de beleza [...]”. (p.66-67)

A autora complementa ainda que:

- No norte do Brasil, numa livraria de Belém, apresentou-se a mim uma vendedora negra e linda, dizendo: “Muito prazer, eu queria muito conhecer você. Eu sou Menina Bonita do Laço de Fita”. E contou que dez anos antes o livro fora parar em suas mãos por acaso e ela o leu. Achava que era bonita e deliciou-se em ver que os livros reconheciam isso e eram capazes de mostrá-la linda. Identificou a leitura com verdade, coragem, e como uma espécie de espelho mágico, que a refletia e revelava como sabia que era, mas nem sempre era vista pelos outros. Interessou-se por livros, não tinha dinheiro para comprá-los, foi trabalhar numa livraria para aproveitar os momentos livres e ler tudo o que lhe caísse nas mãos. Acabava de convencer o patrão a abrir a primeira livraria infantil da Amazônia sob sua responsabilidade. (p.67)

Então, ser mediador é olhar no espelho e ter coragem de despir-se de preconceitos. Quando em dúvida, dialogar com os leitores de qualquer faixa etária e de diferentes culturas.

Para finalizar a conversa de Ana Maria Machado, eu recorto mais um trecho:

Um livro não é apenas aquilo que está escrito nele, mas também a leitura que o leitor faz desse texto. Os dois processos são ideológicos. Os dois pressupõem uma determinada visão do mundo. Para que o livro tenha um potencial rico, com muitas significações, é necessário que seja cuidado, tenha qualidades estéticas, seja um exemplo de criação original e não estereotipada. Mas, para que esse livro possa manifestar esse seu potencial, torná-lo real, é indispensável que encontre um leitor generoso que possa fazê-lo dialogar com muitas outras obras, com visões do mundo enriquecidas pela pluralidade e pela aceitação democrática da diferença. (p.67-68).

Dessa maneira, assim como mediador, o leitor tem uma enorme responsabilidade no ato de ler.

Sugestão de leitura, essa obra na íntegra:

MACHADO, Ana Maria. A ideologia da leitura. In: MACHADO, Ana Maria. Contracorrente: conversas sobre leitura e política. São Paulo: Ática, 1999.

MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita. São Paulo: Ática, 2009.

Aproveite e leia também:

LAGO, Angela. Um ano novo danado de bom! 2.ed. São Paulo: Moderna, 2003.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.