LITERATURA INFANTOJUVENIL


ATENÇÃO LIVREIROS: A LEITURA DA CRIANÇA COMEÇA PELAS MÃOS

Esse texto eu escrevi por encomenda para uma revista, mas depois de inúmeras tentativas desisti de perguntar se foi publicada ou não. Se foi, foi impresso, então resolvi incluir na minha Coluna desse mês por dois motivos:

 

1) outro dia passei algumas horas na seção infantil de um sebo e percebi que ali tinham pessoas preocupadas com crianças leitoras. Havia um espaço reservado a elas com mesas e cadeiras coloridas e no tamanho adequado (isso é raro!);

2) verifiquei que o texto pode trazer subsídios à todos os mediadores de leitura infantil, independente de onde atuam ou trabalham.

 

Então vamos lá...

 

Na década de 90 tive uma livraria especializada para o público infanto-juvenil. (falo tanto nisso que acho que você leitor já sabe). E essa foi uma atividade que desenvolvi durante alguns anos com muito prazer. Portanto, a “voz” que vocês irão “ouvir” aqui é de uma ex-livreira, de uma bibliotecária pesquisadora/colecionadora de livros infanto-juvenis e também de uma mediadora de leitura/contadora de histórias, muito apaixonada que defende o resgate dessa paixão, também no meio livreiro.

 

Para iniciar de fato essa conversa quero evidenciar a importância dos adultos (proprietário, funcionário e familiares) em permitir que os clientes mirins possam circular livremente, ou seja, possam “ler com as mãos” o produto-livro.

 

Estudos demonstram que os indivíduos, em especial, os bem pequenos necessitam de experiências concretas na infância para descobrir o mundo e se sentirem mais seguros. Dessa forma, as crianças precisam de espaços fisicamente estruturados para se sentirem confortáveis nos ambientes. E os objetos e as ações de uma livraria, voltada às crianças devem ser planejados de maneira a contribuir para a construção de significados culturais positivos no imaginário infantil a cerca do livro e da leitura.

 

Bom humor no atendimento é sempre importante, mas a criança não teve ter as bochechas apertadas como prova de eficiência. E nem ser obrigada a ouvir o excessivo uso de palavras no diminutivo (criancinhas, cadeirinhas, livrinhos, lindinhos), atitude equivocada visando uma aproximação afetiva, mas que tem se mostrado inútil.

 

As cores no ambiente são sempre bem-vindas, desde que não ultrapassem a barreira do inconveniente e do exagero, pois o livro por si só contém na capa cores e ilustrações que é um estímulo visual suficiente.

 

Para Paloma Fernández de Avilés pesquisadora em leitura “o mobiliário tem que ser visualmente atrativo e aconchegante [...] deve agradar desde o primeiro instante e essa sensação de bem-estar tem que se prolongar nas próximas visitas.” Móveis com beiradas pontiagudas devem ser evitados e em caso de adaptações, sugiro a aquisição de cantos de borracha, que na atualidade, estão sendo desenvolvidos com a finalidade de proteger o público infantil de possíveis acidentes.

 

Além disso, o mobiliário deve possuir uma altura condizente com a estatura do cliente, não só para facilitar a visualização do produto-livro, como possibilitar o manuseio e a escolha do mesmo no momento da compra. As estantes e os expositores, quando necessário, devem ser fixados nas paredes evitando que na euforia e espontaneidade, as crianças acabem por tombá-los. Nem devem estar abarrotados de livros, pois além de estragá-los, confundem o cliente das mais diferentes faixas etárias em suas buscas.

 

Os tapetes propiciam o conforto necessário para as crianças que querem apreciar um livro; mas, sugerimos a eliminação dos tradicionais tapetes de fibras têxteis, que facilitam a proliferação de ácaros e podem provocar crises alérgicas, substituindo-os pelos tapetes emborrachados que, além de serem coloridos, são práticos e fáceis de higienizar.

 

O planejamento das instalações inclui também o planejamento da iluminação e da ventilação e ainda controle de temperatura, de maneira a propiciar ao cliente infantil e aos funcionários, o conforto físico e visual. Entre os itens apontados, a iluminação é a que requer maior atenção, pois um local sombrio, não prejudica apenas os leitores com baixa visão, provoca fadiga visual e desejo de abandono do ambiente.

 

Quero reforçar que o espaço infantil de uma livraria deve estar bem localizado, com iluminação, ventilação e temperatura adequadas; com mobiliário confortável, decoração bonita e equipamentos modernos; mas não se pode descuidar do estoque de livros, pois dele depende a motivação para se permanecer leitor (principalmente em se tratando de clientes que estão cada vez mais exigentes).

 

É importante lembrar também que ao lado do espaço infantil deve-se, com outras características, criar um espaço para os pré-adolescentes, que não cabem nas cadeiras e mesas destinadas às crianças e querem ser tratados de maneira diferenciada.

 

Organizar um espaço para os adultos, de preferência com sofás confortáveis, é outra sugestão interessante, pois não podemos esquecer que estes são modelos para as crianças, além disso, são eles que no final, decidem pela compra ou não dos produtos.

 

Para finalizar, gostaria de alertar que, em geral, a televisão (muito comum nas grandes livrarias) faz parte do cotidiano familiar e o livro não. Assim instalar uma TV na livraria não garante nem a venda e nem a manutenção de clientes. Pelo contrário, o livreiro perde a oportunidade de evidenciar que livro também é um brinquedo divertido e que precisa estar nas mãos das crianças para que elas possam aprender a “conviver” com ele.

 

 

Sugestão de Leitura:

 

FERNANDEZ AVILÉS, Paloma. Servicios públicos de lectura para niños y jóvenes. Gijón (Asturias): Ediciones TREA, 1998.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.