LITERATURA INFANTOJUVENIL


HORA DA HISTÓRIA: TODA CRIANÇA MERECE

Silvia Bortolin Borges
Sueli Bortolin

Ter certeza nós não temos, mas possivelmente o nosso interesse pela linguagem oral, seja influência da nossa "nona" italianíssima que morou conosco até morrer aos 85 anos. Ela diariamente rezava o seu terço, horas e horas em voz alta, misturando palavras em italiano, latim e português-abrasileirado.

Agora uma certeza nós temos: as palavras e seus significados têm exercido um fascínio constante em nós. Outro dia, por exemplo, em um evento, uma professora, se referindo ao seu trabalho com leitura na escola, disse: - "gostei tanto do livro que achei que os meus alunos mereciam conhecê-lo". Desse dia em diante o verbo merecer passou a ser um "hóspede" em nossas cabeças, provocando a seguinte reflexão: merecer é muito mais que ter direito. Ter direito é uma conquista, mas merecer, vai além, é ganhar um presente, um prêmio. E sem dúvida, toda criança merece ouvir histórias, toda criança merece "conviver" com textos literários, toda criança merece ter acesso à leitura.

E para falarmos de leitura, nos reportaremos a algumas lembranças de infância. Por sermos filhas de mãe-tricoteira, tivemos inúmeros momentos em volta do tricô, com uma mãe-leitora que tecia seus pontos e lia, tecia seus pontos (um ponto tricô e um meia)(1) e lia. Lia fotonovelas com a mesma agilidade que tecia. Contava histórias com a mesma agilidade que tricotava.

Acreditamos que cenas como estas pode explicar o nosso interesse em tecer histórias: ouvindo, contando e criando.

Pensando nos novelos de lã que estiveram presentes em nossas vidas, nas suas diferentes marcas e matizes, acabamos criando uma alegoria entre o ato de ler e o novelo de lã.

Para quem não sabe ou nunca observou como uma tricoteira tricota, precisamos explicar que nunca o fio do novelo deve ser puxado do lado de fora, pois isso pode causar um grande embaraço. O fio deve sair de dentro, porque só assim há uma garantia de tecer com êxito.

Assim acontece com a leitura, o "fio do desejo" deve vir de dentro para que com ele possamos tecer a nossa trajetória de leitor. Na fase adulta somos influenciados, em nossas leituras, por um amigo e mais fortemente pela mídia. Na infância, porém, é necessário que a criança esteja rodeada de diferentes mediadores, entre eles: familiares, professores, bibliotecários, artistas, ou seja, por aqueles que saibam puxar o fio condutor de sua leitura.

Preocupadas com isso, nos últimos anos, estamos nos empenhando em ocupar espaços para discutir a mediação da leitura, a contação de histórias e outros temas afins. Priorizamos, porém, essa discussão no âmbito da escola com professores, por considerar a infância o período mais profícuo para isso e, portanto, os professores não podem perder essa oportunidade.

No contato com esses professores comumente ocorre o seguinte questionamento: que ações realizar para a mediação da leitura? A resposta está sempre pronta: inúmeras, mas a mais importante é a reserva de um tempo diário para se contar histórias e tecer fantasias. Semelhante a "febre" do último inverno, as rodas de tricô para se tecer cachecóis e conversas, desejamos que haja uma "epidemia" de rodas de histórias.

Contar histórias é uma arte, uma das mais antigas e apesar das inovações na forma de narrar os textos, continua tendo na sua essência a preocupação de trabalhar a afetividade, a emoção e o imaginário do ouvinte.

Outro questionamento muito comum na escola é: o que fazer após a Hora da história? Primeiro não há uma obrigatoriedade de sempre se fazer alguma atividade após ouvir uma história, pelo contrário, a história ouvida sem o compromisso posterior de tarefas, tende a propiciar maior prazer permitindo à criança a expressão oral. No caso da realização de atividades é importante que o professor se preocupe em diversificá-las para que não torne a Hora da História num momento rotineiro, desinteressante e sem novidades.

Finalizando, vamos nos apoderar das idéias de Abramovich (1989, p.17) quando afirma que

É ATRAVÉS DUMA HISTÓRIA QUE SE PODEM DESCOBRIR OUTROS LUGARES, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo) (grifo da autora).

Concordamos integralmente com a autora e defendemos que o fato de ouvir histórias e entrar para o mundo da imaginação amplia a possibilidade das crianças se transformarem em adultos saudáveis.

Agora convidamos você professor, a tricotar conosco o sonho de ampliar o número de leitores em todas as escolas, utilizando o mesmo ritmo de nossa mãe, que tricotava (um ponto tricô e um meia) e lia. Contava histórias e tricotava (um ponto tricô e um meia). E assim, entrelaçados arrematamos este texto, palavra esta que tem origem do latim textu e significa tecido. Nesse contexto um tecido que foi tricotado com um fio puxado de dentro do novelo, o novelo de nossa memória de infância. Ponto final.


SUGESTÃO DE LEITURA

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989.

COELHO, Betty. Contar histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1986.

Notas
Sobre este artigo: Trecho de texto apresentado na Semana de Educação - UNIFIL - 2004.
1 - Um ponto tricô e um meia, essa era a linguagem que ela usava para nos ensinar fazer um ponto chamado sanfona.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.