LITERATURA INFANTOJUVENIL


O LEITOR

Continuando a série “Atores da Leitura”, esse mês tratarei do leitor. Quem é ele? O que merece? Como são suas reações?

 

Quem é ele? Todos os interessados em ler tudo ao seu redor (gente, livro, filme, novela – todos os tipos: fotonovela, radionovela, cibernovela...) e também aqueles que ainda não sabem que podem ser leitores e que precisamos (nós leitores) dar “uma mãozinha”.

 

O que ele merece? Merece ter a possibilidade de encontrar os mais diversificados textos e nos mais diversificados formatos e linguagens. Obviamente sem ser cobrado e desrespeitado em seus interesses.

 

Como são as suas reações? Diversas: alegrias, tristezas, desprezo, raiva, alívio, angústia, concordâncias, discordâncias, desejos, dúvidas, certezas etc...

 

A opção nessa Coluna, é trazer leitores confessos. E devo começar por uma leitora chamada Liesel Meminger, leitora esta que está perturbando meu sono. Uma personagem que me invadiu por completo. Eu não a conhecia e nem havia ouvido falar do livro em que ela mora (claro que por pura ignorância), mas uma ida à Livraria Porto (acho que porto é pra isso, levar a gente para muitas viagens!), para buscar canetas para um evento, enquanto aguardava o funcionário, me deparei com uma capa onde tinha uma árvore seca com um terreno coberto de neve. E dessa moldura cinza e triste, um detalhe, em vermelho a palavra livro no título.

                a

                 menina

                    que roubava

                  livros

 

Virei de costas, pois não estava nos meus planos investir dinheiro naquele momento em livro algum. Triste ilusão! Você deve estar imaginando que eu estou sendo dramática, mas é impossível para uma bibliotecária não se sentir seduzida por um título igual a esse. Comprei e estou lendo devagarinho, são 500 páginas de uma literatura australiana que aborda o nazismo, a morte de familiares e a adoção.

 

Estou contando isso, para deixar vocês “desejosos” de conhecer a menina Liesel Meminger e sentir a paixão que ela tem pela leitura, mesmo antes de saber ler. A narrativa muito bem construída por Markus Zusak, nos leva a refletir a respeito do encontro do leitor com o livro. Liesel, por exemplo, estabelece uma relação emocional fortíssima com os livros, utilizando-os (me parece que inconscientemente) para a construção de sua identidade, aproximação com o pai adotivo e re-encontro com os seus familiares. Seu pai desapareceu, a mãe deixou-a para adoção e o irmão morreu em um acidente aparentemente normal.

 

O primeiro livro que teve contato foi roubado do coveiro no momento em que ele enterrava o seu irmão. O segundo roubou de uma fogueira de livros realizada pelo Comando Nazista e daí em diante... Logicamente que não vou contar, mesmo porque não terminei a leitura, mas muitos outros foram roubados.

 

Você deve estar pensando porque estou falando de um livro tão denso em uma Coluna de Literatura Infanto-Juvenil? É que, nos últimos tempos, essa é a leitora mais compulsiva (e capaz de provocar compulsão) que conheci.

 

Acalme-se, pois há uma outra garota que eu gostaria de lhe apresentar. Ela chama-se... Não, ela não tem nome, e acho que Clarice Lispector fez de propósito para que cada garota (em qualquer idade) pudesse se identificar com ela.

 

BOA LEITURA!

 

FELICIDADE CLANDESTINA

 

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas.

Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestado os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, sai devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não cai nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuo. Quanto tempo? Não seu. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho  fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclama: mas este livro nunca saiu de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o  livro agora mesmo. E para mim: “e você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não sai pulando como sempre, Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Ás vezes sentava-se na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

 

 

 

LISPECTOR, Clarice. O primeiro beijo & outros contos. 11.ed. São Paulo: Ática, 1995.

 

ZUZAK, Markus. A menina que roubava livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.

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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.